spot_img
Home Blog Página 2

Cidades pequenas lidam com grandes problemas

0
Lula libera R$ 266,5 milhões para cidades em calamidade na Zona da Mata Mineira
Foto: Corpo de Bombeiros de MG/Divulgação

Dados mostram que municípios mineiros com população reduzida têm as perdas com desastres climáticos potencializadas por falta de verba para execução de obras

A destruição causada pelas fortes chuvas que, na última semana, atingiram a Zona da Mata não se restringiram a Juiz de Fora e Ubá, que lideram a infeliz contagem de mortos e desabrigados. Outras cidades da região, de população menor, como Astolfo Dutra, com 14 mil habitantes, Matias Barbosa, também com 14 mil, e Cataguases, com 66 mil, terão de enfrentar as dificuldades para se reerguer diante de um orçamento mais limitado em comparação a municípios maiores.

A falta de investimentos de cima para baixo ao longo dos anos traz enormes prejuízos para os cofres públicos e para os mineiros quando combinada a grandes volumes de chuva. Dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID), vinculado ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, mostram que o estado já perdeu R$ 71,1 bilhões, direta e indiretamente, desde 1991 por catástrofes causadas por alagamentos, enxurradas, inundações, precipitações intensas e movimento de massa (como deslizamentos).

Cerca de metade desse valor foi perdido em cidades pequenas, com menos de 10 mil habitantes, onde os danos causados pela combinação entre falta de infraestrutura e fenômenos naturais de alta intensidade já significaram um prejuízo de R$ 35,6 bilhões. Os dados, ainda que significativos, apresentam certa defasagem, já que o governo federal só os contabilizou até 2024 – a atualização anual acontece sempre no mês de maio para contabilizar o período chuvoso anterior.

SEM UM CENTAVO

Se a situação é complicada para grandes prefeituras, mesmo com orçamentos maiores, as pequenas sofrem com a dificuldade para ter acesso a dinheiro público para execução de obras. Prefeito de Cipotânea, cidade de 5 mil habitantes localizada na Zona da Mata, a cerca de 170 quilômetros de Juiz de Fora, Roberto Henriques, o Robertinho (PP), denuncia a falta de investimentos do governo federal no município.

“As experiências com o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, retomado pelo governo Lula) não são ruins. Elas são péssimas. Cipotânea não recebeu um centavo dos projetos que foram aprovados para serviços emergenciais, de prevenção de encostas. O que recebi aqui, na área de Defesa Civil, foram coisas muito pontuais, como colchões, do governo estadual. Mas, obras? Até hoje, na minha gestão, Cipotânea não recebeu um centavo”, diz.

Conhecida pela produção artesanal em palha de milho, Cipotânea tem um projeto habilitado para “contenção de encostas” em leito de rios que passam pela cidade junto ao Novo PAC. O valor total gira em torno dos R$ 1,7 milhão, mas o recurso ainda não chegou. “Depois que acontece a tragédia, a culpa é de quem?”, questiona Robertinho.

Neste ano, a cidade não enfrentou grandes problemas com as chuvas, apenas manutenções com maquinário pesado em estradas rurais danificadas pela erosão. Mas, em 2023, o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres contabilizou 94 desabrigados e desalojados na cidade. Na série histórica iniciada em 1991, Cipotânea registra 274 pessoas afetadas nessas duas condições e um prejuízo de R$ 14,4 milhões.

DESAFIO TÉCNICO

Em Tumiritinga, no Vale do Rio Doce, a baixa arrecadação é o principal desafio do prefeito Nilson Guimarães, o Nilson do Caminhão (MDB), para dar resposta ágil a desastres. O município teve seu pior período chuvoso em 2022, quando o sistema do governo federal registrou 290 desabrigados e desalojados – são 1.220 na série histórica, além de R$ 195,3 milhões em prejuízos.

“Tumiritinga possui economia predominantemente baseada em atividades primárias (agronegócio) e forte dependência do FPM (Fundo de Participação dos Municípios). Em situações de desastre, nossa arrecadação diminui e a prioridade orçamentária passa a ser essas despesas emergenciais. Isso reduz demais a nossa capacidade de iniciar rapidamente obras de reconstrução. Dependo de recursos externos (dos governos do estado e federal)”, afirma.

Outra dificuldade, segundo Nilson do Caminhão, é a pequena estrutura da Defesa Civil local. A cidade até tem engenheiros de plantão, uma estação meteorológica própria e uma pick-up para logística, mas o grande problema é a falta de dinheiro. “Os repasses da Defesa Civil Nacional exigem documentação técnica detalhada. Qualquer inconsistência pode atrasar ou inviabilizar a liberação de recursos. Em municípios pequenos, a dificuldade está na elaboração técnica correta e tempestiva (dentro do prazo) desses documentos”, diz o prefeito.

MAIORES PREJUÍZOS

A cidade com maior perda monetária por conta de desastres hidrológicos em Minas, segundo os dados abertos do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres do governo federal, é Caraí (19 mil habitantes), localizada no Vale do Jequitinhonha. O prejuízo lá, desde 1991, com eventos do tipo, alcança R$ 1,3 bilhão.

Em segundo lugar, aparece Rio Pardo de Minas (28 mil habitantes), no Norte do estado, com R$ 932 milhões. Quem fecha o pódio é a pequena Mathias Lobato, Vale do Rio Doce, com R$ 707 milhões em prejuízo por alagamentos, enxurradas, inundações, precipitações intensas e movimento de massa.

Outras quatro cidades com menos de 10 mil habitantes figuram entre as 10 maiores perdas da série histórica mineira: Frei Gaspar (Jequitinhonha, R$ 683 milhões); Nazareno (Central, R$ 662 milhões); Campanário (Rio Doce, R$ 658 milhões); e Dom Bosco (Noroeste, R$ 608 milhões). Em BH, o prejuízo total assinalado pelos dados gira em torno dos R$ 190 milhões.

Para contabilizar as perdas monetárias, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) soma três tipos de danos: os materiais; os públicos; e os privados. Entram na conta não só o valor dos imóveis atingidos diretamente, mas despesas com abastecimento de água, assistência médica, distribuição de energia e de combustíveis, limpeza e reciclagem, esgotamento sanitário e até mesmo para o comércio, agronegócio e indústria locais, entre outros.

PROCESSO BUROCRÁTICO

Em janeiro do ano passado, Dom Silvério, na Zona da Mata, vivenciou uma tempestade histórica. Os 150 mm de chuva que caíram em apenas 20 minutos deixaram 104 desalojados e 15 desabrigados, além de destruição por toda a cidade quando o transbordamento do Rio do Peixe inundou dezenas de casas. Conforme dados do S2ID, a reconstrução de Dom Silvério após as chuvas de 2025 foi estimada em R$ 4 milhões, e o prejuízo, público e privado, em torno de R$ 2,9 milhões.

Um ano após o desastre, a pequena cidade, de apenas 5 mil habitantes, ainda não foi totalmente reconstruída. O principal dano causado pelas chuvas foi a destruição de duas pontes na região urbana e 12 na zona rural. Das referidas estruturas, a maior parte foi reconstruída pela prefeitura, mas a demora para liberação de recursos pela Defesa Civil Estadual faz com que uma delas ainda esteja no chão.

“Demorou quase um ano pra gente conseguir os recursos. É um processo muito burocrático, sabe? O bairro continua ilhado. Nós fizemos uma passagem provisória na época, onde só passavam pedestres e motociclistas, que persistiu até janeiro. Agora, a gente desmanchou essa passagem, porque a gente tá construindo a ponte lá agora”, detalha José Bráulio (União), prefeito de Dom Silvério.

O chefe do Executivo conta que a liberação dos recursos para a reconstrução da ponte foi feita apenas em dezembro do ano passado. Antes disso, para agilizar a construção, a prefeitura adiantou o processo de licitação, e agora, com o maquinário na rua, a previsão é entregar a estrutura em cinco meses. Para minimizar novos desastres, o município construiu 25 barraginhas na zona rural com capacidade de 1 milhão de litros de água cada – e a previsão é construir outras 25.

