POR UMA DISCUSSÃO MAIS ABRANGENTE

É preciso expandir as discussões e debates sobre cidades inteligentes além do conceito de tecnologia

Por Willian Rigon

Quando o Connected Smart Cities abriu este novo espaço de conteúdo e comunicação e escalou um time de especialistas para desenvolverem colunas sobre os temas que a plataforma aborda e que permeiam os conceitos, desafios e necessidades das cidades inteligentes (smart cities) no Brasil e no mundo, me deparei com uma questão fundamental: o desafio de criar conteúdos relevantes, no meio de tanta informação disponível atualmente sobre o tema.

Em 2014, quando iniciamos o desenvolvimento do Connected Smart Cities, o contexto era outro, e o termo “smart city” não tinha sua popularidade atual, não era amplamente divulgado e raramente era utilizado e percebido pelo poder público.




Passados quase sete anos, vivemos uma nova realidade, e aqui não estou falando da pandemia e seus impactos, mas sim, da nova realidade da compreensão das “smart cities”. Isso porque o Connected Smart Cities, precursor em muitas das discussões atuais sobre o tema, penetrou os diferentes ecossistemas e conversou com diferentes atores que pensam, planejam, executam e criticam as cidades e suas relações.

Conseguimos, e aqui no plural, pois é uma vitória de todos aqueles que pensam e discutem o assunto, minimizar a distorção do conceito de cidades inteligentes, anteriormente simbiótica a tecnologia, para algo mais “smart”, inteligente…

Acredito que o pensamento fragmentado era um dos motivos da má interpretação do conceito, justamente porque frequentemente notava-se a correlação de um meio, a técnica ou o instrumento, ao termo smart cities, e não, como assim o faz mais sentido, a correlação de um problema ou sua solução com o conceito de smart cities.

DEMANDAS DAS CIDADES

Exemplifico: uma cidade com problemas de engarrafamento, assim sendo, de mobilidade, provavelmente gerado devido a intermitência dos fluxos urbanos de veículo, intensificado nos horários dos movimentos pendulares entre moradia e trabalho, instala um sistema de semáforos inteligentes, e dessa forma, consegue melhorar o fluxo de veículos em horários de pico, com redução dos engarrafamentos. 

Neste exemplo, o destaque que se propaga é o sistema, ou seja, a tecnologia utilizada, e a associação realizada por falha de comunicação, é que o que tornou a cidade mais inteligente, é a tecnologia. Bom, a tecnologia melhorou aquela situação, mas a correta associação pertence ao fato de que um problema existente foi solucionado, beneficiando sua população, por meio de uma análise, um planejamento e uma ação, neste caso, propiciada pelo serviço de engenharia e pelo instrumento tecnológico.

Este mesmo problema, em situações diferentes também poderia ser solucionado pelo replanejamento urbano e incentivo de usos mistos, reduzindo os movimentos pendulares; pela implantação de modais de transportes públicos mais eficientes e consequente redução do uso do veículo privado individual; pela geração de empregos em bairros dormitórios, por meio do entendimento das vocações e incentivo ao empreendedorismo; e talvez por uma série de outras possibilidades, com tempo de solução diferente, porém com resultados positivos para a qualidade de vida da população e assim, também tornando a cidade mais inteligente.

Logo, neste pequeno espaço de tempo que a plataforma CSC existe, conseguimos aqui no Brasil, evoluir a discussão sobre cidades inteligentes, do conceito inicial da União Europeia¹ que considera que uma cidade inteligente é um lugar onde as redes e serviços tradicionais se tornam mais eficientes com o uso de tecnologias digitais e de telecomunicações para o benefício de seus habitantes e negócios para um conceito, ou adaptação, utilizado pela FGV², onde as cidades inteligentes são sistemas de pessoas interagindo e usando energia, materiais, serviços e financiamento para catalisar o desenvolvimento econômico e a melhoria da qualidade de vida.

Podem parecer conceitos quase idênticos, ou parecidos, mas, na verdade, essa desassociação às tecnologias abre uma infinidade de possibilidades de discussões e conteúdos relevantes abordando resiliência, inclusão, participação, empreendedorismo, sustentabilidade, prosperidade, urbanismo e conexão que permitirão tornar nossas cidades melhores e rechear as colunas desta plataforma com conteúdo relevante para quem pensa e transforma as nossas cidades.

¹ https://ec.europa.eu/info/eu-regional-and-urban-development/topics/cities-and-urban-development/city-initiatives/smart-cities_en What are smart cities? A smart city is a place where traditional networks and services are made more efficient with the use of digital and telecommunication technologies for the benefit of its inhabitants and business.

² https://fgvprojetos.fgv.br/noticias/o-que-e-uma-cidade-inteligente 

Willian Rigon
Willian Rigon
Sócio e diretor comercial e marketing da Urban Systems. Responsável pelo Ranking Connected Smart Cities, estudo elaborado pela Urban Systems em parceria com a Necta, e pela gerência do departamento de inovação da companhia. Atuação como consultor de inteligência de mercado para projetos de desenvolvimento imobiliário e urbano em todo o Brasil, ministrando palestras e cursos sobre os temas de desenvolvimento imobiliário e urbano e cidades inteligentes.
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