spot_img
Home Blog Página 2

O Estado em Piloto Automático: Como a IA vai Redesenhar as Cidades, a Economia e o Serviço Público

0
O Estado em Piloto Automático: Como a IA vai Redesenhar as Cidades, a Economia e o Serviço Público
Foto: Enviado por Giovani Bernardo

Como a nova revolução tecnológica está redefinindo cidades, economia e o papel do Estado

Há poucos dias, acompanhei com um misto de fascínio e profunda preocupação a apresentação da futurista Amy Webb no SXSW. O alerta dela foi claro: as tradicionais “tendências de tecnologia” morreram. O que vivemos agora são “convergências”, tempestades sistêmicas que vão redesenhar o trabalho, a economia e as relações sociais.

Essa inquietação bateu de frente com outro conteúdo que li recentemente, um artigo pragmático da Sequoia Capital afirmando que a próxima empresa de um trilhão de dólares não venderá software, mas sim serviços autônomos baseados em Inteligência Artificial. Junte isso aos conceitos de “Destruição Criativa”, que renderam o Prêmio Nobel de Economia, e o cenário fica cristalino: o modelo atual de gestão, trabalho e economia está prestes a ser engolido pela tecnologia.

E aqui reside o meu alerta aos prefeitos, governadores e gestores públicos: essa tempestade não vai atingir apenas o Vale do Silício ou a Faria Lima. Ela já chegou ao balcão das prefeituras, ao planejamento urbano e à arrecadação das cidades. A inovação tecnológica deixou de ser um “puxadinho” do setor de TI; ela é, hoje, o maior desafio de infraestrutura, economia e política pública da nossa década.

Não se trata de ser alarmista, mas de ter os pés no chão. O Estado precisa deixar de ser um espectador passivo e assumir o leme antes que a mudança o atropele. E o primeiro passo para isso é entender que a IA, se bem utilizada, pode ser o maior trunfo que o serviço público já teve.

A Revolução do Atendimento e o Fim da Burocracia

Historicamente, a relação do cidadão com o Estado é marcada pelo atrito. Para abrir uma empresa, pagar um imposto ou solicitar um alvará, exige-se que o contribuinte seja um especialista em navegar por secretarias, portais confusos e carimbos intermináveis.

A Inteligência Artificial moderna não é mais apenas um chatbot que responde a perguntas frequentes. Estamos entrando na era da “IA Agêntica”, sistemas que operam como verdadeiros pilotos automáticos. Imagine um cenário onde o cidadão simplesmente diz ao portal da prefeitura: “Quero abrir um café no centro”. O agente de IA, de forma autônoma, cruza o zoneamento urbano, preenche as licenças, emite as taxas e devolve o processo pronto.

Isso não é ficção científica, é a tecnologia de 2026. Para o setor público, isso significa o fim da burocracia como a conhecemos. Ao automatizar processos de “alta inteligência e regras”, o governo não apenas corta custos operacionais e zera filas, mas devolve dignidade ao atendimento do cidadão.

Mais importante ainda: isso não significa o fim do servidor público, mas a sua libertação. Ao delegar o trabalho mecânico e repetitivo para as máquinas, o talento humano do Estado fica livre para exercer o que a máquina ainda não tem: o julgamento, a empatia e a formulação de políticas estratégicas.

A Cidade como Plataforma e a Nova Geografia Econômica

Durante décadas, a cartilha do desenvolvimento econômico municipal foi a mesma: oferecer isenção de impostos e doar terrenos para atrair indústrias ou grandes escritórios corporativos. O gestor público cortava a fita do novo “distrito industrial” e contava os empregos gerados. Esqueça essa cartilha. A nova economia não precisa de galpões físicos de tijolo e cimento. A fábrica do futuro é invisível, e o escritório é, literalmente, a cidade inteira.

Com a consolidação do trabalho remoto e a automação de processos via IA, a matriz econômica tornou-se fluida. Hoje, um profissional pode morar na sua cidade, consumir no seu comércio local, matricular os filhos na sua escola, mas produzir valor para uma empresa em Cingapura, Londres ou no Vale do Silício.

O que isso significa para prefeitos e governadores? Que a competição global mudou de arena. Não disputamos mais empresas com incentivos fiscais; disputamos pessoas com qualidade de vida. O novo “ímã” de desenvolvimento econômico é a infraestrutura tecnológica (conectividade de ponta, 5G real, wi-fi público robusto), aliada à segurança, mobilidade e espaços de convivência. A cidade que não for uma plataforma excelente para se viver, perderá seus melhores cérebros, e seus contribuintes, para a cidade vizinha que for.

O Custo Oculto da Inovação: Água, Energia e a Nova Geopolítica

Contudo, se por um lado o trabalho humano se descentraliza, a infraestrutura que sustenta essa revolução é brutalmente física e centralizada. Existe um mito de que a Inteligência Artificial vive na “nuvem”. A verdade é que a nuvem pesa, ocupa espaço, bebe muita água e consome uma quantidade colossal de energia.

Empresas de deep tech, laboratórios de IA e os gigantescos data centers que processam esses trilhões de dados exigem um volume computacional que desafia a matriz de recursos de qualquer município. O resfriamento desses servidores consome milhões de litros de água, e a alimentação elétrica demanda uma rede que não sofra oscilações.

Aqui acende-se um alerta vermelho para o planejamento estratégico do Estado: a política energética é a nova política de tecnologia. Se não prepararmos a nossa infraestrutura de água e energia, a inovação vai literalmente “desligar” ou fugir pela fronteira. Não precisamos ir longe para ver isso acontecer. O Paraguai, valendo-se de energia barata e abundante, já tem atraído empresas brasileiras de alto consumo computacional e de tecnologia intensiva. Custos de energia elevados e redes instáveis não são apenas um problema de zeladoria; são um passivo econômico que expulsa o futuro de dentro do nosso território.