Dom Silvério tem uma estrutura enxuta para o enfrentamento às chuvas, conforme detalha o prefeito. A Defesa Civil Municipal, por exemplo, é formada por apenas um gestor. Na tentativa de ampliar a capacidade de reação, o município integra o Consórcio Intermunicipal Multissetorial do Vale do Piranga (Cimvalpi), iniciativa que reúne 46 municípios da região. No pós-chuva do ano passado, o consórcio atuou na cidade destinando trabalhadores para os serviços de limpeza da lama, reconstrução das pontes, entre outros serviços.

Ainda assim, explica José Bráulio, a baixa capacidade financeira dificulta com que prefeitos de municípios menores possam fazer grandes investimentos em mitigação dos danos. “Nós estamos colhendo frutos de anos e anos de degradação e de desmatamento. E agora é um trabalho reverso que a gente tem que fazer, de conscientização da população. Precisa todo mundo estar engajado junto ao Poder Público para amenizar essas enchentes e essas tragédias recorrentes”, defende.

“Demorou quase um ano pra gente conseguir os recursos. É um processo muito burocrático, sabe?” José Bráulio, Prefeito de Dom Silvério.

PEDIDOS DE AJUDA

Dos 94 municípios mineiros que tiveram ao menos um registro reconhecido de eventos adversos no atual período chuvoso, 41 (43%) possuem menos de 10 mil habitantes – para o cálculo, foram considerados pedidos reconhecidos pelo estado, União ou ambos. A região com o maior número de cidades com algum registro, independentemente do tamanho da população, é a Zona da Mata, com 21 (22%).

Fonte: Estado de Minas

Projetos de lei criminalizam o ódio às mulheres

0
Projetos de lei criminalizam o ódio às mulheres
Foto: Camila Domingues/ Secom - Palácio Piratini

A misoginia, que consiste no ódio ou aversão às mulheres, pode se tornar crime. É o que determinam projetos de lei em análise no Senado.

Além de medidas de combate à misoginia, também há nas proposições medidas para estabelecer uma política de prevenção e para melhorar o atendimento às vítimas.

Um dos projetos é o PL 896/2023, da senadora Ana Paula Lobato (PDT-MA), que define misoginia como a conduta que manifeste ódio ou aversão às mulheres, baseada na crença da supremacia do gênero masculino. O texto está na Comissão de Direitos Humanos (CDH) para a análise de emendas apresentadas em plenário e tem como relatora a senadora Augusta Brito (PT-CE).

O projeto altera a Lei do Racismo (Lei 7.716, de 1989) para tipificar a misoginia como crime de discriminação. Pelo texto, o primeiro artigo da norma passa a ter a seguinte redação: “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional ou praticados em razão de misoginia”.

Em outubro de 2025, a autora do projeto afirmou ter sido alvo de ameaças de morte por causa do texto. As ameaças, feitas pelas redes sociais, foram repudiadas em nota pela Procuradoria da Mulher no Senado.

Aprovado em dezembro pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), em decisão final, o projeto seguiria para a Câmara dos Deputados, mas foi alvo de recurso do senador Eduardo Girão (Novo-CE) para a análise em plenário. O argumento do senador é de que a definição de misoginia adotada é ampla e imprecisa, abrindo espaço para criminalizar condutas que não configuram ódio ou aversão real às mulheres.

O projeto tramita em conjunto com o PL 985/2023, do senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), que também busca transformar em crime a misoginia.

e-Cidadania

O mesmo objetivo está em um projeto de lei decorrente de uma ideia legislativa apresentada no Portal e-Cidadania. A ideia alcançou 23.307 apoios no portal, ultrapassando o mínimo de 20 mil manifestações exigidas para análise pelo Senado, e foi transformada em sugestão legislativa. Aprovada pela CDH, a sugestão originou o PL 2.882/2023, em análise na mesma comissão.

A ideia foi enviada pela psicóloga e professora da Universidade de Brasília (UnB) Valeska Zanello, pesquisadora reconhecida na área de gênero e saúde mental. À equipe do portal e-Cidadania, Zanello afirmou que não se trata só da penalização dessa prática, mas também de educação. “É impossível falar da saúde mental sem tratar da misoginia, e o Brasil se construiu, historicamente, em cima de duas violências estruturais: o racismo e o sexismo”, disse a professora.

Assim como ela, qualquer cidadão pode enviar ideias legislativas, acompanhar a tramitação de projetos de lei e participar de consultas públicas, opinando sobre proposições em análise no Congresso pelo site www.senado.leg.br/ecidadania.

Outros projetos

A lista de projetos de combate à misoginia tem ainda o PL 4.224/2024, também da senadora Ana Paula Lobato, que institui a Política Nacional do Combate à Misoginia, com diretrizes e instrumentos para a prevenção, a conscientização, a proteção e a responsabilização penal  nesses casos. O projeto, em análise na CDH, tem como relator o senador Eduardo Girão.

Já o PL 4.403/2024, da senadora Teresa Leitão (PT-PE), cria um protocolo nacional para ser utilizado em situações de racismo, misoginia, discriminação por motivo de orientação sexual ou de identidade de gênero, registradas dentro das escolas. O texto também está na CDH, onde tem como relatora a senadora Professora Dorinha Seabra (União-TO).

Fonte: Agência Senado

Nova Reforma Tributária: o que está em jogo nos municípios

0
Nova Reforma Tributária: o que está em jogo nos municípios
Foto: Enviada por Marco Zanatta

Enquanto o debate nacional se concentra nas regras do novo sistema, a preparação real começa na estrutura de dados e processos das prefeituras.

A nova reforma tributária foi apresentada como a maior mudança no sistema de arrecadação das últimas décadas. O debate público gira em torno de siglas, percentuais, cronogramas e disputas federativas.

Mas, para quem está na ponta da gestão municipal, a pergunta relevante é outra: o que isso muda, de fato, na realidade da prefeitura?

Já a resposta é mais profunda do que parece. A reforma não começa na Constituição. Ela começa no cadastro da sua prefeitura.

Durante anos, muitos municípios enxergaram o ISS (Imposto Sobre Serviços) como o centro da arrecadação sobre serviços. A emissão da nota fiscal parecia o ponto final do processo.

Com o novo modelo, essa lógica se amplia. O IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), que substituirá o ISS, será operado de forma nacional, com governança compartilhada e critérios de repartição baseados em dados estruturados.

E aqui está o ponto central: o município continuará sendo o produtor primário dessas informações.

Cada alvará concedido, cada obra aprovada, cada evento licenciado, cada retenção feita pela própria prefeitura gera dados que influenciam a arrecadação futura.

Se essas informações não forem organizadas, validadas e integradas, a cidade perde capacidade de capturar sua própria receita.

A reforma é nacional. A preparação é local.

A transição até 2033 pode dar a sensação de tempo disponível. Esse é um dos maiores riscos.

A organização cadastral, a integração de sistemas e a digitalização de fluxos não acontecem da noite para o dia. Exigem diagnóstico, alinhamento político, investimento e mudança cultural.

O novo modelo fortalece a tributação no destino. Isso significa que a arrecadação acompanhará o local onde o serviço é efetivamente consumido. Mas, para que isso funcione, o sistema nacional dependerá da precisão das informações fornecidas pelos municípios.

  • Se o cadastro imobiliário não reflete a realidade construída, a tributação da construção civil perde base.
  • Se o cadastro mobiliário estiver desatualizado, a identificação da atividade econômica fica comprometida.
  • Se a retenção na fonte não é controlada com rigor, o município já perde receita hoje — e continuará perdendo amanhã.

Não é alarmismo. É lógica sistêmica.

Um sistema nacional de arrecadação distribui recursos com base nos dados que recebe. Dados frágeis produzem repasses frágeis. Dados inconsistentes deslocam arrecadação para outras localidades.

