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Criação de búfalos fortalece economia no Vale do Ribeira, mas manejo inadequado pode prejudicar o solo e o meio ambiente

Pesquisador da Unesp sugere que pecuaristas adotem rotatividade das áreas de pastoreio para evitar a compactação do terreno e perda da biodiversidade. Dano prejudica culturas agrícolas e pode estimular expansão da produção sobre reservas de Mata Atlântica.

O Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, é conhecido por ser um dos maiores polos produtores de banana do Brasil. Isso acontece devido ao clima úmido favorável da região, com solos férteis e abundância de recursos hídricos. Mas não é apenas a fruticultura que se beneficia desse local: desde a década de 1960, produtores utilizam as áreas alagadas da região para criar búfalos, comercializando posteriormente o leite e a carne desses ruminantes.

A bubalinocultura está presente, principalmente, no Norte do Brasil, mas ainda representa uma pequena parcela da produção pecuária do país. No entanto, segundo dados do IBGE, São Paulo possui o maior rebanho fora dessa região, com 118.824 cabeças, sendo que aproximadamente 53% dos bubalinos produzidos no estado estão no Vale do Ribeira, região que abriga os maiores remanescentes de Mata Atlântica do país. O que vem preocupando os pesquisadores é que, se por um lado essa atividade pecuária fortalece a economia local, ela pode estar acompanhada de riscos ambientais em virtude do manejo inadequado desses animais.

Uma pesquisa conduzida na Unesp e publicada na revista Geoderma Regional demonstrou que a criação de gado bubalino pode estar degradando o solo, tornando-o improdutivo para a produção agrícola. Como consequência, produtores abrem mais áreas de cultivo e pastoreio, afetando diretamente a Mata Atlântica nativa.

Pressão sobre quatro patas

Desde 1999, o Vale do Ribeira é considerado Patrimônio Natural pela Unesco. A região abriga um verdadeiro mosaico de unidades de conservação, além de contar com destinos como o PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira) e o Parque Estadual da Ilha do Cardoso, espaços que chamam atenção pelo ecoturismo, com paisagens naturais e atrativos de aventura.

Mas a ocupação histórica por pastagens na região tem gerado perda de biodiversidade e degradação do solo. Pense no tamanho dos búfalos: alguns desses gigantes podem atingir a altura de uma pessoa adulta (1,70 m) e pesar mais de 800 kg. O animal se sustenta em quatro patas, exercendo uma pressão de contato em movimento de até 408 kPa (quilopascal).

“O valor é superior ao exercido pelos rodados das maiores e mais potentes máquinas agrícolas, devido a baixa relação da área de contato da pata do animal com o solo”, explica o orientador da pesquisa, Reginaldo Barboza da Silva, docente da Faculdade de Ciências Agrárias do Vale do Ribeira da Unesp, no câmpus de Registro. “Essa situação ainda é mais critica quando o solo está saturado, devido a sua baixa resistência mecânica e capacidade de suporte de carga”, afirma.

O pisoteio gera um aumento da densidade do solo e da resistência à penetração, que frequentemente ultrapassa o limite crítico de 2 a 3 MPa (megapascals). Essa mudança nas propriedades do solo acaba impedindo o crescimento radicular, ou seja, o ambiente fica inadequado para a expansão e ramificação das raízes de uma planta, o que dificulta o seu crescimento e a absorção de água e nutrientes de forma adequada.

A superfície passa ainda por uma degradação hídrica, já que o solo compactado impede a infiltração de água, agravando o encharcamento superficial e a erosão do solo. Para fins de comparação, a infiltração da água em áreas de vegetação nativa costuma ser de 92% a 95% maior do que nestes locais danificados pelas patas dos búfalos.

O estudo foi conduzido em uma área próxima ao rio Ribeira de Iguape, região com predomínio de solos hidromórficos e argilosos. Conforme a água infiltra, o terreno perde resistência mecânica e fica ainda mais maleável, o que intensifica a compactação causada pelo pisoteio. Rodrigo Batista Pinto, primeiro autor do estudo e mestre em agronomia pela Unesp, explica que as pegadas em terreno seco também gerariam impacto para o solo, mas em menor proporção.

O cientista atenta também para a questão das chuvas associadas ao pisoteio. O evento climático pode intensificar o acúmulo de água no solo, favorecendo a expansão de áreas alagadas ao longo do tempo. “Quando esse processo ocorre em locais em que houve abertura de floresta às margens do rio, o problema pode se intensificar, pois a vegetação atua como uma barreira natural que regula o escoamento da água, aumenta a infiltração e reduz a ocorrência de enchentes”, define Batista Pinto.

Novas práticas de manejo sustentável

O pesquisador reforça que não é contra a bubalinocultura, mas que busca, por meio de sua pesquisa, evidenciar práticas agrícolas baseadas em manejos corretos. Alguns animais analisados no estudo passavam até 21 dias em uma única área de pastagem durante o verão, o que não é considerado adequado do ponto de vista das boas práticas.

“É importante que os animais circulem com maior frequência entre as áreas de pastejo, permanecendo menos tempo em cada espaço. Esse tipo de manejo tende a ser menos prejudicial ao solo, pois reduz a intensidade do pisoteio contínuo em um mesmo local. Com uma rotação bem planejada, há tempo para que o solo se recupere, diminuindo a compactação e favorecendo a regeneração da vegetação”, explica Batista Pinto.

A deposição contínua de esterco é também uma opção para manter a qualidade do solo em níveis próximos aos da vegetação nativa, assim como o controle do ambiente combinados a análises de peso do animal, evitando o pastejo em épocas de alta umidade do solo.

No momento em que a área de pastagem fica imprópria para os animais ou mesmo para o cultivo agrícola, há uma tendência dos produtores abrirem novas áreas ao redor, colocando a Mata Atlântica em risco.

O uso agropecuário de Áreas de Preservação Permanente (APPs) é proibido pelo Código Florestal Brasileiro (Lei 12.651/2012). Conforme explicado por Barboza, a ocupação indevida nessas zonas compromete a regulação hídrica e a manutenção de ecossistemas saudáveis.

Segundo o professor, estudos como esse devem ser realizados e repassados para a comunidade com a finalidade de conscientizar a população, o empresário rural e o produtor, mostrando que existe uma legislação e que ela precisa ser cumprida. “Ela precisa ser cumprida não apena por se tratar de uma questão legal, mas porque o ambiente precisa disso, aquela região precisa disso. A bubalinocultura, a exemplo de qualquer outra prática agropecuária, pode ser feita, mas é preciso cuidado em alguns aspectos”, argumenta o professor.

Fonte: Jornal da UNESP | Carolina Fioratti

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