O gestor público do século XXI precisa entender de gigabytes, mas não pode, em hipótese alguma, tirar os olhos dos megawatts.

O Tsunami Social e a Corrida pela Requalificação

Todo esse avanço tecnológico traz embutido um alerta que ecoou forte na fala de Amy Webb no SXSW: estamos caminhando para a era do “trabalho ilimitado” feito por máquinas. E é aqui que a gestão pública enfrenta o seu maior teste de fogo.

A plataforma de empregos que sustentou a classe média nas últimas décadas está mudando de forma irreversível. Muitas funções administrativas, rotinas de escritório, atendimento e até análises cognitivas complexas serão absorvidas pelos agentes de IA. O impacto social de um desmonte rápido dessa base econômica tradicional será enorme. Se não agirmos, o resultado natural será uma disparada na desigualdade, perda de arrecadação e uma pressão insustentável sobre as redes de assistência e saúde do Estado.

A solução não é proibir o avanço da tecnologia, a história já provou que lutar contra a inovação é uma batalha perdida. O papel do líder público de visão é antecipar a dor.

Precisamos iniciar, hoje, o maior projeto de requalificação profissional da nossa história. Não podemos esperar a fila do desemprego dobrar a esquina para pensar no que fazer. É urgente capacitar nossa força de trabalho para operar lado a lado com a IA, bem como  redirecionar talentos para áreas onde a máquina não chega: o cuidado humano, a criatividade, o pensamento crítico e a gestão estratégica. A educação pública precisa parar de formar alunos para o século XX e começar a treiná-los para governar os algoritmos do século XXI.

O Novo Pacto: Soberania de Dados e Diálogo

Para construir essa “cidade inteligente” e esse Estado ágil, há uma verdade inconveniente: o setor público não tem a velocidade, nem o orçamento, para desenvolver modelos de Inteligência Artificial de ponta sozinho. A parceria com a iniciativa privada não é apenas
bem-vinda; ela é essencial para equilibrar essa conta.

No entanto, essa parceria exige um novo nível de maturidade. Entramos no terreno delicado da Soberania de Dados. Quando um cidadão interage com um piloto automático do governo para matricular o filho na escola ou acessar o sistema de saúde, quem é o dono dessa informação? O Estado, a empresa de tecnologia que forneceu a IA, ou o cidadão?

Dados são a infraestrutura mais valiosa do nosso tempo.

Os governos precisam desenhar contratos e marcos regulatórios que protejam ferozmente as informações da sua população. É preciso atrair o ecossistema privado de inovação, sim, mas garantindo que o lucro corporativo não seja construído sobre a extração desregulada da privacidade do cidadão ou sobre a perda de controle estratégico do município e do país. O diálogo entre o público e o privado nunca foi tão necessário, e ele precisa ser feito de igual para igual.

O Preço da Omissão e o Prêmio da Liderança

O Prêmio Nobel de Economia nos lembrou de uma lei imutável: o crescimento contínuo só acontece através da “Destruição Criativa”. O modelo antigo precisa ser destruído para que o novo prospere.

A Inteligência Artificial e a nova economia fluida são essa força destrutiva e criadora batendo à porta dos nossos gabinetes. A transição será turbulenta. Haverá dor, mas também haverá oportunidades sem precedentes de construir um Estado mais leve, eficiente, humano e focado no que realmente importa: a qualidade de vida das pessoas.

As tendências que vimos no SXSW e as movimentações de capital do Vale do Silício não são previsões para um futuro distante. Elas são o clima de hoje. A tempestade chegou. Os líderes públicos desta geração serão lembrados pela história de duas formas: como os gestores que se omitiram e deixaram a tempestade destruir suas cidades, ou como os arquitetos audaciosos que usaram a força dos ventos para modernizar o Estado e proteger a sua gente.

A tecnologia já ligou o piloto automático. Mas o destino dessa viagem ainda é uma escolha nossa.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

Rio Grande e cidade portuguesa assinam acordo de cooperação para fomentar economia azul

0
Rio Grande e cidade portuguesa assinam acordo de cooperação para fomentar economia azul
Foto: Guga Volks / Festimar / Divulgação

Municípios vão trocar experiências sobre gestão sustentável do mar e fomentar parcerias na economia azul e em projetos educacionais

Foi assinado na manhã desta terça-feira (31), durante o Fórum de Desenvolvimento da Economia Azul, em Rio Grande, um acordo de cooperação e geminação entre os municípios de Rio Grande e Peniche, em Portugal. A assinatura ocorreu com a participação da prefeita de Rio Grande, Darlene Pereira, e do prefeito de Peniche, Filipe Sales.

A proposta é que Rio Grande, que possui forte relação histórica e econômica com o mar, possa se inspirar em experiências já desenvolvidas no território europeu, visando ampliar projetos voltados ao aproveitamento econômico e ambiental dos recursos marinhos.

— Esse acordo que a gente assina hoje, que é um protocolo de intenções, vai nos permitir ações de cooperação. Troca de conhecimentos, ações que podemos replicar aqui, até porque são duas cidades com características muito parecidas — disse Darlene Pereira, prefeita de Rio Grande.

A geminação, também chamada de “cidades-irmãs”, é um acordo formal entre municípios de diferentes países que facilita o intercâmbio de informações, cooperação cultural e parcerias econômicas.

Localizada no distrito de Leiria, no oeste português, Peniche é considerada referência em economia do mar e reúne iniciativas consolidadas nas áreas de pesca, turismo marítimo, pesquisa científica e inovação voltada aos recursos oceânicos.

Durante a assinatura, o prefeito de Peniche destacou a identificação com Rio Grande e a importância da cooperação entre os territórios. Ao relatar a chegada em Rio Grande, o português afirmou ter sentido uma conexão imediata com o ambiente marítimo e com as raízes históricas compartilhadas entre os dois povos.