A cidade que não organiza sua informação, na prática, subsidia a arrecadação de quem organiza.

Há outro aspecto relevante. A reforma também altera a dinâmica política da arrecadação. 

Com o Comitê Gestor do IBS (CG-IBS), estados e municípios passam a compartilhar a governança do imposto. Isso traz equilíbrio federativo, mas também exige maturidade técnica.

Municípios que dominam seus próprios dados participam do debate com autoridade. Os que não dominam tornam-se dependentes.

A discussão deixa de ser apenas jurídica. Ela passa a ser estrutural.

Não estamos falando apenas de tecnologia. Estamos falando de gestão pública, de capacidade administrativa, de visão estratégica. O que sustenta a arrecadação não é a lei isoladamente, é o conjunto de processos que antecedem o fato gerador.

Quando um empreendedor solicita um alvará e encontra um fluxo claro, digital e integrado, a prefeitura não apenas facilita a vida do contribuinte. Ela produz informação qualificada.

Quando uma obra é aprovada e automaticamente atualiza o cadastro imobiliário, o município constrói memória fiscal. Quando a retenção na fonte conversa com o sistema de arrecadação, o controle deixa de ser manual e passa a ser sistêmico.

Esse é o novo jogo. A reforma tributária do consumo não elimina a responsabilidade municipal. Ao contrário. Ela a evidencia.

A arrecadação continuará nascendo na rotina administrativa, a diferença é que agora ela será processada dentro de uma infraestrutura nacional de dados.

É nesse ponto que muitos gestores precisam refletir:

  • A sua prefeitura sabe exatamente onde nascem as informações que impactam a arrecadação?
  • Esses dados são integrados ou estão espalhados em sistemas que não conversam entre si?
  • Existe rastreabilidade das alterações cadastrais?
  • Há histórico confiável?

Essas perguntas parecem técnicas. Na verdade, são estratégicas.

Municípios que já iniciaram um processo de transformação digital perceberam que integrar secretarias não é apenas uma questão de eficiência interna. É uma forma de proteger receita futura.

Quando Fazenda, Obras, Planejamento e Tecnologia trabalham com bases unificadas, o município reduz lacunas e fortalece sua posição no novo modelo federativo.

O improviso custa caro

A reforma cria um ambiente em que o improviso custa caro. Não será possível depender de planilhas paralelas, cadastros incompletos ou processos fragmentados.

O modelo de destino exige clareza sobre onde o serviço foi prestado e quem participou da operação. Isso passa por cadastro atualizado, integração com bases territoriais e capacidade de fornecer informações estruturadas quando solicitadas.

Prefeitos e secretários precisam compreender que a preparação para a reforma não é um projeto tributário. É um projeto de governança.

Organizar fluxos de abertura e alteração de empresas; revisar cadastro imobiliário; integrar licenciamento de obras ao sistema fiscal; estruturar a retenção na fonte; padronizar dados. Esses movimentos fortalecem a arrecadação atual e constroem resiliência para o futuro.

A boa notícia é que esse processo não depende da regulamentação final para começar. O diagnóstico pode ser feito agora. Aliás, quanto mais o município adia esse movimento, mais complexa se torna a transição.

No fim das contas, a discussão não é se a reforma é boa ou ruim. Ela é uma realidade constitucional. A reforma é nacional. A preparação continua sendo uma escolha local.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

Investimento estrangeiro na bolsa brasileira soma R$ 42,56 bi até fevereiro

0
Investimento estrangeiro na bolsa brasileira soma R$ 42,56 bi até fevereiro
Foto: Ilustração gerada por IA/ CNN Brasil

Analista levanta quatro pontos que “a literatura acadêmica e a prática de mercado oferecem” para explicar fluxo de investimento estrangeiro no país

Os investidores estrangeiros movimentaram R$ 401,6 bilhões em compras e R$ 385,5 bilhões em vendas na bolsa brasileira no mês de fevereiro, resultando na entrada líquida de R$ 16,09 bilhões no mercado nacional, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta.

Somado ao resultado positivo de R$ 26,47 bilhões aferido em janeiro, 2026 totaliza, até o momento, a injeção de R$ 42,56 bilhões de recursos de estrangeiros no mercado financeiro brasileiro. O montante é ligeiramente superior ao valor de mercado da Raia Drogasil, hoje ao redor de R$ 41,8 bilhões.

O número impressiona por três razões, segundo o CEO da Elos Ayta, Einar Rivero:

  1. O montante é 1,58 vez superior ao fluxo registrado em 2025, que encerrou com entrada líquida de R$ 26,87 bilhões;
  2. 2026, ainda em fevereiro, está em patamar próximo a anos inteiros considerados fortes para a bolsa;
  3. O movimento evela uma mudança de intensidade no comportamento do capital internacional.

Sobre o investidor que chega ao Brasil, Rivero destaca que houve uma “mudança de escala operacional do investidor estrangeiro na B3”.

Colocando os números em perspectiva, janeiro de 2026 foi o maior fluxo mensal desde o mesmo mês de 2022, considerando IPOs (ofertas públicas iniciais) e follow-ons; enquanto fevereiro aparece como o oitavo melhor do período.

Não obstante, o CEO da Elos Ayta ressalta que “o impacto foi direto na pontuação do Ibovespa”, relembrando os recordes seguidos que o principal indicador da bolsa renovou no período recente.

E mesmo retirando o efeito de operações estruturadas, “o fluxo é essencialmente de mercado secundário, compra líquida de ações já listadas”, pontua Rivero.

Após um 2024 amargo para o mercado, ano em que o Ibovespa registrou queda de 10%, o analista afirma que “o dado mais relevante é a velocidade da reversão: após um 2024 negativo, o fluxo volta em 2025 e acelera significativamente em 2026. Esse padrão sugere não apenas ajuste tático, mas possível reprecificação estrutural de risco Brasil”.

Por que o investidor estrangeiro está colocando dinheiro no Brasil?

Einar Rivero levanta quatro “hipóteses consistentes” que “a literatura acadêmica e a prática de mercado oferecem”:

  1. Teoria do diferencial de juros e carry trade: países com juros mais elevados atraem capital de países onde estão menores, na busca por prêmio. Uma vez que o risco cambial é controlado, o fluxo aumenta;
  2. Teoria da reprecificação relativa (valuation gap): após períodos de baixa performance, mercados emergentes tendem a ficar “mais baratos” frente a desenvolvidos, o que leva o mercado a direcionar capital para onde o risco-retorno é mais assimétrico;
  3. Efeito portfólio global (modelo de Markowitz aplicado internacionalmente): gestores globais buscam diversificação e o Brasil, quando barato e com liquidez, volta a compor alocação estratégica;
  4. Ciclos de liquidez global.

“Quando o dólar perde força ou as condições financeiras globais se afrouxam, parte do capital migra para ativos de maior beta, como ações brasileiras”, pondera Rivero.

“O comportamento atual parece combinar os quatro vetores: prêmio real elevado, múltiplos comprimidos nos anos anteriores, melhora de percepção relativa e maior apetite a risco”, conclui.

Fonte: CNN Brasil

Mudanças climáticas encurtam o período de floração e frutificação de espécies do Cerrado

0
Mudanças climáticas encurtam o período de floração e frutificação de espécies do Cerrado
Foto: Arquivo/ Agência Brasil

Agência FAPESP* –Gabriela Andrietta | Agência FAPESP *

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revelou que as mudanças climáticas estão alterando o ritmo reprodutivo das plantas do Cerrado.

Ao longo de 15 anos de observações mensais (2005-2019), os cientistas constataram que a duração do período de floração e frutificação das espécies diminuiu significativamente, especialmente entre aquelas que dependem de polinizadores, principalmente abelhas, para se reproduzir.

