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Soberania tecnológica: o papel das STEMs no desenvolvimento do Brasil (Parte 1)

Atilio Rulli
Atilio Rulli
Vice-Presidente de Relações Públicas da Huawei na América Latina e Caribe, com contribuição significativa na construção de parcerias que alavancam a transformação digital no Brasil. O executivo já atuou como gestor de Rede e Data Center da Prodam – SP, passando por multinacionais como Cabletron, Enterasys e CISCO, onde foi responsável pela área de Diretorias Regionais de Vendas.

Soberania tecnológica em disputa: formação em STEM, autonomia nacional e o reposicionamento do Brasil na economia global do conhecimento

Vivemos um momento de rupturas aceleradas que até pouco tempo pareciam impossíveis. Nos últimos meses, acumulam-se acontecimentos que, em outras circunstâncias, levariam anos para acontecer: a instabilidade internacional se aprofunda, disputas comerciais e energéticas se intensificam, conflitos bélicos se espalham e a competição redefine, diante dos nossos olhos, novas estruturas globais. Ao mesmo tempo, a economia de dados e a inteligência artificial impactam de maneira irreversível na sociedade como um todo, tornando-a cada vez mais dependente dessas tecnologias e ampliando as disputas que se articulam em torno delas.

No Brasil, esse cenário recolocou em primeiro plano um debate que parecia esquecido sobre a soberania nacional, especialmente a tecnológica, que aparece nas disputas por semicondutores, no controle de infraestruturas críticas, como data centers, energia e defesa, na reorganização das cadeias de valor e na corrida pela inteligência artificial. A capacidade do país de compreender o ritmo das mudanças, avaliar com lucidez suas forças e fragilidades e transformar essa leitura em políticas capazes de responder às tarefas que a conjuntura atual impõe tornaram-se decisivas para garantir a continuidade e a solidez do próprio Estado nacional. 

Na atualidade, a soberania tecnológica só pode ser exercida por um exército expressivo de excelência acadêmica e profissional, capaz de criar as soluções que, em última instância, asseguram a autonomia e a independência. Os países que lideram a corrida pela soberania tecnológica sabem disso e têm em comum políticas públicas focadas na chamada agenda STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, na sigla em inglês). 

  • A China se consolidou como a principal potência global nessas disciplinas ao combinar formação em larga escala, investimento robusto em pesquisa e forte capacidade de aplicação tecnológica. Projeções indicam que o país forma cerca de 77 mil doutores em STEM por ano, superando os Estados Unidos. Além disso, os gastos chineses em P&D alcançaram 3,93 trilhões de yuans, o equivalente a 2,8% do PIB, reforçando a prioridade estratégica dada a áreas como inteligência artificial, robótica e telecomunicações.
  • Os Estados Unidos seguem como uma das maiores potências mundiais em STEM, sustentados por universidades de ponta, forte tradição científica e ampla capacidade de absorção de talentos. O país forma cerca de 58 mil doutores por ano, enquanto a força de trabalho em ocupações do setor chega a 37 milhões de pessoas, ou 24% do total. Esse peso também se reflete no investimento em inovação: os gastos com P&D giram em torno de US$ 1 trilhão.
  • A Alemanha mantém uma posição de destaque graças à sua sólida tradição industrial e técnica. Na graduação, 35% dos bacharéis vêm das disciplinas STEM, a maior entre os países da OCDE. O investimento em pesquisa também confirma essa vocação: os gastos em P&D chegaram a €137 bilhões, ou 3,17% do PIB, sustentando a competitividade alemã em engenharia, manufatura avançada e inovação.

No Brasil, esse projeto ainda é um desafio. O país possui escala universitária e base científica relevante, mas ainda forma relativamente poucos graduados nessas áreas. Segundo a OCDE, apenas 16,2% dos bacharéis no país se formam em cursos de STEM, percentual abaixo da média internacional. Já os investimentos em pesquisa e desenvolvimento chegam, em média a 1,2% do PIB, indicando avanço recente, mas ainda distante do patamar observado nas economias mais avançadas.

Na outra ponta, o setor de entrega por aplicativos emprega cerca de 1,7 milhão de trabalhadores, segundo o IBGE, com informalidade de 71,1%. Pesquisa do Ipea aponta condições de trabalho precárias com aumento de jornada, queda de renda e menor contribuição previdenciária. Esse setor apresenta também uma contradição importante: os trabalhadores, na sua maioria jovens urbanos de escolaridade baixa, precisam de letramento digital para o uso dessas ferramentas, muitas com IA embarcada. 

Há avanços como a ampliação da conectividade em escolas e a digitalização de serviços. Ainda assim, a distância entre acesso e capacidade, como vimos, continua grande. A formação em STEM precisa ser um projeto mais  amplo e de longo prazo que começa na educação básica e se estende até a pós-graduação.

Na educação básica, significa consolidar projetos pedagógicos que integrem pensamento computacional, raciocínio lógico, cultura científica e letramento digital aos currículos, além de garantir infraestrutura adequada, conectividade, formação docente e ambientes de aprendizagem mais voltados à experimentação. No ensino médio, esse esforço ganha densidade por meio da ampliação da formação técnica e profissional articulada às demandas da economia digital. Já no ensino superior, o desafio é expandir a formação de engenheiros, cientistas e pesquisadores, fortalecer laboratórios, aproximar universidades do setor produtivo e criar condições para que a pesquisa aplicada se converta em inovação, produtividade e capacidade tecnológica nacional.

A Estratégia Brasileira para a Transformação Digital, consolidada no âmbito do CITDigital, reconhece a educação e a capacitação profissional como eixos estruturantes. Essa visão recoloca a tecnologia como base do desenvolvimento econômico. Um país que pretende ganhar relevância na economia do conhecimento precisa formar talentos em escala, aproximar escolas de laboratórios, universidades de vocações produtivas e currículos das demandas concretas da sociedade.

Essa proposta exige políticas públicas consistentes, formação de professores, atualização curricular, ambientes de aprendizagem mais conectados com pesquisa, além de articulação mais estreita entre poder público, academia e setor produtivo. Exige, sobretudo, visão de longo prazo. O problema brasileiro está na fragmentação dos esforços e na descontinuidade das prioridades.

Ampliar a base STEM significa também ampliar a base de talentos do país. Isso envolve enfrentar desigualdades, permanência e representação ligadas à renda e a disparidades regionais. Vale ressaltar também as desigualdades de gênero. Uma estratégia nacional de formação tecnológica será tanto mais robusta quanto maior for sua capacidade de incorporar inteligências diversas e abrir caminhos para quem ainda participa desse ecossistema de forma desigual.

O Brasil reúne escala, criatividade, capacidade universitária e um mercado relevante. O que falta é tratar a formação científica e tecnológica com a importância e a rapidez que o momento exige. O salto digital brasileiro não virá apenas da adoção de novas soluções importadas. Ele dependerá da construção paciente e ambiciosa de um ecossistema educacional capaz de transformar conhecimento em desenvolvimento, inovação e força nacional. É nessa travessia que as STEM deixam de ser um tema setorial e se afirmam como um dos caminhos necessários para garantir o futuro da soberania digital do país.

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