A COP30, realizada em Belém (PA), em novembro de 2025, marcou um momento histórico para o Brasil não apenas por ser a primeira “Cúpula da Amazônia”, mas também por colocar a mobilidade ativa — e, em especial, a bicicleta — sob os holofotes das políticas climáticas globais.
Embora o foco das COPs costume recair sobre grandes matrizes energéticas e o combate ao desmatamento, em Belém o pedal deixou de ser visto apenas como lazer e passou a ser tratado como uma ferramenta estratégica de descarbonização urbana. E não apenas a bicicleta, mas todos os modais ativos que dependem da energia física humana, como caminhar e o uso de patins ou skate.
A abordagem da bicicleta na COP30 ocorreu em três frentes principais: infraestrutura urbana, articulação política e manifestações da sociedade civil. O objetivo foi enviar um sinal claro: a mobilidade ativa precisa ter orçamento e metas mensuráveis nas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas para a redução das emissões de gases de efeito estufa) do país. O manifesto apresentado defendeu que “quilômetros de ciclovias” se tornem uma meta oficial do Brasil.
Também ganhou destaque a “Visão Zero”, conceito que nasceu na Suécia e se espalhou pelo mundo, parte da premissa de que nenhuma morte no trânsito é aceitável e que o sistema viário deve ser desenhado para proteger a vida, mesmo quando ocorrem erros humanos.
A bicicleta foi ainda um símbolo de protesto e conscientização nas ruas de Belém. Ciclistas do projeto COP30 Bike Ride realizaram uma jornada simbólica que partiu de Baku, sede da COP29, atravessou a Europa e o Brasil, e culminou na entrega de uma carta com dez propostas para inserir a bicicleta de forma efetiva na agenda climática.
Movimentos como o ParaCiclo e a União de Ciclistas do Brasil (UCB) organizaram a “Bicicletada Manifesto”, cobrando que os investimentos não fossem apenas “para turista ver”. Eles destacaram que, em Belém, a bicicleta é um modal de sobrevivência para trabalhadores periféricos e negros, e que a justiça climática precisa necessariamente incluir segurança viária nesses territórios.
O grande desafio do Brasil, apontado pelos ativistas durante a COP30, é conectar ciclovias dos bairros ao centro, e não apenas criar infraestrutura em áreas turísticas, para que a transição ecológica seja, de fato, justa.
A COP30 tratou a bicicleta como uma solução de baixo custo e alto impacto, mas também evidenciou as contradições das cidades brasileiras, que ainda lutam para priorizar o ciclista em relação ao automóvel. O sucesso desse legado será medido pela manutenção das novas ciclovias e pela expansão da malha cicloviária para além do chamado “Polígono da COP”.
Durante a conferência, o governo brasileiro também utilizou o palco internacional para lançar e premiar iniciativas nacionais. O Prêmio Bicicleta Brasil destacou projetos de todo o país que promovem o uso da bicicleta como política pública e prática sustentável.
A COP30 passou; agora resta saber se o Brasil vai avançar sobre duas rodas ou seguir travado no retrovisor do automóvel.