— No primeiro dia que aqui cheguei, ao fechar os olhos, o primeiro sentido que nos aguça é o olfato, aquele que conecta à memória e à emoção. Ao chegar a Rio Grande, senti algo verdadeiramente familiar, como o cheiro do peixe, dos barcos e o som da dinâmica marítima, que me fizeram sentir em casa — disse Sales.

Ainda segundo o prefeito de Peniche, a troca de experiências entre os municípios é fundamental para o desenvolvimento conjunto e para o fortalecimento de políticas voltadas ao mar.

— Rio Grande não é apenas um território amigo, mas um local com profundas raízes portuguesas, onde o Atlântico não separa, mas une povos. Trata-se de um território dinâmico, com visão, capacidade de organização e forte aposta no desenvolvimento da economia do mar. Juntos, os municípios se tornam mais fortes no desenvolvimento da economia azul — declarou.

Furg e Instituto Politécnico de Leiria firmam parceria

Além do acordo entre as prefeituras, a Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e o Instituto Politécnico de Leiria, em Portugal, também assinaram um convênio durante o fórum.

A parceria tem como objetivo fortalecer a internacionalização das instituições, abrangendo ações como intercâmbio de estudantes e pesquisadores, desenvolvimento de pesquisas conjuntas, programas de dupla diplomação e elaboração de projetos em cooperação.

Fonte: GZH Zona Sul

Diálogos sobre o futuro das cidades: a inteligência além da tecnologia

0
Diálogos sobre o futuro das cidades: a inteligência além da tecnologia
Foto: Gerada por IA/ Gemini

Série semanal da Plataforma CSC propõe reflexões sobre o impacto humano e ambiental no planejamento urbano contemporâneo

O ecossistema de inovação urbana ganha um importante canal de disseminação de conhecimento por meio da série semanal promovida pela Plataforma CSC em seu perfil no Instagram. Dulvulgada às quintas-feiras, a iniciativa propõe uma análise crítica e técnica sobre o desenvolvimento das cidades, afastando-se de visões puramente tecnológicas para focar em soluções estruturais. Até o momento, o projeto já desmistificou conceitos fundamentais, comprovando que a inteligência urbana não é exclusividade das capitais, sendo acessível a municípios de diferentes portes que priorizam a gestão estratégica.

Leia mais: Precisa ser capital para ser uma cidade inteligente?

A série tem se destacado ao humanizar o debate tecnológico, estabelecendo que os dados são ativos mais valiosos do que as ferramentas em si. Discussões anteriores abordaram a transversalidade do urbanismo, analisando como o planejamento inteligente pode criar ambientes mais inclusivos e seguros para as mulheres e por que a mobilidade urbana deve ser projetada a partir da perspectiva do pedestre. Ao definir que a eficiência de uma cidade começa na escala humana, o programa reforça que a verdadeira inovação reside na melhoria da qualidade de vida e na fluidez dos deslocamentos cotidianos.

Leia mais: A importância das mulheres no desenvolvimento das cidades inteligentes

Dando continuidade ao cronograma de debates essenciais, a edição desta quinta-feira abordará a complexidade da transição ecológica no setor de transportes. O tema central questionará se o processo de descarbonização se limita à substituição das frotas por veículos menos poluentes ou se demanda uma reestruturação mais profunda dos modelos de logística e infraestrutura. O encontro promete oferecer uma visão técnica sobre os desafios da sustentabilidade, consolidando a série como uma referência para gestores, especialistas e cidadãos interessados no futuro das metrópoles brasileiras.

Conheça mais sobre a Plataforma CSC

Nas próximas semanas, a Série abordará como as cidades Brasileiras se beneficiam de iniciativas gratuitas promovidas pela Plataforma CSC: como os Selos CSC de Cidades inteligentes e de Ecossistema de Inovação, que atestam as boas práticas aplicadas pelas cidades para sua transformação inteligente, e os caminhos para aquelas que ainda buscam apoio para seu desenvolvimento. Acompanhe aqui.

Saiba como as soluções da Geopixel podem ajudar seu município a reduzir os impactos da Reforma Tributária.

0
Saiba como as soluções da Geopixel podem ajudar seu município a reduzir os impactos da Reforma Tributária.
Foto: Divulgação

Compartilhar conhecimento é essencial para transformar a gestão pública

O PodGeo nasce como um espaço dedicado a conversas sobre tecnologia, gestão municipal e o futuro das cidades. O podcast reunirá especialistas para debater caminhos e soluções que contribuam para a construção de cidades mais inteligentes, humanas e sustentáveis.

Na estreia, o PodGeo recebe um dos principais nomes do Direito Tributário no Brasil.

Paulo Duarte, com sólida formação acadêmica na Europa e destacada atuação profissional no Brasil e no exterior, é o convidado especial para abrir a primeira temporada e discutir os desafios e impactos da Reforma Tributária.

Entre seus principais destaques:

  • Doutor em Direito Econômico pela Universidade de Ciências Econômicas de Viena (Áustria)
  • Mestre em Direito pela Ludwig-Maximilians-Universität de Munique (Alemanha)
  • Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
  • Experiência profissional na Ernst & Young e na KPMG Auditores Independentes, em Munique
  • Sócio responsável pela área de tributação indireta e aduaneira do Stocche Forbes Advogados
  • Coordenador-Executivo do Projeto de Tributação Internacional do Núcleo de Estudos Fiscais da Fundação Getulio Vargas (NEF/FGV)

Autor e coautor de dezenas de livros e artigos publicados no Brasil e no exterior.