A pesquisa, publicada na revista Functional Ecology, analisou 31 espécies de árvores e arbustos em uma área de vegetação nativa em Itirapina (SP). O trabalho faz parte do Programa de Monitoramento Fenológico de Longa Duração do Cerrado, do Laboratório de Fenologia da Unesp de Rio Claro, coordenado por Patricia Morellato, e é parte da tese de doutorado de Amanda Eburneo Martins, realizado com bolsa da FAPESP.

Segundo Martins, primeira autora do artigo, as espécies que dependem de animais para a polinização apresentaram redução no tempo de duração da floração ao longo dos 15 anos, em resposta à diminuição da precipitação. Já na frutificação, fase em que os frutos se desenvolvem e amadurecem, a duração diminuiu tanto em espécies dependentes quanto independentes de polinizadores, sendo afetada pelo aumento da temperatura média e pela redução da umidade relativa do ar.

Essa diminuição ocorreu principalmente no final do período reprodutivo, já que as datas de início e de pico da floração e frutificação permaneceram estáveis. Isso indica que, embora as plantas continuem iniciando seu ciclo reprodutivo nas mesmas épocas do ano, estão florescendo e frutificando por menos tempo.

“Com menos tempo de floração, há menor disponibilidade de recursos florais para os polinizadores dessas espécies vegetais, como as abelhas. Da mesma forma, a redução na duração da frutificação pode comprometer o estabelecimento de novos indivíduos vegetais e diminuir os recursos alimentares para espécies frugívoras, que se alimentam de frutos e dispersam sementes, o que pode afetar a regeneração das plantas e o equilíbrio do ecossistema do Cerrado”, explica Martins.

Outro resultado relevante é o declínio da cofloração – ou seja, da sobreposição de períodos de floração entre espécies diferentes. Esse padrão foi observado tanto em plantas dependentes quanto independentes de polinizadores. Como a maioria das espécies estudadas é polinizada por abelhas, a redução da cofloração pode aumentar a competição de polinizadores por plantas e de plantas por polinizadores, já que há menos flores disponíveis simultaneamente.

Apesar dessas mudanças, o estudo constatou que o sucesso reprodutivo da comunidade permaneceu estável ao longo do período analisado, indicando que, até o momento, as espécies do Cerrado estudadas demonstram certa resiliência frente às mudanças climáticas recentes. Essa resiliência pode estar relacionada a adaptações evolutivas antigas, desenvolvidas durante períodos climáticos extremos do passado, como as oscilações do Pleistoceno (período geológico que se estendeu de aproximadamente 2,6 milhões a 11,7 mil anos atrás, marcado por intensas mudanças climáticas), e que hoje podem conferir uma vantagem adaptativa diante das mudanças climáticas atuais.

Métodos diferentes

“A metodologia que usamos nos trópicos é diferente daquela aplicada no hemisfério Norte. Lá, eles utilizam o que chamam de first flower [primeira floração] e first leaf bud [primeiro aparecimento de um broto foliar]. Simplesmente anotam essas ocorrências pontualmente, não se tratando, na maioria dos casos, de indivíduos marcados. É apenas uma observação cronológica ao longo do ano”, compara Morellato, que é diretora do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP.

“Obviamente, eles têm séries de muitas décadas, mas a fenologia que fazemos aqui é muito mais detalhada. Nós vamos ao campo pelo menos uma vez por mês e marcamos todas as fenofases: o primeiro botão, a flor aberta, o primeiro fruto verde, o fruto maduro, o primeiro broto foliar, a proporção de folhas novas, a produção de folhas e sua queda. Ou seja, observamos muito mais fenofases e acompanhamos continuamente indivíduos marcados. Isso traz um detalhamento e uma sofisticação maior aos dados, embora, é claro, em áreas mais reduzidas. Por outro lado, esse tipo de acompanhamento permite uma análise mais consistente ao longo dos anos”, detalha a pesquisadora.

O Cerrado é uma das regiões mais impactadas pelas transformações ambientais, marcada por uma intensa expansão agrícola. “Essa expansão avança em direção ao norte, formando o chamado ‘arco da devastação’, que representa a fronteira entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, na região central do Brasil. Por isso, é essencial compreender o que está acontecendo com o Cerrado e reconhecer sua importância em toda a sua área de distribuição”, diz Morellato. De acordo com a pesquisadora, dados climáticos mais detalhados, integrados a informações sobre comunidades vegetais e animais, são o foco de um novo artigo que deve ser publicado em breve.

“Estamos realizando análises semelhantes em outros tipos de florestas, como na amazônica e em campos nativos. Já temos séries de dados amazônicos ainda mais longas, e isso será extremamente relevante para compreender os efeitos das mudanças climáticas em diferentes biomas brasileiros”, conclui a pesquisadora.

O artigo Climate-induced shifts in long-term tropical tree reproductive phenology: Insights from species dependent on and independent of biotic pollination pode ser lido em: besjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/1365-2435.70090.

* Gabriela Andrietta é bolsista de Jornalismo Científico da FAPESP vinculada ao CBioClima.

Fonte: Agência FAPESP

Cidades inteligentes usam dados para antecipar desastres e salvar vidas

0
Inscrições abertas: edital oferta apoio de até R$ 500 mil para projetos que conectem clima e economia
Foto: Gerada por IA/ Gemini

Avanço da urbanização e crise climática pressionam gestores públicos a investir em tecnologia, integração de políticas e inclusão social

Mais da metade da população mundial já vive em áreas urbanas, proporção que deve se aproximar de 70% até meados do século. Esse crescimento acelerado, muitas vezes marcado por ocupações em encostas, margens de rios e regiões sem infraestrutura adequada, amplia a exposição a enchentes, tempestades e ondas de calor cada vez mais intensas. Diante desse cenário, cidades ao redor do mundo recorrem a dados e tecnologias digitais para antecipar riscos e reduzir perdas humanas e econômicas.

Especialistas apontam que a combinação entre urbanização desordenada e mudanças climáticas cria um ambiente propício para desastres mais frequentes e severos. Relatórios recentes do IPCC indicam que, na última década, o número de mortes causadas por eventos como inundações e secas foi muito superior em regiões altamente vulneráveis quando comparadas às áreas com melhores condições socioeconômicas. Fatores como pobreza, idade, gênero e condições de saúde ampliam o impacto dessas ocorrências.

Leia mais: Infra S.A fortalece agenda ambiental com monitoramento da qualidade do ar e gestão de emissões no transporte

Nesse contexto, as chamadas cidades inteligentes ganham espaço ao incorporar ferramentas como big data, sensores conectados e inteligência artificial. A proposta é transformar grandes volumes de informações, climáticas, ambientais e urbanas, em decisões rápidas e precisas.

Sistemas baseados em análise massiva de dados permitem identificar padrões históricos e cruzá-los com informações coletadas em tempo real. Com isso, gestores conseguem prever, por exemplo, o risco de transbordamento de rios e acionar planos de contingência antes que a água invada bairros inteiros.

Leia mais: Governo Inteligente: da digitalização de serviços à governança orientada por IA

A Internet das Coisas (IoT) complementa esse ecossistema ao espalhar sensores por pontos estratégicos da cidade, monitorando níveis de água, temperatura, umidade e qualidade do ar. 

Já a inteligência artificial processa esses dados em velocidade e escala impossíveis para equipes humanas. Algoritmos são capazes de detectar anomalias, simular cenários futuros e indicar quais regiões devem ser priorizadas em situações de emergência. Em cidades como Nápoles, análises preditivas têm sido utilizadas para mitigar efeitos de ondas de calor e inundações, fortalecendo a capacidade de reação do poder público.

A principal mudança trazida por essas tecnologias é a substituição de estratégias reativas, baseadas apenas na reconstrução após o desastre, por abordagens preventivas. Ao antecipar riscos, é possível evacuar áreas, reforçar infraestruturas críticas e proteger populações vulneráveis antes que o pior aconteça.

No Brasil, a gestão de riscos dialoga com diversas políticas públicas, da defesa civil ao saneamento, da saúde à habitação. No entanto, especialistas alertam que a falta de integração entre marcos legais e planos setoriais ainda dificulta uma atuação coordenada.

