Como a nova revolução tecnológica está redefinindo cidades, economia e o papel do Estado
Há poucos dias, acompanhei com um misto de fascínio e profunda preocupação a apresentação da futurista Amy Webb no SXSW. O alerta dela foi claro: as tradicionais “tendências de tecnologia” morreram. O que vivemos agora são “convergências”, tempestades sistêmicas que vão redesenhar o trabalho, a economia e as relações sociais.
Essa inquietação bateu de frente com outro conteúdo que li recentemente, um artigo pragmático da Sequoia Capital afirmando que a próxima empresa de um trilhão de dólares não venderá software, mas sim serviços autônomos baseados em Inteligência Artificial. Junte isso aos conceitos de “Destruição Criativa”, que renderam o Prêmio Nobel de Economia, e o cenário fica cristalino: o modelo atual de gestão, trabalho e economia está prestes a ser engolido pela tecnologia.
E aqui reside o meu alerta aos prefeitos, governadores e gestores públicos: essa tempestade não vai atingir apenas o Vale do Silício ou a Faria Lima. Ela já chegou ao balcão das prefeituras, ao planejamento urbano e à arrecadação das cidades. A inovação tecnológica deixou de ser um “puxadinho” do setor de TI; ela é, hoje, o maior desafio de infraestrutura, economia e política pública da nossa década.
Não se trata de ser alarmista, mas de ter os pés no chão. O Estado precisa deixar de ser um espectador passivo e assumir o leme antes que a mudança o atropele. E o primeiro passo para isso é entender que a IA, se bem utilizada, pode ser o maior trunfo que o serviço público já teve.
A Revolução do Atendimento e o Fim da Burocracia
Historicamente, a relação do cidadão com o Estado é marcada pelo atrito. Para abrir uma empresa, pagar um imposto ou solicitar um alvará, exige-se que o contribuinte seja um especialista em navegar por secretarias, portais confusos e carimbos intermináveis.
A Inteligência Artificial moderna não é mais apenas um chatbot que responde a perguntas frequentes. Estamos entrando na era da “IA Agêntica”, sistemas que operam como verdadeiros pilotos automáticos. Imagine um cenário onde o cidadão simplesmente diz ao portal da prefeitura: “Quero abrir um café no centro”. O agente de IA, de forma autônoma, cruza o zoneamento urbano, preenche as licenças, emite as taxas e devolve o processo pronto.
Isso não é ficção científica, é a tecnologia de 2026. Para o setor público, isso significa o fim da burocracia como a conhecemos. Ao automatizar processos de “alta inteligência e regras”, o governo não apenas corta custos operacionais e zera filas, mas devolve dignidade ao atendimento do cidadão.
Mais importante ainda: isso não significa o fim do servidor público, mas a sua libertação. Ao delegar o trabalho mecânico e repetitivo para as máquinas, o talento humano do Estado fica livre para exercer o que a máquina ainda não tem: o julgamento, a empatia e a formulação de políticas estratégicas.
A Cidade como Plataforma e a Nova Geografia Econômica
Durante décadas, a cartilha do desenvolvimento econômico municipal foi a mesma: oferecer isenção de impostos e doar terrenos para atrair indústrias ou grandes escritórios corporativos. O gestor público cortava a fita do novo “distrito industrial” e contava os empregos gerados. Esqueça essa cartilha. A nova economia não precisa de galpões físicos de tijolo e cimento. A fábrica do futuro é invisível, e o escritório é, literalmente, a cidade inteira.
Com a consolidação do trabalho remoto e a automação de processos via IA, a matriz econômica tornou-se fluida. Hoje, um profissional pode morar na sua cidade, consumir no seu comércio local, matricular os filhos na sua escola, mas produzir valor para uma empresa em Cingapura, Londres ou no Vale do Silício.
O que isso significa para prefeitos e governadores? Que a competição global mudou de arena. Não disputamos mais empresas com incentivos fiscais; disputamos pessoas com qualidade de vida. O novo “ímã” de desenvolvimento econômico é a infraestrutura tecnológica (conectividade de ponta, 5G real, wi-fi público robusto), aliada à segurança, mobilidade e espaços de convivência. A cidade que não for uma plataforma excelente para se viver, perderá seus melhores cérebros, e seus contribuintes, para a cidade vizinha que for.
O Custo Oculto da Inovação: Água, Energia e a Nova Geopolítica
Contudo, se por um lado o trabalho humano se descentraliza, a infraestrutura que sustenta essa revolução é brutalmente física e centralizada. Existe um mito de que a Inteligência Artificial vive na “nuvem”. A verdade é que a nuvem pesa, ocupa espaço, bebe muita água e consome uma quantidade colossal de energia.
