Iniciativas articulam universidades e governo para desenvolver soluções aplicadas voltadas a pessoas com deficiência
Um workshop realizado na quinta-feira, dia 9 de abril, na cidade de São Paulo, marcou o início das atividades de quatro Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs), aprovados na mais recente chamada da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e que contemplam diferentes frentes relacionadas à inclusão e à melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência.
A iniciativa é fruto de uma articulação entre a Fapesp e a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SEDPcD) com o objetivo de aproximar a produção científica de demandas concretas da sociedade, com impacto potencial sobre políticas públicas e serviços voltados à população.
O encontro foi realizado no auditório da SEDPcD, na capital paulista, e reuniu representantes de instituições públicas, empresas e organizações da sociedade civil envolvidas com o tema.
Segundo o secretário da pasta, Marcos da Costa, os projetos chegam para preencher lacunas enfrentadas pela população com deficiência: “Há três anos, demos início a uma iniciativa inédita ao reconhecer o potencial das universidades para enfrentar uma demanda urgente: hoje, são cerca de 3 milhões de pessoas no Estado de São Paulo e aproximadamente 15 milhões no Brasil que precisam de tecnologia assistiva e ainda não encontram soluções nacionais que lhes garantam apoio com dignidade. Ao apostar naquilo que o País tem de melhor, que são seus pesquisadores e cientistas, estruturamos uma rede de centros e ações que já começa a gerar resultados concretos, do desenvolvimento de novas próteses a aplicações de inteligência artificial. Nossa expectativa é que os novos centros avancem com a mesma intensidade, contribuindo para ampliar a autonomia e a qualidade de vida das pessoas com deficiência”.
Três dos centros apresentados são sediados na USP. Um deles, a Plataforma Aberta de Jogos Adaptativos para Educação Inclusiva, prevê o desenvolvimento de uma ferramenta digital voltada a estudantes do 1º ao 5º ano do ensino fundamental da rede pública paulista. A proposta utiliza inteligência artificial para ajustar, em tempo real, o conteúdo ao perfil de cada aluno, com atenção especial a estudantes neurodivergentes, especialmente aqueles com transtorno do espectro autista (TEA). O pesquisador responsável é Carlos Bandeira de Mello Monteiro, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) que, no evento, chamou a atenção para o aumento exponencial que vem ocorrendo na quantidade de pessoas diagnosticadas com neurodivergências: “Estamos caminhando para um futuro em que uma a cada sete crianças será diagnosticada no espectro, exigindo muito mais diversidade e individualidade nas salas de aula”, afirmou.
Outro projeto, o Centro de Pesquisa e Orientação sobre Deficiência Visual (CPODV), tem como foco a ampliação da inclusão social, educacional e profissional de pessoas com deficiência visual. A iniciativa prevê o desenvolvimento de tecnologias assistivas, além da produção e disseminação de conhecimento para reduzir barreiras de acesso. A pesquisadora responsável, Maria Célia Pereira Lima Hernandes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), destacou a importância de um projeto como este diante da quantidade de pessoas com deficiência visual na sociedade: “Trata-se da deficiência com maior incidência na população. No entanto, os cegos estão longe de estarem incluídos e presentes em todos os tipos de ambientes”.
Também foi apresentado o Centro Multiprofissional de Estudos Paralímpico e Paradesportivo: saúde, formação, alto desempenho e tecnologia (CMEPP), que reúne pesquisadores de diferentes áreas para atuar no desenvolvimento do paradesporto e do esporte paralímpico. A proposta considera tanto os benefícios físicos da prática esportiva quanto seus impactos na saúde mental, no bem-estar e na qualidade de vida. O pesquisador responsável é José César Rosa Neto, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB). “Esperamos gerar impacto significativo no paradesporto a partir de quatro eixos: saúde, formação, alto desempenho e tecnologia. Vamos conduzir pesquisas para entender a relação entre a atrofia muscular associada à deficiência e o sistema imunológico, além de avaliar como o treinamento físico influencia respostas inflamatórias, hormonais e metabólicas em pessoas com deficiência. Também vamos analisar condições socioambientais para subsidiar políticas públicas mais eficazes de inclusão”, explicou o professor.
“Sinto-me honrado por participar deste momento, que marca o lançamento de novos Centros de Ciência para o Desenvolvimento concebidos a partir de demandas concretas da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Trata-se de um avanço importante no modelo de fomento à pesquisa, ao aproximar universidades, gestores públicos, setor produtivo e organizações da sociedade civil na construção de soluções colaborativas voltadas a desafios reais do Estado de São Paulo. Os centros assumem o compromisso de, em até cinco anos, produzir resultados relevantes tanto para o avanço do conhecimento quanto para a melhoria de políticas públicas, especialmente nas áreas de acessibilidade e inclusão. Ao integrar diferentes perspectivas e competências, a iniciativa busca desenvolver tecnologias que ampliem a autonomia, a cidadania e a qualidade de vida das pessoas com deficiência, promovendo uma cultura efetiva de inclusão e fortalecendo os valores democráticos”, celebrou o reitor da USP, Aluisio Augusto Cotrim Segurado.
A quarta iniciativa, chamada Centro de Tecnologia Assistiva e Inclusão Escolar (CTAIE), é desenvolvida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e tem como foco a tecnologia assistiva aplicada à educação. O projeto é coordenado pela professora Maria Cecília Martinelli e pretende identificar e mapear demandas de acessibilidade na rede pública de ensino e desenvolver soluções com o uso de inteligência artificial e impressão 3D, com o objetivo de apoiar estudantes com deficiência ou dificuldades de aprendizagem.
O que são os CCDs da Fapesp
Os Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs) são uma modalidade de financiamento da Fapesp voltada à produção de conhecimento com aplicação direta em problemas sociais relevantes. Os projetos são estruturados a partir da colaboração entre universidades, órgãos públicos e outros parceiros, com foco na implementação de soluções.
Diferentemente de iniciativas acadêmicas tradicionais, os CCDs buscam integrar pesquisa, desenvolvimento tecnológico e políticas públicas desde o início. Isso permite que os resultados tenham maior potencial de impacto concreto, seja na formulação de políticas, seja na oferta de serviços à população.
Os centros operam em rede e envolvem equipes multidisciplinares, reunindo especialistas de diferentes áreas para enfrentar desafios complexos, como inclusão educacional, acessibilidade e saúde. A proposta é reduzir a distância entre a produção científica e sua aplicação prática, ampliando o alcance social do conhecimento gerado.
O presidente da Fapesp, Marco Antonio Zago, pontuou que se trata de uma das vertentes que representam a robustez paulista no campo da pesquisa: “É importante destacar que iniciativas como esta só são possíveis porque o Estado de São Paulo mantém, há décadas, uma política consistente de investimento em ciência, tecnologia e ensino superior, com aportes expressivos que não encontram paralelo em outros contextos. Ao mesmo tempo, chama atenção a atuação da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência, que tem direcionado esforços para áreas capazes de gerar impacto concreto na vida das pessoas. Nesse cenário, os Centros de Ciência para o Desenvolvimento representam um modelo inovador, construído a partir de demandas reais do poder público e desenvolvido em parceria com a comunidade acadêmica. Hoje já são dezenas de centros em funcionamento, reunindo universidades, institutos de pesquisa e outros parceiros em projetos colaborativos que buscam aplicar ciência e tecnologia para ampliar a autonomia, a inclusão e as oportunidades das pessoas com deficiência, com resultados práticos e retorno direto para a sociedade”, afirmou.
Fonte: Jornal da USP | Michel Sitnik






