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Da Guerra Fiscal à Corrida pela Eficiência: O Novo Papel do Desenvolvimento Econômico nas Cidades Brasileiras

Giovani Bernardo
Giovani Bernardo
Co-fundador e CEO da Exxas, Conselheiro e Mentor de Negócios certificado. Atuou como Secretário de Desenvolvimento Econômico, Tecnologia e Inovação de Tubarão/SC 2017/2023 e Vice Presidente do Fórum Inova Cidades entre 2021/2023.

Em um cenário onde incentivos fiscais deixam de ser o principal diferencial, cidades que investirem em governança eficiente, infraestrutura, inovação e qualidade de vida sairão na frente

Para as lideranças municipais brasileiras, 2026 marca o início de uma das transições mais desafiadoras e oportunas da história recente. A aprovação da Reforma Tributária sobre o consumo não apenas simplifica o sistema, mas encerra definitivamente um modelo de gestão: aquele baseado na “guerra fiscal” como principal ferramenta de atração de investimentos.

Simultaneamente, o setor privado enfrenta o que especialistas chamam de Era da Convergência, um ciclo onde a inteligência artificial agêntica e o choque de infraestrutura física (Compute Shock)¹ redefinem a competitividade global.

Neste cenário, o papel do planejador urbano e do gestor público mudou. O município deixou de ser um mero doador de terrenos para se tornar um orquestrador de ecossistemas. A cidade que prosperará em 2030 não é a que oferece a menor alíquota, mas a que oferece o melhor “ambiente de execução” para empresas que precisam de governanças ágeis, infraestrutura estável (especialmente energia) e talentos que buscam qualidade de vida. O desenvolvimento econômico inteligente agora é uma questão de performance institucional.

A Ruptura Fiscal: A Gestão Municipal como Diferencial Competitivo

O modelo clássico de atração de empresas pautado na redução do ISS está com os dias contados. Com a migração para o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a adoção do princípio do destino, a arrecadação pertencerá ao local onde o bem ou serviço é consumido.

Essa mudança inverte a lógica de atração de investimentos:

  1. O Fim do Subsídio: Sem autonomia para manipular alíquotas de consumo, o “imposto zero” deixa de ser um chamariz.
  2. O Foco no Cidadão-Consumidor: Como o imposto segue o consumo, atrair residentes qualificados e elevar o padrão de vida local torna-se a estratégia fiscal mais sustentável, a atração de talentos para o mercado local, por exemplo nômades digitais, é ainda mais estratégico.
  3. Eficiência contra o Custo Brasil: Vencerá o município que oferecer o menor “Custo Brasil” local através de desburocratização digital, segurança jurídica e processos ágeis de licenciamento.

O “Compute Shock1” como Oportunidade de Atração de Investimentos

Enquanto as cidades lidam com a transição fiscal, os CEOs globais enfrentam o Compute Shock: a percepção de que a IA não vive na “nuvem”, mas depende de infraestrutura física massiva: energia estável, água para resfriamento e conectividade.

O Brasil possui uma vantagem competitiva rara: uma matriz elétrica majoritariamente renovável e abundância hídrica. Para o gestor público, isso abre uma janela para atrair infraestrutura de dados e indústrias de alta tecnologia. Contudo, atrair esses investimentos exige que o município atue como um parceiro estratégico, oferecendo:

  • Zoneamento Inteligente: Planejar áreas que suportem demandas energéticas de alta capacidade sem comprometer o abastecimento da população.
  • Resiliência e Infraestrutura: Municípios que garantirem infraestrutura crítica e transparência de dados serão os destinos prioritários para os 70% de executivos que hoje buscam regionalizar suas cadeias de suprimento (nearshoring), segundo um estudo recente da EY-Parthenon.

A Cidade-Plataforma: Suportando o Setor Privado na Transição para a IA

Os líderes empresariais estão redesenhando suas corporações para serem “AI-first”, buscando reduzir burocracia e acelerar decisões. Uma prefeitura que opera em silos analógicos e processos lentos torna-se um gargalo para a economia local.

O desenvolvimento econômico inteligente exige que a gestão pública atue como uma cidade-plataforma. Isso significa usar a tecnologia não apenas para o cidadão, mas para criar um ecossistema onde as empresas operem com agilidade:

  • Desburocratização Digital: Implementar fluxos de trabalho digitais e automação que fialem a mesma língua da nova economia baseada em IA.
  • Especialização Regional: Fortalecer vocações locais, seja agronegócio tecnológico, biotecnologia ou logística avançada, conectando os Hub de Inovação, Núcleos de Inovação Tecnológica (NIT) e universidades às necessidades das empresas instaladas.

Atração de Talentos: A Nova Equação do Trabalho

A convergência tecnológica está deslocando o crescimento econômico do emprego tradicional. Com agentes de IA assumindo tarefas rotineiras, o talento qualificado torna-se extremamente móvel.

Para o planejador urbano, o desafio não é mais apenas atrair “vagas de trabalho”, mas sim atrair as pessoas que operam esses sistemas. Conectividade 5G/6G, segurança pública baseada em dados, mobilidade urbana eficiente e uma experiência urbana vibrante tornaram-se os novos “incentivos fiscais” para reter talentos e gerar consumo local.

Governança: Transformando Potencial em Resultado Mensurável

A maior barreira para o desenvolvimento municipal não é a falta de tecnologia, mas a ausência de um sistema de inovação funcionando. A inovação municipal morre quando depende apenas do entusiasmo passageiro de uma gestão; ela prospera quando se torna uma rotina institucionalizada e apartidária.

A transição de uma smart city (focada apenas em sensores) para uma intelligent community (focada em capital humano e prosperidade) exige maturidade na execução. Sem uma coordenação ética e eficiente entre governo, universidades e empresas, o município continuará sendo um espectador da transformação tecnológica.

Conclusão: O Momento da Decisão Estratégica

O horizonte de 2030 premiará os territórios que compreenderem que o desenvolvimento econômico agora é um problema de governança. O gestor público que esperar a Reforma Tributária ser totalmente implementada para agir chegará tarde demais para a disputa pelos investimentos da era da IA.

A oportunidade para os municípios brasileiros é clara: posicionar-se como hubs de uma economia agêntica, verde e eficiente. A solução de desenvolvimento econômico inteligente da Exxas oferece o suporte técnico e o arcabouço de governança necessários para que as cidades brasileiras naveguem esta transição com clareza, transformando o risco da obsolescência na segurança da prosperidade para o cidadão e para o mercado.

1. Compute Shock é um conceito recente introduzido pelo Future Today Strategy Group no relatório Convergence Outlook 2026
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