Link de inscrição: https://geopixel.webex.com/weblink/register/rf203b4efe1994bc39b025f23700de30b

Um país dividido pelo esgoto

0
Um país dividido pelo esgoto
Foto: Dipayan Bose/NurPhoto/Getty Images

Marco do Saneamento deu um salto institucional e desencadeou investimentos. Mas o ranking do Trata Brasil mostra que falta replicar a experiência das ilhas de excelência nos bolsões de atraso

O Brasil não sofre por falta de soluções em saneamento. Sofre por excesso de tolerância com o atraso. O novo ranking do Instituto Trata Brasil reafirma um paradoxo constrangedor: um país de renda média-alta convive com padrões de infraestrutura típicos de nações miseráveis. Mais de 30 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada, e cerca de 90 milhões – mais de 40% da população – vivem sem coleta de esgoto. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, e o saneamento é a expressão mais abjeta desse abismo.

O novo marco legal, aprovado em 2020, redesenhou o setor ao impor metas – 99% de acesso à água e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033 –, exigir contratos com contrapartidas e prazos definidos e abrir espaço à participação privada. Os investimentos cresceram e novos projetos foram estruturados. O País rompeu com o estatismo que por décadas imobilizou o setor. Mas a distância entre o avanço institucional e a execução concreta continua grande.

O quadro já não é de morosidade generalizada, mas de ritmos divergentes e heterogeneidade extrema. Há dois Brasis: um que acelera rumo à universalização e outro que permanece atolado em condições sanitárias ultrajantes. Nos 20 municípios do topo (concentrados no Sul e Sudeste), a coleta de esgoto, por exemplo, serve a 98% da população; nos 20 da base (a maioria no Norte e Nordeste), apenas a 28%.

Os investimentos são a variável decisiva. Os 20 melhores municípios investem em média R$ 176 por habitante (há quem chegue a R$ 572); os 20 piores, R$ 77 (há quem não chegue a R$ 10). O necessário para atingir a meta de universalização, em tese, seria uma média de R$ 225. Mas, na prática, entre os cem maiores municípios do Brasil, a média é de R$ 135, e metade investe menos de R$ 100. Nesse ritmo, a universalização pode ser adiada para 2070 ou mais.

Atrair capital nessa escala exige previsibilidade regulatória, segurança jurídica e capacidade de execução. Em um setor intensivo em investimentos de longo prazo, decisões erráticas afastam investidores, encarecem projetos e retardam obras. Some-se a isso a fragmentação regulatória e a fragilidade técnica de muitos municípios, e o resultado é um sistema que avança, mas de modo desigual e longe da escala necessária.

Onde houve modelagem adequada, regulação estável e metas claras, os resultados apareceram. Concessões e parcerias público-privadas têm ampliado a cobertura e acelerado investimentos. Desde a aprovação do marco, o número de municípios com participação privada passou de menos de 300 para quase 1.800. Segundo a consultoria Inter.B, enquanto os investimentos públicos oscilaram entre R$ 22 bilhões e R$ 14,8 bilhões ao ano, os privados cresceram continuamente, de R$ 7,4 bilhões em 2022 para R$ 31,2 bilhões em 2025. O saneamento avança quando há alinhamento entre incentivos, capital e governança. O Trata Brasil identifica várias ilhas de excelência e cidades em condições e regiões diversas – como Teresina (PI), Guarulhos (SP) ou Juiz de Fora (MG) – que reverteram a estagnação e deram grandes saltos.

O caminho é replicar essas experiências. O risco é perder esse impulso. Flexibilizações indevidas, brechas regulatórias ou tentativas de reverter os pilares do marco legal podem comprometer um processo que, embora ainda incompleto, finalmente começou a produzir resultados.

Se não há soluções mágicas, tampouco há mistério: universalizar o saneamento exige blindar o sistema regulatório dos vícios patrimonialistas e clientelistas que entorpeceram o setor por décadas, fortalecer a capacidade técnica dos entes locais e assegurar estabilidade institucional através de políticas projetadas para durar não pelo período dos ciclos eleitorais, mas por décadas. Exige, sobretudo, que a cultura política trate o saneamento como uma necessidade estruturante, com impactos diretos sobre saúde, produtividade, educação e meio ambiente.

As soluções existem. Falta transformar avanço em escala e intenção em execução. O ganho é duplo. A universalização do saneamento básico é, antes de tudo, uma urgência civilizacional. Mas, além disso, é um ótimo negócio.

Fonte: Estadão

Reguladores da América Latina se reúnem em Brasília para fortalecer a governança de PPPs e concessões

0
Reguladores da América Latina se reúnem em Brasília para fortalecer a governança de PPPs e concessões
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil.

Encontro promovido na Agência Nacional de Transportes Terrestres busca ampliar a cooperação regional, promover segurança jurídica e consolidar boas práticas na regulação de infraestrutura

Brasília será palco, no próximo dia 28 de abril, de um importante encontro voltado ao fortalecimento da regulação de infraestrutura na América Latina. O Fórum Latino-Americano de Reguladores de Transportes de P3C – PPPs e Concessões reunirá representantes de agências reguladoras de diversos países no auditório da Agência Nacional de Transportes Terrestres, das 9h às 18h, para um dia de diálogos estratégicos sobre desafios comuns, boas práticas e caminhos para o aprimoramento do ambiente regulatório na região.

Com o tema “Regulação, Integração e Previsibilidade: Diálogos entre Reguladores da América Latina”, o evento parte do entendimento de que o fortalecimento da infraestrutura regional depende diretamente de uma atuação qualificada, coordenada e cada vez mais integrada entre os órgãos reguladores. Em um cenário marcado pela ampliação dos investimentos, pela complexidade dos contratos de longo prazo e pela crescente presença de projetos transnacionais, a troca de experiências surge como elemento central para garantir maior segurança jurídica, eficiência regulatória e previsibilidade aos projetos.

Leia mais: Certificação para PPPs e concessões será lançada no P3C 2026 e promete elevar segurança jurídica em projetos de infraestrutura 

Realizado em parceria e sediado pela ANTT, o encontro reforça o papel do Brasil como articulador de debates estratégicos no campo da regulação de infraestrutura na América Latina. A iniciativa integra a agenda institucional do P3C- PPPs e Concessões, plataforma que atua na promoção do diálogo qualificado e na cooperação entre atores públicos e privados, com foco no fortalecimento do ambiente de negócios no setor.

