spot_img
HomeEIXOS TEMÁTICOSGovernançaEscândalo do Banco Master mostra que Brasil não tem feito sua lição...

Escândalo do Banco Master mostra que Brasil não tem feito sua lição de casa em relação ao combate à corrupção, afirma especialista da Unesp

Segundo Rita de Cássia Biason, o episódio repete a relação pantanosa entre empresários e representantes políticos observada anos atrás, na Operação Lava-Jato. Para a docente, delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro tem o potencial de acelerar as investigações e permitir o mapeamento de toda a teia de práticas ilícitas.

Em março de 2026, a terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, resultou na prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A operação investiga, entre outras ilicitudes, esquemas de fraudes financeiras, manipulação financeira e lavagem de dinheiro realizadas pela instituição financeira. Na última semana, após a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) ter decidido pela manutenção da prisão preventiva do investigado, Vorcaro trocou a sua equipe de advogados e iniciou os trâmites para realizar uma delação premiada.

Desde então, o banqueiro já assinou um termo de confidencialidade com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e Polícia Federal (PF), o que marca o início formal das tratativas. A notícia da delação do banqueiro tem causado apreensão nos corredores de Brasília em virtude da proximidade de Vorcaro com representantes políticos na Capital Federal, e da suspeita de que as investigações possam alcançar membros do Congresso, do Governo Federal, do Banco Central e mesmo do Poder Judiciário.

Para Rita de Cássia Biason, cientista política e coordenadora do Centro de Estudos sobre Corrupção da Unesp, no câmpus de Franca, a eclosão de mais um escândalo revela que o Brasil não tem feito a sua lição de casa no combate à corrupção e na promoção da transparência na relação entre empresários e a classe política do país. “Considerando que nós tivemos um escândalo grande, a Operação Lava-Jato, que envolvia as empreiteiras, especialmente a Odebrecht, me parece que essas relações pantanosas continuam sempre à tona, e isso nos surpreende porque é uma repetição”, afirma a docente.

Na perspectiva da docente, a ampla repercussão midiática de supostos esquemas de corrupção envolvendo políticos, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o banqueiro Daniel Vorcaro, já está estimulando mudanças na conduta de alguns membros dos Três Poderes. “Eu identifico que todo esse escândalo do Banco Master tem pressionado o STF a elaborar um código de conduta. De certa forma isso é muito positivo”, aponta Biason.

A proposta foi apresentada pelo atual presidente do Tribunal, Edson Fachin, e é inspirada em normas do Judiciário alemão. O código inclui medidas como a limitação para parentes de ministros atuarem em casos que tramitam no STF, maior transparência quanto à remuneração em palestras e regras de quarentena para juízes aposentados.

Sobre o instrumento da colaboração premiada que Daniel Vorcaro começou a negociar com a PGR e a PF, na última semana, a professora do câmpus de Franca explica que os benefícios do delator variam de caso a caso, sendo necessário levar em consideração a qualidade das provas apresentadas pelo investigado e a relevância da sua colaboração. “É preciso avaliar se aquela colaboração levou a uma mudança significativa nas investigações. Por isso que há a necessidade de se apresentar provas documentais, e não apenas contar histórias, de forma a não haver seletividade na delação”, explica.

A professora explica que, segundo a Lei 12850/2013, que regulamenta o instrumento, o investigado que tenha atuado na delação deve ser beneficiado por medidas que podem incluir o perdão da pena, a sua redução em dois terços do período ou a pena privativa de liberdade. “Caso tudo aquilo que ele tenha apresentado seja fraudulento ou o investigado tenha mentido, esse acordo é anulado”, acrescenta.

Embora a delação premiada, por vezes, receba críticas a respeito de abusos e pressões indevidas sobre os investigados, como foi visto em vários momentos durante a Operação Lava-Jato, Biason acredita que o instrumento continua sendo uma importante ferramenta no combate à corrupção por ter o potencial de acelerar as investigações e permitir o mapeamento de toda a teia de práticas corruptas. “Ela quebra o silêncio interno dos esquemas de corrupção e dá acesso a informações que dificilmente surgiriam por outros meios”, afirma a docente. “Ela permite que você identifique líderes, estruturas criminosas e organizações dentro do próprio poder público”, diz.

Ouça a análise completa da professora Rita de Cássia Biason sobre o escândalo do Banco Master e a delação premiada do banqueiro Marcos Vorcaro no Podcast Unesp.

Fonte: Jornal UNESP

Artigos relacionados
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img

Mais vistos