Apesar dos resultados promissores, a adoção de tecnologias inteligentes enfrenta barreiras importantes. O alto custo de implementação, a ausência de padrões comuns para compartilhamento de dados e a desigualdade no acesso às inovações podem limitar seus benefícios.

Leia mais: Conheça 5 benefícios de investir em eficiência energética

Comunidades marginalizadas, que muitas vezes vivem nas áreas mais expostas a riscos, nem sempre são contempladas por soluções digitais. Sem políticas públicas inclusivas, a tecnologia pode aprofundar desigualdades já existentes.

Outro entrave é a interoperabilidade entre sistemas. A ausência de modelos padronizados para coleta e análise de dados dificulta a troca de informações entre cidades e países, reduzindo o potencial de cooperação global.

Especialistas defendem que reduzir desastres exige mais do que sensores e algoritmos. É necessário reconhecer que eventos extremos não são apenas fenômenos naturais, mas também resultado de escolhas de desenvolvimento e ocupação do território.

A resiliência urbana, entendida como a capacidade de resistir, adaptar-se e se recuperar rapidamente de choques, depende de planejamento integrado, participação comunitária e governança colaborativa. Cidades são polos de inovação e podem acelerar essa transformação ao conectar dados, políticas públicas e engajamento social.

Leia mais: Quais são as cidades mais inteligentes do Brasil?

Investir em informação de qualidade, monitorar indicadores e alinhar planos municipais são passos essenciais para consolidar uma gestão integrada de riscos. Em vez de concentrar recursos apenas na reconstrução após tragédias, a aposta em prevenção e adaptação pode salvar vidas e liberar investimentos para áreas como educação, saúde e desenvolvimento sustentável.

Em um mundo cada vez mais urbano, dados bem utilizados deixam de ser apenas números: tornam-se ferramentas estratégicas para proteger pessoas e garantir o futuro das cidades.

Entre Padrões e Fluxos: O limite invisível das cidades inteligentes passa pela governança da água

0
Entre Padrões e Fluxos: O limite invisível das cidades inteligentes passa pela governança da água
Foto: Divulgação Embratur

Da origem das cidades às agendas de inovação, a água permanece como eixo estruturante da vida urbana, revelando que não há inteligência nem resiliência sem gestão equitativa

Nenhuma cidade surge, se expande ou se consolida sem dispor de uma base hídrica capaz de assegurar a sobrevivência de sua população e a reprodução de suas dinâmicas urbanas. Mais do que um recurso destinado ao abastecimento humano, a água constitui elemento estruturante do espaço urbano e fundamento material da vida coletiva.

Historicamente, as cidades se estabeleceram junto aos rios. A proximidade da água viabilizou a produção econômica, o transporte e a integração territorial, ao mesmo tempo em que forneceu energia e sustentou a organização cotidiana da vida social. Com a consolidação das metrópoles modernas, essa centralidade não diminuiu; ao contrário, foi ampliada e reorganizada por meio de grandes obras e redes: a água passou a sustentar processos industriais, cadeias produtivas e estruturas cada vez mais complexas de infraestrutura urbana.

No século XX, a expansão das redes de abastecimento e esgotamento sanitário foi celebrada como conquista civilizatória e marco da modernidade. A universalização do saneamento converteu-se em indicador de saúde pública e progresso urbano. Contudo, esse indicador revela sua dimensão política; já que, longe de se restringir à provisão de um recurso essencial, a água tornou-se instrumento de gestão territorial e marcador persistente das desigualdades sociais.

A África do Sul oferece um exemplo emblemático. Durante o regime do apartheid, o abastecimento foi sistematicamente privilegiado nas áreas destinadas aos grupos social e politicamente dominantes, enquanto territórios ocupados por populações marginalizadas enfrentavam precariedade e escassez. Mesmo após o reconhecimento constitucional do direito à água, a herança espacial dessa ordenação desigual permanece visível. A crise hídrica de 2018, na Cidade do Cabo, evidenciou como, em contextos de escassez, hierarquias sociais preexistentes tendem a se aprofundar: bairros mais favorecidos mobilizam recursos privados de adaptação, enquanto parcelas mais vulneráveis da população permanecem dependentes de serviços públicos fragilizados — cenário previsível, embora profundamente lamentável.

Dinâmica semelhante pode ser observada na capital paulista. Como demonstrado em estudo sobre padrões urbano-demográficos, “mesmo com a quase universalização dos serviços de saneamento básico (…), as condições sanitárias da cidade de São Paulo ainda constituem um importante elemento de desigualdade intraurbana” (Nery et al., 2019, p. 30) . A ampla disseminação desses serviços, portanto, não elimina por si só as assimetrias inscritas no território; ao contrário, pode coexistir com processos históricos de diferenciação socioespacial, expressos nas condições de acesso e na qualidade de sua distribuição.

No estudo citado, o acesso à água potável — assim como à rede de esgotamento e à coleta de lixo — não aparece como o principal marcador das diferenças locais. Variáveis associadas à expansão urbana e às características socioeconômicas do responsável pelo domicílio, por exemplo, apresentam maior peso na distinção entre localidades. Ainda assim, esses três serviços urbanos essenciais integram a estrutura que diferencia territórios. Mesmo quando não figuram como os fatores mais evidentes, estruturam oportunidades, produzem vulnerabilidades e condicionam trajetórias de desenvolvimento.

A importância da água ultrapassa a dimensão estritamente sanitária. Ela integra um sistema socioambiental que articula “elementos geoecológicos à ordem social” (Idem, p. 13), sintetizando a forma como características ambientais — como áreas de risco geológico, mananciais e zonas periurbanas — se entrelaçam com processos de urbanização.

As áreas de proteção de mananciais exemplificam essa tensão. Parte significativa do território paulistano localiza-se em zonas estratégicas para o abastecimento. A expansão urbana sobre esses espaços evidencia o conflito entre o direito à moradia e a preservação ambiental, que, em determinadas situações, assume contornos ainda mais preocupantes pela atuação de organizações criminosas. Assim, a água emerge como desafio permanente para as políticas públicas e para a gestão do território.

Essa lógica também se manifesta na dinâmica de alertas da Defesa Civil. Enchentes e deslizamentos atingem de forma desproporcional áreas onde a infraestrutura é mais frágil e a ocupação urbana ocorreu à margem das diretrizes formais de planejamento. A vulnerabilidade, nesse caso, não decorre exclusivamente de fatores naturais, mas da articulação entre ambiente e sociedade.

A mudança climática intensifica esse cenário. Eventos extremos de escassez hídrica e de precipitação desafiam os sistemas de abastecimento e a gestão de riscos de desastres. Cidades dotadas de planejamento integrado e monitoramento constante tendem a enfrentar melhor as crises hídricas, enquanto aquelas marcadas por desigualdade e fragmentação territorial veem ampliadas suas vulnerabilidades. Nesse sentido, a governança da água converte-se em indicador privilegiado da resiliência urbana.

Esses desafios produzem impactos que ultrapassam a dimensão ambiental. Interrupções prolongadas comprometem cadeias produtivas e afetam a vitalidade econômica da cidade. Eventos pluviais de maior magnitude também reconfiguram a experiência urbana e alteram a relação dos cidadãos com o espaço que habitam. Em ambos os casos, a canalização de cursos d’água e a impermeabilização do solo têm buscado domesticar a natureza em nome do progresso urbano. Contudo, enchentes recorrentes lembram que a água não desaparece sob o concreto nem se submete integralmente ao planejamento urbano, impondo seus próprios limites.