Os participantes terão a oportunidade de compartilhar experiências, discutir soluções para desafios regulatórios e refletir conjuntamente sobre temas críticos relacionados à estruturação, fiscalização e evolução de contratos de concessões e parcerias público-privadas. A proposta é não apenas fomentar a troca entre diferentes realidades nacionais, mas também contribuir para a construção de referências comuns que sustentem um ambiente mais estável e confiável para investimentos em infraestrutura.

Leia mais: Prêmio P3C 2026 destaca projetos que elevam o padrão das PPPs e concessões

Como resultado do encontro, será elaborado um documento consolidado que reunirá os principais aprendizados, consensos, recomendações e perspectivas discutidas ao longo das atividades. A expectativa é que esse material funcione como um instrumento estratégico para o aprimoramento contínuo das práticas regulatórias na América Latina, ampliando o impacto das discussões para além do evento e consolidando um legado técnico relevante para o setor.

Para saber mais, clique aqui

Sul Global, e o que as grandes cidades asiáticas podem nos ensinar.

0
Sul Global, e o que as grandes cidades asiáticas podem nos ensinar.
Foto: Xinhua/Divulgação

Como cidades asiáticas estão redefinindo os caminhos do urbanismo contemporâneo

Desde a faculdade de arquitetura, ainda no século passado, e até os dias de hoje, fui bombardeado por referências europeias. Projetos de edifícios, espaços públicos, arte, design, tudo parecia vir de um mesmo lugar, do hemisfério norte.

Durante décadas, não só fui influenciado por essa matriz como ajudei a transmiti-la. Lembro da minha empolgação ao trabalhar pela primeira vez com um renomado escritório dinamarquês e a ansiedade de aprender absolutamente tudo que pudesse.

A vida me levou, muitos anos depois disso, a uma sociedade com uma respeitadíssima consultoria internacional, onde fique por cinco anos. A convivência com diferentes culturas, não só na própria sociedade, mas também em projetos internacionais, foi me mostrando que, cada vez mais, as soluções para grande parte dos problemas urbanos estava, não mais no conhecimento depositado e já um tanto desgastado do pensamento eurocêntrico, mas principalmente no frescor e na capacidade de inovação do que hoje chamamos de Sul Global. Foi essa espécie de epifania que me fez mudar radicalmente, mais uma vez, os rumos da minha empreitada e, não só fundar junto com a Mariane Broc, uma consultoria 100% brasileira e que leva essa perspectiva para o resto do mundo, como recomeçar e reconstruir todo um repertório de soluções e iniciativas, em uma abordagem e perspectiva a partir, e não restrita, do sul.

Nesse processo de reconstrução, voltei recentemente de uma viagem de quase um mês na Ásia, filmando uma série documental chamada URBANIDADES, com lançamento previsto ainda para esse primeiro semestre, para entender quais são as forças transformadoras das cidades do Sul Global, e como elas podem nos dar pistas para a solução de problemas comuns. Shanghai, Chongqing, Shenzhen, Hong Kong e Bangkok, foram nosso roteiro e nosso objeto de estudo. Armados de câmeras compactas, nos misturamos a multidão, sempre do ponto de vista do pedestre. Voamos e percorremos de trem, ônibus, metrô, tram, barca, tuk tuk, a pé, e todo o tipo de modal imaginável o suficiente para quase dar uma volta ao mundo. 

Compartilho aqui com vocês, em primeira mão, alguns spoilers dessa aventura.

1. A água não pode ser inimiga das cidades.

Durante décadas, muitas cidades trataram a água como problema técnico a ser contido, rios são enterrados, piscinões são criados, sempre pensando em como conter esse elemento que insiste em “invadir” o ambiente urbano.  Em Bangkok, projetos como o Benjakitti Forest Park mostram uma virada conceitual importante. Ali, água, vegetação e paisagem não aparecem apenas como decoração ou contemplação, funcionam como infraestrutura climática ativa dentro de uma megacidade tropical extremamente vulnerável. Lagos e vegetação densa regulam o microclima, absorvem excesso de água e ajudam a mitigar enchentes.  As boas e velhas Soluções Baseadas na Natureza entrando em ação.

O aprendizado é profundo: cidades antifrágeis não são as que tentam em vão eliminar o risco climático, são as que aprendem a viver com ele. Nesse tipo de projeto, o parque deixa de ser apenas um oásis verde (que no calor intenso de Bangkok já seria algo extremamente positivo) e passa a funcionar como uma espécie de sistema regulador urbano, capaz de mitigar os danos do próprio processo de urbanização e ajudar a reorganizar a relação entre paisagem, água e vida cotidiana. 

2. Densidade só funciona quando o movimento organiza a vida urbana.

Hong Kong revela uma das experiências mais radicais de densidade do planeta. Mas o que realmente sustenta essa condição extrema não são só os edifícios, mas a infraestrutura de movimento. Sistemas como o Central–Mid-Levels Escalator criam um fluxo contínuo entre bairros, comércio e moradia, transformando o deslocamento cotidiano em parte da experiência urbana.  

Esse caso mostra algo essencial para o futuro das cidades, se a densidade exagerada, por si só, já gera fricção, sem mobilidade eficiente a vida seria impossível. Um sistema de transporte integrado e diverso contribui para a criação de um ecossistema urbano mais eficiente. Mas nem só de mobilidade se vive na densidade, coexistência talvez seja a palavra-chave aqui. 

Vale lembrar que a densidade, por natureza, não é negativa nem positiva. Tudo depende de como ela criada e gerenciada, podendo criar oportunidades e qualidade urbana ou ambientes urbanos de grande fricção, quando não insalubres e até insólitos.

