IA, saúde e finitude: os novos debates de um planeta que envelhece devagar e vive muito.
Ao alcançarmos a sétima década do século XXI, a humanidade vive uma transformação inédita: a longevidade atinge níveis que antes pertenciam apenas à ficção. Graças à medicina de precisão, terapias personalizadas, edição genética, sensores biométricos contínuos e IA aplicada à saúde, doenças crônicas são evitadas antes mesmo de se manifestarem. O envelhecimento fisiológico desacelera; o corpo humano se torna mais resiliente, mais eficiente e mais duradouro.
A experiência de envelhecer muda profundamente. Os 80 anos do passado equivalem agora aos 50 de outrora; e os 100 anos tornam-se marco comum. A vida se expande para além do que as gerações anteriores poderiam conceber, e essa expansão traz consigo impactos psicológicos, sociais e filosóficos. Quando viver muito era privilégio de poucos, a longevidade era celebrada como triunfo. Mas quando todos vivem mais — e com alta qualidade — um novo sentimento começa a emergir.
A IA, além de prevenir doenças, também acompanha, interpreta e prediz humores, memórias e comportamentos. Ela se torna curadora da saúde mental e guardiã das experiências acumuladas. Cada pessoa passa a dispor de um registro vivo de sua trajetória, capaz de restaurar lembranças, organizar narrativas e dar sentido ao passado. Isso gera um paradoxo: quanto mais plena a vida, mais intensa a sensação de completude. E quanto mais completa, mais a morte assume um novo significado.
Ao mesmo tempo, a própria sociedade se reorganiza. O ‘tempo livre’ deixa de ser um luxo e se torna a questão central da existência. Aqui, a utopia do ‘ócio criativo’, prevista pelo filósofo italiano Domenico De Masi, encontra sua realização ou seu maior desafio. Com a IA gerenciando a complexidade logística do mundo e a saúde do corpo, os humanos são confrontados com a liberdade de usar décadas de vida extra para a fusão entre trabalho, estudo e lazer, focando na criação de sentido. Aposentadorias são reinventadas, ciclos da vida tornam-se múltiplos e novos propósitos surgem. A morte, paradoxalmente, torna-se ainda mais preciosa — porque surge como último território de mistério em um mundo que tudo explica, tudo mede, tudo prevê.
O ser humano, que por milênios temeu a morte e buscou adiá-la, começa a encará-la como experiência final — talvez até desejável. Não por desesperança, mas por saturação. Quando “tudo já foi vivido”, quando a existência se torna vasta, rica e extensa, surge um novo tipo de cansaço: não um cansaço físico, mas um cansaço do tempo. A morte, antes inimiga, passa a ser compreendida como etapa natural de um ciclo pleno, não como ruptura traumática.
Nesse novo horizonte, dilemas éticos se intensificam. Como definir o momento certo de partir? Quem decide? O próprio indivíduo? A família? Um sistema regulatório? A IA pode ajudar na tomada de decisão, mas não pode determinar o valor metafísico da existência. A humanidade reencontra questões filosóficas ancestrais, agora sob novas lentes tecnológicas.
A grande lição dessa era é que, por mais que ampliemos a vida, jamais eliminaremos sua finitude. E talvez seja esse limite que preserve nossa humanidade. A morte, sempre temida, revela-se como última aventura — a única experiência que nunca foi vivida, a única porta que permanece fechada ao conhecimento algorítmico.
No século da longevidade extrema, a IA permite que vivamos melhor, por mais tempo, com mais sentido. Mas não nos liberta da condição essencial: somos seres finitos. E é justamente essa finitude que dá profundidade à vida. A morte, enfim, deixa de ser ausência — torna-se culminação.
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