O controle técnico sobre a água assume nova dimensão quando consideramos as cidades inteligentes. No campo hídrico, apresenta-se a promessa de eficiência por meio de sensores, monitoramento em tempo real e uso ampliado de inteligência artificial. Entretanto, a incorporação de tecnologia não garante, por si só, resiliência. Episódios recentes de enfrentamento de eventos climáticos extremos mostram que falhas de comunicação, gargalos institucionais e problemas de interoperabilidade podem comprometer respostas emergenciais. Sua eficácia depende de coordenação interinstitucional, comunicação integrada, clareza nos fluxos de decisão e preparação prévia. Sistemas de alerta, imagens de satélite, drones e modelos digitais são ferramentas fundamentais, mas só produzem resultados quando inseridos em redes de cooperação. Não há cidade inteligente onde a água não seja governada com equidade.

Além disso, uma cidade pode ser digital e ainda reproduzir desigualdades no acesso à água, sendo, portanto, pouco “smart”. A verdadeira inteligência urbana — conectada, eficiente e sustentável — exige integração entre técnica, planejamento e inclusão. Sistemas sofisticados de monitoramento precisam dialogar com a redução de vulnerabilidades que se concentram em territórios e grupos socialmente mais expostos.

São Paulo oferece um exemplo concreto dessa exigência de integração entre técnica, planejamento e inclusão. Nos territórios onde dimensões habitacionais, ambientais, sanitárias, de mobilidade e de segurança se entrelaçam, os recursos hídricos continuam a revelar desigualdades persistentes. A exposição ao risco e a fragilidade ambiental diferenciam profundamente esses territórios dos bairros consolidados. Assim, ainda hoje, a água permanece como elemento ativo na (re)produção da estrutura social.

Retomando o caso sul-africano, observa-se como a água pode sedimentar hierarquias históricas, enquanto o caso paulistano demonstra que ela continua estruturando desigualdades e vulnerabilidades urbanas. Essas constatações colocam em questão leituras do projeto das cidades inteligentes que supõem que a integração tecnológica possa operar de forma autossuficiente na produção de resiliência urbana.

Em última instância, a água foi, é e seguirá sendo condição material da cidadania. Onde flui de forma segura e equitativa, a cidade pode prosperar de maneira inclusiva; onde escasseia ou se distribui de forma desigual, suas fissuras tornam-se visíveis. Pensar a água é pensar a cidade — não apenas como espaço físico, mas como sistema complexo em que ambiente e sociedade são indissociáveis. A verdadeira inteligência urbana será aquela capaz de reconhecer que a água, mais do que recurso, é fundamento de equidade e sustentabilidade. Se a gestão hídrica permanece frágil ou desigual, não se trata de uma falha setorial, mas de um limite do projeto que se pretende inteligente.

¹A crise hídrica de 2018 na Cidade do Cabo, na África do Sul, foi provocada por uma severa seca nos três anos anteriores, que levou os reservatórios da cidade a níveis críticos. Diante da possibilidade do chamado “Day Zero” — quando o abastecimento público poderia ser interrompido — o governo impôs rígidas restrições de consumo. A crise foi evitada com a redução drástica do uso de água e o retorno das chuvas, mas evidenciou fragilidades no planejamento hídrico e profundas desigualdades socioespaciais no acesso aos recursos públicos essenciais e na capacidade de adaptação.

²NERY, Marcelo Batista; SOUZA, Altay Alves Lino de; ADORNO, Sergio. Os padrões urbano-demográficos da capital paulista. Estudos Avançados, São Paulo, v. 33, n. 97, p. 5–36, 2019. DOI: https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3397.002.

 

Chave de API do Google gera dívida de US$ 82 mil após ataque cibernético

0
Chave de API do Google gera dívida de US$ 82 mil após ataque cibernético
Foto: Freepik/pongsaksapakdee

Startup mexicana pode fechar após ataque explorar chave pública que o próprio Google orientava a deixar exposta

Uma startup mexicana acumulou mais de US$ 82 mil em cobranças não autorizadas no Google Cloud após ter uma chave de acesso roubada e usada por criminosos para acionar modelos de inteligência artificial da empresa.

O ataque durou 48 horas, em fevereiro deste ano, e representou um aumento de 46.000% sobre o gasto mensal normal da empresa. O Google, até o momento, mantém que a dívida é da vítima.

Crachá digital virou senha de cofre

Para usar serviços externos, como os mapas ou a inteligência artificial do Google, desenvolvedores precisam de uma chave de API. Trata-se de uma sequência de caracteres única que funciona como um crachá digital, identificando quem está fazendo as requisições e em qual conta cobrar.

Para serviços como o Google Maps e o Firebase, uma plataforma de desenvolvimento de apps, o próprio Google sempre orientou que essa chave não era um segredo. Ela deveria ser incorporada diretamente ao código do site, visível a qualquer um. Isso porque a chave só identificava o projeto, não dava acesso a nada sensível.

O problema começou quando o Google lançou o Gemini, sua linha de inteligência artificial generativa, e passou a aceitar essas mesmas chaves antigas como forma de acessar os novos modelos de IA sem avisar ninguém.

A vulnerabilidade é ativada quando alguém da equipe habilita a API do Gemini na conta da empresa, ainda que para um projeto interno pequeno, para que a chave pública já existente passe a funcionar também como credencial de acesso à IA.

A conexão entre as duas ações não é óbvia, e o Google não emite nenhum alerta sobre ela.

Como os criminosos encontraram a chave

As chaves do Google seguem um padrão fixo, todas começam com a sequência AIza. Isso as torna facilmente localizáveis por ferramentas automatizadas que vasculham a internet em busca de padrões específicos, um processo chamado de varredura de segredos.

Com essas ferramentas, criminosos examinam milhões de páginas públicas e repositórios de código até encontrar uma chave válida. Foi exatamente isso que aconteceu com a startup. A chave estava exposta porque deveria estar, seguia as instruções do Google.

Quando os criminosos perceberam que ela também funcionava para o Gemini, passaram 48 horas fazendo requisições massivas aos modelos de geração de texto e imagem, que estão entre os mais caros da linha, o que resultou em US$ 82.314,44 em cobranças não autorizadas.

Ao perceber o ataque, a empresa excluiu a chave comprometida, desativou os serviços de IA e gerou novas credenciais. Esse processo é chamado de rotação de credenciais, equivalente a trocar as fechaduras depois que uma cópia da chave foi roubada. O estrago, porém, já estava feito.

A resposta do Google

Em vez de absorver os custos, um representante do Google citou o modelo de responsabilidade compartilhada, princípio do setor que diz que o provedor protege a plataforma, enquanto o cliente protege suas próprias credenciais. A posição foi que a vítima deveria pagar a dívida.

“Se o Google tentar cobrar até mesmo um terço desse valor, nossa empresa irá à falência”, escreveu o desenvolvedor no Reddit. “Estamos sobrevivendo com dificuldade.”

O problema é muito maior

Enquanto o caso ganhava repercussão, pesquisadores da empresa de segurança Truffle Security revelaram a escala real do problema. Ao vasculhar milhões de sites, encontraram 2.863 chaves ativas e expostas com a mesma vulnerabilidade, todas criadas como identificadores públicos, todas agora capazes de autenticar o acesso ao Gemini.

A Truffle havia reportado isso ao Google em novembro de 2025. A resposta inicial foi que se tratava de “comportamento intencional”, nada a corrigir.

A empresa só revisou sua posição quando os pesquisadores apresentaram um exemplo dentro da própria infraestrutura do Google, uma chave incorporada num produto da própria empresa em 2023, como identificador público, que agora autenticava o Gemini.

Diante disso, o Google reclassificou o caso como bug (falha de sistema) e começou a trabalhar em uma correção. Em fevereiro de 2026, informou que o problema ainda estava sendo investigado. Nenhum resultado concreto foi anunciado.