Quanto mais gente, menor espaço privado, quanto menor espaço privado, maior a necessidade de qualificar a vida coletiva. Coexistência e convivência são elementos essenciais no enfrentamento a densidade nas cidades do futuro. 

3. Regenerar não é necessariamente demolir, é também readequar o que já existe.

Nas cidades contemporâneas, uma das forças mais potentes de transformação é a regeneração. Vários são os caminhos possíveis para ela. Um desses caminhos é através da economia criativa. Não são poucos os exemplos onde o ecossistema criativo foi responsável pelo renascimento de lugares abandonados ou decadentes. Em Shanghai, temos um ótimo exemplo dessa capacidade de regeneração, o distrito criativo M50, para ficar em apenas um exemplo, onde antigas estruturas industriais podem ganhar novos significados quando artistas, galerias e pequenos negócios passam a ocupar espaços abandonados.  

Esse processo revela um paradigma importante na forma de pensar a cidade: o valor urbano não está apenas na construção de novos edifícios, mas na capacidade de readequar o que já existe, ativando novas economias, novos usos e novas presenças.

Talvez por coincidência o M50 fique a poucos passos do icônico 1000Trees, o projeto cartão-postal de Shanghai, que pode ser visto de diversas partes de seus galpões causando uma estranheza e uma certa dissonância cognitiva dada a diferença absurda, não da natureza em si, mas do resultado e da experiência entre os dois lugares.

4. O calor está se tornando uma nova infraestrutura urbana

Se no passado o grande desafio das cidades era o transporte ou a habitação, no século XXI uma nova variável começa a reorganizar o urbanismo: o calor. Em cidades tropicais como Bangkok, o espaço público precisa lidar diariamente com temperaturas elevadas, umidade extrema e ilhas de calor cada vez mais intensas. 

Isso impacta, ou pelos menos deveria impactar, profundamente o desenho urbano. Sombreamento, ventilação, água, vegetação e materiais de construção passam a funcionar como infraestrutura climática, determinando como as pessoas caminham, permanecem e convivem na cidade.

Aqui vale ressaltar um comportamento peculiar. Se por um lado, florestas urbanas como o Benjakitti foram implantadas, por outro, toda e qualquer experiência possível na cidade tailandesa foi emulada em algum dos inúmeros complexos de shopping centers presentes na cidade. De mercados flutuantes as já batidas cachoeiras internas, de restaurantes de rua a massagem, tudo pode ser feito no conforto do ar-condicionado. Não que, confesso, não tenha apelado a essa solução inúmeras vezes frente ao calor absurdo da Tailândia, mas será que esse é o melhor caminho? Seriam essas soluções complementares ou conflitantes?

5. A tecnologia, não poderíamos deixar de falar dela

Pensar em cidades do futuro recai, pelo menos no imaginário popular, no uso massivo de tecnologia. Estivemos em Shenzhen, supostamente a cidade mais tecnológica da China. Se por um lado o tráfego de drones de delivery cria um som ambiente sui generis, uma identidade sonora um tanto bizarra devido ao zumbido incessante das hélices, por outro, o sistema de transporte funciona com fichas plásticas, isso mesmo, iguais a que usava na minha cidade natal nos anos 80 e 90 do século passado para andar de ônibus.

Se não bastasse esse tipo de diferença, muitas das iniciativas tão comentadas mundo afora são, na verdade, protótipos pontuais, que não cobrem a cidade inteira e, portanto, não impactam profundamente na vida das pessoas. Entre esses exemplos estão os taxis autônomos, tão celebrados, mas difíceis de serem vistos, e ainda mais, de serem usados, dada a complexidade de seu uso por visitantes sem celulares chineses.

Sim, a tecnologia chinesa é incrível, sim ela pode impactar profundamente as cidades no futuro, da mesma forma que já impacta as cidades chinesas em diferentes proporções. Mas as questões permanecem as mesmas, quando ela deixará de ser espetáculo e passará a ser infraestrutura? A tecnologia por si só será capaz de transformar as cidades?

Conclusão

Ao atravessar cidades tão diferentes fica claro que o futuro urbano não será definido por uma única solução ou modelo universal. Ainda que evidentemente possamos aprender com a similaridade dos desafios comuns ao sul global, cada lugar responde às suas próprias pressões, água, densidade, movimento, calor… a partir de suas condições históricas, culturais, ambientais, sociais, políticas e econômicas. 

O que emerge dessa, ou de qualquer outra observação, não se resume a um manual de boas práticas, mas a algo muito mais interessante: a compreensão de um conjunto mínimo de forças que, combinadas de maneiras distintas, passam a moldar as cidades contemporâneas.

Talvez o maior aprendizado seja justamente a compreensão de que o futuro das cidades não será construído apenas por planos ou tecnologias (digitais), mas pela capacidade de ler essas forças e trabalhar com elas, transformando limites físicos, climáticos e sociais em novas possibilidades urbanas. É nesse lugar, entre adaptação, imaginação e inteligência coletiva, que começam a surgir os lugares verdadeiramente à prova de futuro.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

Educação e mobilidade urbana: Caminhos para novas oportunidades profissionais

0
Educação e mobilidade urbana: Caminhos para novas oportunidades profissionais
Foto: Getty Images.

Avanços no ensino remoto e inovações no transporte impulsionam novas formas de qualificação e atuação no mercado

A interseção entre educação e mobilidade urbana tem se mostrado um campo fértil para novas oportunidades profissionais. Em um mundo cada vez mais conectado e dinâmico, a capacidade de aprender e se locomover de forma eficiente são habilidades valiosas.

A expansão dos cursos de pós-graduação a distância, por exemplo, permite que profissionais de diversas áreas tenham acesso a um ensino de qualidade sem precisar se deslocar grandes distâncias, o que é particularmente relevante para áreas especializadas como a pós-graduação em autismo ead.

