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Entre Orlando, Chicago e Dallas: o que vi nestas cidades e o que isso revela sobre governança e desenvolvimento territorial

Giovani Bernardo
Giovani Bernardo
Co-fundador e CEO da Exxas, Conselheiro e Mentor de Negócios certificado. Atuou como Secretário de Desenvolvimento Econômico, Tecnologia e Inovação de Tubarão/SC 2017/2023 e Vice Presidente do Fórum Inova Cidades entre 2021/2023.

Viajar, para quem empreende, raramente é apenas deslocamento. Aproveitei meus dias com a família nos EUA para refletir sobre os lugares que visitamos.

Nestes momentos existe sempre um esforço, nem sempre bem-sucedido, de desligar. De sair da operação, desacelerar e estar presente. Mas existe também um efeito colateral interessante: quando a gente se afasta do dia a dia, o olhar muda.

Fica mais amplo. Mais atento. Mais estratégico.

Foi nesse estado que percorri algumas cidades nos Estados Unidos nos últimos dias. E, mesmo em um período curto, uma percepção começou a se repetir: cidades não se desenvolvem por acaso.

Elas são construídas. Ao longo do tempo. Por decisões acumuladas.

O que essas cidades têm em comum

Orlando, Chicago, Oklahoma City e Dallas são cidades muito diferentes entre si.

Escala, densidade, vocação econômica, complexidade social.

Mas, olhando com mais atenção, existe um padrão comum que conecta todas elas: nenhuma depende de uma única decisão isolada.

O que sustenta o desenvolvimento dessas cidades é uma combinação de fatores que se reforçam ao longo do tempo:

  • Clareza de direção;
  • Coordenação entre atores; e
  • Consistência na execução.

Em outras palavras: governança.

Orlando: quando excelência operacional vira estratégia de cidade

Orlando é, à primeira vista, uma cidade moldada pelo turismo. Mas reduzir Orlando a isso é simplificar demais.

O que mais chama atenção não são apenas os parques, mas a consistência da experiência. O padrão de atendimento, a organização, a previsibilidade.

Não importa se é hotel, transporte, restaurante ou parque. Existe uma cultura de serviço muito bem estabelecida. Isso não é espontâneo.

É resultado de processos, treinamento, gestão e, principalmente, de uma visão clara de posicionamento: a cidade como produto.

Orlando mostra que excelência operacional, quando sustentada ao longo do tempo, se transforma em vantagem competitiva territorial.

Chicago: densidade econômica e o peso da estrutura

Chicago opera em outra lógica.

É uma das economias mais relevantes do mundo, com um nível de diversificação que poucas cidades conseguem sustentar. Nenhum setor domina a economia local de forma isolada.

Essa complexidade exige base: infraestrutura robusta, sistema educacional forte, conexão
entre universidades e mercado, capacidade logística instalada.

Chicago deixa evidente que não existe desenvolvimento econômico consistente sem investimento estrutural contínuo.
Mas também traz um ponto importante de tensão.

Mesmo com toda a sua potência, a cidade enfrenta desafios relevantes de desigualdade. Crescimento econômico, por si só, não garante distribuição de oportunidades. E isso talvez seja uma das lições mais importantes.

Oklahoma City: estratégia, identidade e escala

Oklahoma City poderia passar despercebida em uma análise superficial.

Mas talvez tenha sido uma das cidades mais interessantes da viagem.

Menor, mais simples, menos densa. E, ainda assim, extremamente funcional, organizada e com forte senso de identidade.

A presença de um time competitivo da NBA, o Oklahoma City Thunder, em uma cidade desse porte não é trivial. E ajuda a explicar parte dessa identidade coletiva.

Existe uma ideia no urbanismo de que toda cidade precisa ter a sua “Torre Eiffel”. Não necessariamente um monumento, mas um símbolo que gere pertencimento e diferenciação. Oklahoma City entendeu isso.

Mas, mais do que isso, entendeu que símbolos só fazem sentido quando sustentados por
estratégia.

A cidade passou por décadas de investimento público estruturado, com foco em revitalização urbana, qualidade de vida e atração de atividades econômicas.

Aqui, a principal lição é clara: escala não é pré-requisito para desenvolvimento. Clareza
estratégica e consistência são.

Dallas: infraestrutura, cultura e transição

Dallas fecha esse circuito com uma combinação interessante. É uma cidade com infraestrutura forte, economia robusta e histórico ligado a setores tradicionais como energia. Mas que começa a mostrar novas camadas.

O Bishop Arts District revela um lado mais criativo, com comércio independente, restaurantes, galerias e uma atmosfera cultural própria. Um espaço que contrasta com a escala da cidade e sugere diversidade urbana.

Já o West End Historic District traz a conexão com a história, com prédios preservados e novos usos para estruturas antigas.

Dallas parece ser uma cidade em movimento.

Não abandonou sua base econômica, mas começa a incorporar novas dinâmicas culturais, criativas e tecnológicas.

E isso talvez seja um dos sinais mais relevantes de desenvolvimento: a capacidade de se reinventar sem perder identidade.

O que isso revela sobre governança e desenvolvimento territorial

Ao olhar essas cidades em conjunto, algumas ideias ficam mais claras.

A primeira é que desenvolvimento territorial não acontece de forma espontânea.

Ele é resultado de escolhas.

A segunda é que essas escolhas precisam ser sustentadas ao longo do tempo. Não por um projeto, mas por uma lógica contínua de atuação.

E a terceira é que não existe um único modelo.

Algumas cidades se destacam pela experiência, outras pela estrutura, outras pela identidade e outras pela capacidade de transição. Mas todas têm algo em comum: existem sistemas por trás dessas entregas.

Conectando com prática: planejamento e governança

Essas observações dialogam diretamente com alguns dos principais referenciais internacionais sobre desenvolvimento territorial.

O Intelligent Community Forum, por exemplo, reforça que cidades inteligentes não são
necessariamente as mais tecnológicas, mas as que conseguem articular bem seus ativos:
capital humano, inovação, conectividade e inclusão.

Já a lógica da especialização inteligente, derivada do método europeu RIS3, parte de um princípio simples: territórios que tentam fazer tudo ao mesmo tempo tendem a não alcançar profundidade em nada. É preciso fazer escolhas e concentrar esforços em vocações reais.

Na prática, o que vemos nessas cidades é a aplicação desses conceitos ao longo do tempo.

E é justamente nesse ponto que entra o que, na Exxas, tratamos como governança da inovação.

Não como um conceito abstrato, mas como um sistema que conecta:

  • Estratégia;
  • Execução;
  • Articulação entre atores; e
  • Capacidade de decisão.

Sem isso, iniciativas ficam isoladas. Com isso, elas se tornam parte de uma construção
consistente.

Uma última reflexão

Talvez o principal aprendizado dessa experiência não esteja em copiar modelos.

Orlando não deve ser replicada.

Chicago não deve ser reproduzida.

Oklahoma City não deve ser imitada.

Dallas não deve ser seguida como referência direta.

Cada território tem sua realidade, suas limitações e suas oportunidades.

Mas existe algo que atravessa todos esses contextos: o desenvolvimento não é acidental.

Ele é resultado de intenção, coordenação e continuidade.

E talvez a pergunta mais importante não seja o que essas cidades fizeram.

Mas o que nós estamos, de fato, escolhendo construir nos territórios em que atuamos.

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