Fonte: TecMundo – Cecilia Ferraz

Belém, sede da COP30, mostra ao Brasil como tradição e inovação podem caminhar juntas

0
Belém, sede da COP30, mostra ao Brasil como tradição e inovação podem caminhar juntas
Foto: Hugo Tomkiwitz/Agência Belém

Da herança histórica aos desafios urbanos, a capital paraense transforma a COP30 em vitrine de oportunidades e contradições do Brasil

Quando foi escolhida para sediar a COP30, Belém passou a ocupar o centro das atenções globais. Mas, muito antes de receber delegações internacionais para discutir o futuro do clima, a capital paraense já acumulava séculos de história, desafios urbanos complexos e uma vocação singular para o diálogo entre culturas. A cidade, que nasceu às margens da Baía do Guajará e do rio Guamá, ensina ao Brasil que desenvolvimento sustentável exige mais do que apenas o planejamento: é preciso levar em conta a memória e a participação popular.

Fundada em 12 de janeiro de 1616 por Francisco Caldeira Castelo Branco, Belém cresceu junto com a própria formação do Pará. Ao longo de quatro séculos, consolidou-se como entreposto comercial estratégico na Amazônia, especialmente a partir das rotas de especiarias que marcaram sua economia e identidade. Ainda no período colonial, a cidade se organizava em ruas estreitas e lotes alongados, com edific ações simples e predominância de casas térreas próximas aos templos religiosos. No século XVIII, ao se tornar capital do então Estado do Grão-Pará, ganhou relevância política e administrativa.

Leia mais: COP30 em Belém: O Pedal entre a Vitrine Global e a Realidade das Periferias

No final do século XIX e início do XX, a chamada Belle Époque deixou marcas profundas em sua paisagem urbana. A influência europeia se traduziu em prédios imponentes, praças e equipamentos culturais que até hoje compõem um patrimônio reconhecido nacionalmente. Atualmente, 23 bens materiais são tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), reforçando a singularidade arquitetônica e histórica da cidade.

Conhecida como “Porta da Amazônia”, Belém é também síntese de um bioma moldado por séculos de ocupação humana. Com população estimada em cerca de 1,39 milhão de habitantes, segundo o IBGE, e uma região metropolitana que concentra aproximadamente um terço dos moradores do Pará, a capital enfrenta pressões típicas de grandes centros urbanos: expansão desordenada, déficits de saneamento, dificuldades de mobilidade e desigualdades no acesso a serviços públicos.

Na educação, persistem desafios como evasão escolar e exclusão digital. Na saúde, o crescimento populacional e a desigualdade territorial sobrecarregam a rede de atendimento, sobretudo nas periferias. Esses entraves evidenciam que o debate climático não pode ser dissociado da agenda social. Sustentabilidade, em Belém, passa necessariamente por equidade.

Leia mais: Carta de Belém pela Eletromobilidade

Ao mesmo tempo, a cidade oferece ao país exemplos de potência cultural e econômica. O Círio de Nazaré, uma das maiores manifestações religiosas do Brasil, mobiliza multidões e impulsiona o turismo. A culinária local, resultado da combinação de saberes indígenas, africanos e europeus, tornou-se referência internacional. Pratos como maniçoba, pato no tucupi e açaí reafirmam a identidade amazônica. Em 2015, Belém recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) o título de Cidade Criativa da Gastronomia, reconhecimento que fortalece a articulação entre tradição e geração de renda.

O turismo, aliás, é um dos pilares da economia local, atraindo visitantes de diferentes países interessados na combinação de biodiversidade, hospitalidade e gastronomia. A realização da COP30 ampliou esse alcance, projetando Belém como vitrine global da Amazônia.

Leia mais: COP30: os quatro pontos que definiram a conferência do clima em Belém

Durante os dias da conferência, a cidade viveu uma efervescência incomum. Delegações estrangeiras circularam por bairros centrais e periféricos, onde rodas de conversa e manifestações culturais transformaram praças e escolas em espaços de debate sobre clima e justiça social. Moradores relatam que a experiência foi marcada por intensa troca cultural: uma vivência coletiva que extrapolou os eventos oficiais.

Encerrada a conferência, a rotina retornou, mas a cidade não é mais a mesma. A COP30 evidenciou o protagonismo das periferias amazônicas como territórios de conhecimento, resistência e criatividade. Mesmo quem não dominava outros idiomas encontrou formas de se comunicar e compartilhar experiências. A memória desses dias permanece como combustível para novos projetos comunitários.

O evento também acelerou compromissos institucionais. A participação de Belém em fóruns internacionais, como o Smart City Expo LATAM Congress 2022, já sinalizava a busca por soluções inovadoras. Normas técnicas brasileiras voltadas à gestão urbana sustentável, como as ABNT NBR ISO 37120, 37122 e 37123, passaram a integrar o debate local, embora com a consciência de que padrões globais precisam ser adaptados às especificidades culturais e climáticas amazônicas.

Leia mais: SUS na COP30: mais de mil atendimentos são registrados pelo centro de operações em saúde em Belém

Além da projeção internacional com a COP30, Belém também ganhou reconhecimento no cenário nacional ao se destacar no ranking Connected Smart Cities, consolidando-se como a cidade mais inteligente da Região Norte. O levantamento avalia indicadores como governança, mobilidade, meio ambiente, tecnologia, inovação, educação e saúde, evidenciando avanços importantes da capital paraense em planejamento urbano e gestão pública. 

A prefeitura tem anunciado iniciativas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com foco em governança digital, mobilidade sustentável, modernização da infraestrutura e ampliação da participação cidadã. Experiências como o Fórum Permanente de Participação Cidadã “Tá Selado” reforçam a aposta em uma gestão mais transparente e colaborativa.

A COP30, nesse contexto, funciona como catalisador. Além de demandar investimentos em transporte, saneamento e conectividade, com aportes municipais, estaduais e federais, o encontro abre espaço para parcerias internacionais voltadas à inovação climática e à melhoria da qualidade de vida. O desafio é transformar obras e acordos em legado duradouro.

Leia mais: Veja o que mudou na cidade de Belém para sediar a COP30

O que Belém ensina ao Brasil é que não há contradição entre tradição e inovação. Uma cidade com raízes no século XVII pode, ao mesmo tempo, preservar seu patrimônio, valorizar saberes ancestrais e investir em tecnologia e governança digital. Pode celebrar sua gastronomia e biodiversidade enquanto discute padrões internacionais de sustentabilidade.

Ao sediar a COP30, Belém mostrou que a Amazônia não é apenas cenário de debates globais, mas sujeito ativo na construção de respostas para a crise climática. E revelou que o futuro sustentável do país depende tanto de grandes acordos internacionais quanto da energia comunitária que transforma ruas, bairros e consciências, principalmente depois que as luzes do evento se apagam.

Londres é eleita melhor cidade da Europa em 2026; confira top 10

0
Londres é eleita melhor cidade da Europa em 2026; confira top 10
créditos: TfL/ Divulgação

Infraestrutura, mercado imobiliário e hotéis de luxo contribuem para que a capital britânica lidere a lista pela quarta vez consecutiva

Londres foi considerada a melhor cidade da Europa pelo quarto ano consecutivo, segundo o “2026 Europe’s Best Cities Report”, da consultoria internacional Resonance. O ranking elenca as 100 principais potências do continente, com base em uma avaliação de 180 cidades com mais de 500 mil habitantes.

Paris, Berlim, Roma e Barcelona também ganharam destaque, muito por conta da vida noturna, das oportunidades de negócios, da rede de transporte público, da natureza e dos pontos turísticos.

Abaixo, confira destaques das cinco cidades mais bem coloadas do ranking:

1. Londres

De acordo com o relatório, a capital do Reino Unido atrai um público global que vai de estudantes a turistas e empresários. Isso se reflete nos gastos dos viajantes internacionais, que em 2024 atingiram quase 18,9 bilhões de euros (cerca de R$ 114,7 bilhões). Em 2025, Aeroporto de Heathrow registrou um número recorde de chegadas, recebendo mais de 84 milhões de passageiros. Além disso, o Aeroporto de Gatwick foi modernizado recentemente, reforçando a infraestrutura da cidade.

Já o mercado imobiliário de luxo vive um momento de transformação. Ao mesmo tempo que mudanças tributárias afastaram compradores internacionais, houve um excesso de oferta que barateou os preços e passou a atrair americanos.