A educação a distância como facilitadora de carreiras

A educação a distância (EAD) tem se consolidado como uma alternativa prática e acessível para a formação continuada. Não apenas ela elimina barreiras geográficas, mas também oferece flexibilidade de horários, essencial para quem já está no mercado de trabalho.

Cursos como a pós-graduação em autismo ead são exemplos do quanto a EAD pode ser transformadora. Ela possibilita que profissionais da saúde e educação se especializem e atendam às necessidades de um público cada vez mais consciente sobre questões do espectro autista.

Mobilidade urbana e suas novas fronteiras

No contexto da mobilidade urbana, o uso de tecnologias e inovações tem moldado as cidades modernas. Os serviços de transporte público e privado estão sendo redesenhados para serem mais eficientes e sustentáveis.

Nesse cenário, a mídia em taxi surge como uma ferramenta poderosa de comunicação. Além de fornecer entretenimento e informações úteis para os passageiros, essa mídia se tornou um canal de publicidade eficaz, criando oportunidades para profissionais de marketing e comunicação explorarem novas estratégias.

Sinergia entre educação e mobilidade

A educação e a mobilidade urbana se complementam em diversos aspectos. Profissionais que utilizam transporte público podem otimizar seu tempo de deslocamento estudando em seus dispositivos móveis.

Além disso, o crescente uso de mídia em taxi e outros meios de transporte torna possível a disseminação de informações educativas e promocionais, aumentando a visibilidade de cursos e eventos educacionais. Essa sinergia não apenas facilita a aprendizagem contínua, mas também impulsiona o desenvolvimento de novas competências profissionais.

Conclusão

Em um mundo onde as mudanças são constantes, a capacidade de se adaptar e evoluir é essencial. Tanto a educação a distância quanto as inovações na mobilidade urbana oferecem um leque de oportunidades para aqueles dispostos a explorar novos caminhos. Por meio de uma formação especializada e da utilização inteligente de recursos de transporte, é possível alcançar um desenvolvimento profissional significativo.

Fonte: Jornal de Brasília

Armazenamento de energia e o impasse regulatório no Brasil

0
Armazenamento de energia e o impasse regulatório no Brasil
Foto: Christopher Furlong/Getty Images

Excedente renovável pressiona sistema elétrico e expõe urgência de regras claras para baterias

O sistema elétrico brasileiro vive uma transformação acelerada, e, de certa forma, desordenada. Nos últimos anos, a expansão da geração eólica e solar ocorreu em ritmo superior ao crescimento da demanda e da própria organização da expansão da conexão, criando um desequilíbrio estrutural que já produz efeitos concretos: cortes crescentes de geração renovável e aumento da complexidade operativa do sistema.

Diante desse cenário, os sistemas de armazenamento de energia (SAE) surgem como solução natural. No entanto, sua viabilização no Brasil esbarra em entraves regulatórios relevantes, com destaque para a controvertida questão da chamada “dupla tarifação” pelo uso da rede.

Crescimento descompassado

A capacidade instalada de fontes renováveis não despacháveis praticamente triplicou em poucos anos, saltando de cerca de 30 GW em 2021 para aproximadamente 90 GW em 2025. Esse avanço foi impulsionado por incentivos regulatórios/subsídios e pela queda de custos tecnológicos, mas ocorreu sem coordenação com a expansão da demanda ou da infraestrutura de transmissão.

O resultado é um sistema que, em determinados momentos , especialmente nos horários de maior insolação, produz mais energia do que consegue consumir ou escoar. Para preservar a segurança operativa, o operador do sistema tem realizado cortes significativos de geração, ação conhecida como “curtailment”.

Os números são expressivos: apenas no terceiro trimestre de 2025, cerca de um terço da geração solar potencial e mais de 20% da geração eólica foram cortados. Em situações extremas, houve redução quase total dessas fontes, mesmo com limitação da geração hidráulica.

O papel do armazenamento

É nesse contexto que os sistemas de armazenamento ganham relevância estratégica. Ao absorver o excedente de energia nos momentos de baixa demanda e devolvê-lo ao sistema nos horários de pico, os SAE permitem reduzir cortes de geração renovável, aumentar a flexibilidade operativa, melhorar a estabilidade da rede, além de diminuir a dependência de usinas térmicas.

Além disso, essas tecnologias prestam serviços ancilares essenciais, como controle de frequência e regulação de tensão.

Globalmente, o armazenamento já é uma realidade consolidada, com crescimento acelerado e políticas públicas robustas. No Brasil, entretanto, ainda não se firmaram as premissas para estabelecer um mercado de armazenamento, um contrassenso considerando a forte vocação renovável do país.

O nó regulatório

Apesar do potencial, a expansão dos SAE no Brasil depende de um ambiente regulatório claro e previsível. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) vem conduzindo esse debate, mas ainda não concluiu a regulamentação definitiva.

O principal ponto de divergência está na forma de cobrança pelo uso da rede elétrica.

De um lado, há a proposta de cobrança da tarifa tanto no carregamento quanto na injeção de energia, o que os críticos chamam de “dupla tarifação”. Para agentes do setor, isso criaria uma distorção econômica, já que o consumo do SAE não é final, mas parte de um ciclo de armazenamento. Na prática, argumenta-se que isso inviabilizaria projetos ao aumentar significativamente seus custos.

De outro lado, há a visão de que o uso da rede ocorre efetivamente nos dois sentidos e, portanto, deve ser remunerado de forma correspondente. Essa abordagem busca preservar o equilíbrio econômico do sistema e evitar subsídios cruzados, além de gerar sinais de preço que incentivem o uso eficiente da infraestrutura.

Segurança jurídica e timing

A indefinição regulatória ocorre em um momento sensível. O governo já sinaliza a contratação de sistemas de armazenamento por meio de leilões de capacidade, com início previsto para os próximos anos.

Sem regras claras, especialmente sobre o aspecto da tarifação do acesso à rede, os projetos não avançam, a energia limpa segue sendo desperdiçada e a oportunidade de se formar um novo mercado também.

Some-se a esse cenário, o uso de medidas provisórias para tratar de temas estruturais do setor, o que  adiciona incerteza dada a possibilidade de mudanças durante a tramitação legislativa.

Um passo decisivo para o setor 

A regulação do armazenamento de energia é mais do que uma agenda técnica: trata-se de um elemento central para a sustentabilidade do modelo elétrico brasileiro e condição essencial para a emergência de um novo mercado.

Resolver o impasse sobre a tarifação e estabelecer um marco regulatório estável são passos essenciais para atrair investimentos, reduzir desperdícios e garantir que a transição energética ocorra de forma eficiente e segura.

O Brasil possui  recursos naturais, mas sem regramento adequado não tem como aproveitá-los a favor do desenvolvimento.

Fonte: CNN Brasil

STF aprova tese que unifica teto salarial e extingue pagamentos extras para magistratura e MP

0
STF aprova tese que unifica teto salarial e extingue pagamentos extras para magistratura e MP
Foto: Gustavo Moreno/STF

Decisão estabelece limites para verbas extras, extingue auxílios criados por decisões administrativas e impõe transparência total na folha de pagamento

Em um julgamento concluído nesta quarta-feira (25), o Supremo Tribunal Federal (STF) fixou as balizas para o regime remuneratório da magistratura e do Ministério Público até que seja editada a lei nacional prevista no artigo 37, parágrafo 11, da Constituição Federal. A tese de repercussão geral aprovada reafirma o teto constitucional de R$ 46.366,19 e estabelece uma organização nas folhas de pagamento, proibindo a criação de auxílios e verbas indenizatórias sem lei federal específica aprovada pelo Congresso Nacional.

A decisão tem caráter estrutural e será acompanhada pela Presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). As novas regras começam a valer já no mês-base de abril, impactando a remuneração a ser paga em maio.

Escalonamento

O principal ponto da tese é o escalonamento das verbas que podem ser pagas acima do subsídio mensal. O Tribunal definiu que a soma de todas as vantagens não pode exceder 70% do valor do teto. Esse limite foi dividido em dois blocos de 35%:

Antiguidade (35%): Parcela de valorização por tempo na carreira (5% a cada cinco anos), limitada ao teto de 35 anos de exercício.

Verbas indenizatórias (35%): Soma de diárias, ajuda de custo para remoção, gratificação de magistério, comarca de difícil provimento, férias não gozadas e acúmulo de jurisdição.

Corte de benefícios e extinção de auxílios

A decisão foi firme ao declarar a inconstitucionalidade de diversas verbas criadas por resoluções administrativas, leis estaduais ou decisões judiciais locais. Estão terminantemente proibidos e devem cessar imediatamente pagamentos como: auxílios natalinos, auxílio-combustível, licença compensatória por acúmulo de acervo, indenização por acervo, gratificação por exercício de localidade, auxílio-moradia, auxílio-alimentação, licença compensatória por funções administrativas e processuais relevantes, licenças compensatória de 1 dia de folga por 3 trabalhados, assistência pré-escolar, licença remuneratória para curso no exterior, gratificação por encargo de curso ou concurso, indenização por serviços de telecomunicação, auxílio-natalidade e auxílio-creche.

Transparência e auditoria de retroativos

A tese impõe uma trava nos pagamentos retroativos. Todos os valores reconhecidos administrativamente ou por decisões judiciais anteriores a fevereiro de 2026 estão suspensos. O pagamento só poderá ocorrer após auditoria e resolução conjunta do CNJ e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e dependerá de autorização expressa do Supremo.

Para garantir o controle social, todos os tribunais e órgãos do MP deverão publicar mensalmente em seus sites o valor exato recebido por cada membro, detalhando cada rubrica, sob pena de responsabilidade dos gestores.

As regras de teto e a proibição de verbas administrativas estendem-se também às Defensorias Públicas, à Advocacia Pública e aos Tribunais de Contas. No caso dos procuradores, o STF reafirmou que o somatório do salário com os honorários advocatícios não pode, em hipótese alguma, ultrapassar o teto dos ministros do Supremo.

O STF ressaltou que esta tese é restrita às carreiras da magistratura e funções essenciais à Justiça previstas na Constituição, não se aplicando automaticamente a outras categorias do serviço público, que seguem suas leis específicas até que o Congresso edite uma lei nacional sobre o tema.

Processos

O Plenário converteu em julgamento de mérito o referendo das liminares deferidas na Reclamação (RCL) 88319, da relatoria do ministro Flávio Dino, e na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6606, do ministro Gilmar Mendes, que suspendem o pagamento de verbas que ultrapassam o teto remuneratório no serviço público, conhecidas como “penduricalhos”. O voto conjunto abrangeu, ainda, os Recursos Extraordinários (REs) 968646 e 1059466, ambos com repercussão geral (Temas 976 e 966), e a ADI 6601, de relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que tratam, respectivamente, da equiparação de diárias entre magistrados e membros do Ministério Público, da isonomia quanto ao direito à licença-prêmio ou à indenização por sua não utilização e de normas do Paraná que vinculam os subsídios de magistrados, membros do MP e do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR) aos dos ministros do STF e do procurador-geral da República. Da relatoria do ministro Cristiano Zanin, o voto incluiu a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6604, em que a Procuradoria-Geral da República (PGR) questiona normas da Paraíba sobre vinculação dos subsídios de magistrados e membros do Ministério Público e do Tribunal de Contas do estado (TCE-PB) aos subsídios dos ministros do STF e do procurador-geral da República.

Leia a íntegra da tese aprovada.

Fonte: Supremo Tribunal Federal