No setor hoteleiro de luxo, algumas novidades recentes são: o Newman Hotel, aberto em fevereiro no centro da cidade, e o The Chancery Rosewood, inaugurado em outubro em Mayfair. Nos últimos anos, nomes como o The Peninsula London, perto do Hyde Park, e o Raffles London at The OWO, que ocupa o antigo escritório de guerra de Winston Churchill, ajudaram a elevar a reputação da cidade.

Para 2026 são esperados mais dois hotéis cinco estrelas: o The Waldorf Astoria London Admiralty Arch, com 100 quartos e vistas para o Palácio de Buckingham, e o Cambridge House, Auberge Collection, na área de Piccadilly, ocupando uma mansão georgiana do século XVIII, restaurada com 102 acomodações.

Essas e outras transformações reforçam Londres como a principal destino para investimentos diretos do continente desde 2023.

“Londres é verdadeiramente a cidade global da Europa: com uma economia de um trilhão de dólares, mais áreas verdes do que qualquer outra cidade do continente e conexões incomparáveis ​​com o resto do mundo”, comenta Laura Citron, CEO da London & Partners.

2. Paris

A capital da França ficou com a segunda posição do ranking, apresentando a “sinfonia urbana mais fascinante do planeta”, como aponta o relatório. De acordo com o documento, os Jogos Olímpicos de 2024 fizeram a cidade se reinventar, melhorando o transporte para ciclistas e pedestres. O metrô está sendo reformado para se tornar uma das redes de transporte público mais densas da Europa.

No lado comercial, as Galeries Lafayette Champs-Élysées são o ponto central da revitalização da avenida, com galerias de design rotativas que abrigam marcas temporárias. Na cultura, o Museu do Louvre planeja por uma reforma de 800 milhões de euros, o Museu d’Orsay ganhará uma nova ala, a Fundação Cartier para a Arte Contemporânea acabou de abrir as portas e o Museu Giacometti ocupará a antiga estação ferroviária Gare des Invalides a partir de 2028.

Novos destinos gastronômicos complementam as atrações para moradores e turistas. Um exemplo é o Le Grand Café, dentro do Grand Palais. No total, a cidade conta com 129 restaurantes com estrelas Michelin.

Na hotelaria, o Four Seasons Hotel George V concluiu uma renovação de três anos que redesenhou seus 243 quartos e suítes pela primeira vez desde 1999. O hotel é um dos 12 da capital francesa com status de “palácio”, atribuição dada pela Agência de Desenvolvimento do Turismo da França.

Mais recentemente, em dezembro, a cidade inaugurou o que é considerado o teleférico urbano mais longo da Europa, com 4,5 quilômetros que opera liga pontos estratégicos nos subúrbios.

3. Berlim

A capital alemã se destacou nos quesitos de natureza e parques, ecossistema de negócios e atrações turísticas, museus e vida noturna.

O turismo é um dos motores da cidade: em 2024, Berlim ultrapassou a marca de 30,6 milhões de pernoites em hotéis pela primeira vez desde o início da pandemia, recebendo 12,7 milhões de hóspedes que geraram bilhões em gastos. Cerca de 10% dos empregos da metrópole dependem diretamente do turismo, abrangendo áreas como hotelaria, cultura e gastronomia.

A cidade ficou no quarto lugar em teatros e concertos e no quinto lugar em vida noturna. Um dos motivos é a cena techno que, desde 2024, é Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco. A Orquestra Filarmônica de Berlim, casas de ópera e teatros independentes também explicam o sucesso nas áreas de concertos e vida noturna.

Outro detalhe que fez Berlim ficar entre as melhores cidades da Europa foi o ecossistema empresarial. A capital alemã é o grande motor de startups do país, sendo sede de mais de 4.800 delas, incluindo 27 startups unicórnios, ou seja, que passaram de US$ 1 bilhão em valor de mercado.

4. Roma

Roma não surpreende ao se destacar na classificação de Pontos Turísticos e Monumentos do ranking. A capital italiana também garantiu boa pontuação no quesito “Google Trends”. Isso porque, segundo o relatório, o Jubileu colocou Roma no centro das atenções, atraindo cerca de 35 milhões de peregrinos para além dos 20 milhões de turistas anuais.

A morte do Papa Francisco, o conclave e a escolha do Papa Leão XIV contribuíram para manter a cidade nas discussões globais.

Debaixo dos holofotes, as ruas de Roma foram recapeadas, monumentos foram restaurados e novas mostras culturais foram inauguradas. Em anos recentes, a reabertura do Largo di Torre Argentina e a renovação da Fontana di Trevi, que passou a cobrar uma taxa de acesso de dois euros, são outros exemplos de melhorias da cena cultural.

O relatório ainda mostrou que a hotelaria de luxo está acelerando desde 2023: o Palazzo Talìa, hotel boutique com 26 acomodações e interiores do diretor Luca Guadagnino; o Bvlgari Hotel Roma, o Six Senses Rome e os recém-inaugurados Nobu Hotel e Corinthia lideram essa onda de luxo. Para o futuro breve, são esperadas as aberturas do Rosewood Rome e do Thompson Rome, by Hyatt. Também vale menção o Romeo Roma, que ficou entre os hotéis mais bonitos do mundo em 2025.

5. Barcelona

Em 2024, Barcelona recebeu mais de 15 milhões de visitantes e movimentou mais de 14 bilhões de euros (cerca de R$ 85,6 bilhões) em gastos, o que colocou a cidade espanhola na quarta posição no ranking mundial de Vida Noturna e na quinta colocação em Atrações para Famílias.

A capital catalã também se destaca também no quesito Natureza e Parques, graças à criação do “eixo verde” na Consell de Cent, que limitou o tráfego de carros para priorizar pedestres; às ruas mais tranquilas em Montjuïc e aos novos espaços de lazer em todo o bairro Eixample. A segunda colocação de Barcelona no ranking de Transporte Público reflete a ampla cobertura de metrô, trem e bonde.

O levantamento ainda aponta a reta final da construção da Sagrada Família. Em fevereiro, as obras externas da Torre de Jesus Cristo foram concluídas. Isso coincide com o título de Barcelona como a Capital Mundial da Arquitetura pela Unesco em 2026. A cidade conta ainda com cerca de 10 mil bares e restaurantes, sendo 30 endereços com estrelas Michelin, e mais de 68 mil lojas.

Confira a lista completa das 10 melhores cidades da Europa em 2026:

  1. Londres
  2. Paris
  3. Berlim
  4. Roma
  5. Barcelona
  6. Madrid
  7. Amsterdã
  8. Viena
  9. Copenhague
  10. Estocolmo

Confira a lista completa com as 100 melhores cidades da Europa em 2026 no site.

Como o ranking é feito

A consultoria analisou áreas metropolitanas europeias com populações com mais de 500 mil habitantes. A partir disso, determinou as 100 melhores cidades usando uma combinação de estatísticas e dados gerados por usuários de fontes online como Google, Instagram e TikTok para medir a qualidade do lugar em termos de fatores experienciais.

Esses dados levaram à criação do Place Power Score, métrica da Resonance que serve de base para todos os rankings de Melhores Cidades. No total, são 47 métricas em 33 subcategorias, como clima, transporte público, atividades culturais e taxa de desemprego. Todas as métricas têm pesos iguais e são agregadas até o nível da categoria, e todas as categorias têm pesos iguais e são agregadas até cada índice de Habitabilidade, Agradabilidade e Prosperidade.

Depois, em parceira com a Ipsos, a consultoria combina essas informações com uma pesquisa realizada com 5 mil pessoas em 10 países europeus. A consulta identifica as cidades onde os respondentes mais gostariam de morar, os lugares que mais gostariam de visitar e onde acreditam encontrar as melhores oportunidades de emprego..

Vale destacar que a classificação exclui todas as cidades russas desde 2022 devido à guerra da Ucrânia.

Fonte: CNN Brasil