Empresas de deep tech, laboratórios de IA e os gigantescos data centers que processam esses trilhões de dados exigem um volume computacional que desafia a matriz de recursos de qualquer município. O resfriamento desses servidores consome milhões de litros de água, e a alimentação elétrica demanda uma rede que não sofra oscilações.
Aqui acende-se um alerta vermelho para o planejamento estratégico do Estado: a política energética é a nova política de tecnologia. Se não prepararmos a nossa infraestrutura de água e energia, a inovação vai literalmente “desligar” ou fugir pela fronteira. Não precisamos ir longe para ver isso acontecer. O Paraguai, valendo-se de energia barata e abundante, já tem atraído empresas brasileiras de alto consumo computacional e de tecnologia intensiva. Custos de energia elevados e redes instáveis não são apenas um problema de zeladoria; são um passivo econômico que expulsa o futuro de dentro do nosso território.
O gestor público do século XXI precisa entender de gigabytes, mas não pode, em hipótese alguma, tirar os olhos dos megawatts.
O Tsunami Social e a Corrida pela Requalificação
Todo esse avanço tecnológico traz embutido um alerta que ecoou forte na fala de Amy Webb no SXSW: estamos caminhando para a era do “trabalho ilimitado” feito por máquinas. E é aqui que a gestão pública enfrenta o seu maior teste de fogo.
A plataforma de empregos que sustentou a classe média nas últimas décadas está mudando de forma irreversível. Muitas funções administrativas, rotinas de escritório, atendimento e até análises cognitivas complexas serão absorvidas pelos agentes de IA. O impacto social de um desmonte rápido dessa base econômica tradicional será enorme. Se não agirmos, o resultado natural será uma disparada na desigualdade, perda de arrecadação e uma pressão insustentável sobre as redes de assistência e saúde do Estado.
A solução não é proibir o avanço da tecnologia, a história já provou que lutar contra a inovação é uma batalha perdida. O papel do líder público de visão é antecipar a dor.
Precisamos iniciar, hoje, o maior projeto de requalificação profissional da nossa história. Não podemos esperar a fila do desemprego dobrar a esquina para pensar no que fazer. É urgente capacitar nossa força de trabalho para operar lado a lado com a IA, bem como redirecionar talentos para áreas onde a máquina não chega: o cuidado humano, a criatividade, o pensamento crítico e a gestão estratégica. A educação pública precisa parar de formar alunos para o século XX e começar a treiná-los para governar os algoritmos do século XXI.
O Novo Pacto: Soberania de Dados e Diálogo
Para construir essa “cidade inteligente” e esse Estado ágil, há uma verdade inconveniente: o setor público não tem a velocidade, nem o orçamento, para desenvolver modelos de Inteligência Artificial de ponta sozinho. A parceria com a iniciativa privada não é apenas
bem-vinda; ela é essencial para equilibrar essa conta.
No entanto, essa parceria exige um novo nível de maturidade. Entramos no terreno delicado da Soberania de Dados. Quando um cidadão interage com um piloto automático do governo para matricular o filho na escola ou acessar o sistema de saúde, quem é o dono dessa informação? O Estado, a empresa de tecnologia que forneceu a IA, ou o cidadão?
Dados são a infraestrutura mais valiosa do nosso tempo.
Os governos precisam desenhar contratos e marcos regulatórios que protejam ferozmente as informações da sua população. É preciso atrair o ecossistema privado de inovação, sim, mas garantindo que o lucro corporativo não seja construído sobre a extração desregulada da privacidade do cidadão ou sobre a perda de controle estratégico do município e do país. O diálogo entre o público e o privado nunca foi tão necessário, e ele precisa ser feito de igual para igual.
O Preço da Omissão e o Prêmio da Liderança
O Prêmio Nobel de Economia nos lembrou de uma lei imutável: o crescimento contínuo só acontece através da “Destruição Criativa”. O modelo antigo precisa ser destruído para que o novo prospere.
A Inteligência Artificial e a nova economia fluida são essa força destrutiva e criadora batendo à porta dos nossos gabinetes. A transição será turbulenta. Haverá dor, mas também haverá oportunidades sem precedentes de construir um Estado mais leve, eficiente, humano e focado no que realmente importa: a qualidade de vida das pessoas.
As tendências que vimos no SXSW e as movimentações de capital do Vale do Silício não são previsões para um futuro distante. Elas são o clima de hoje. A tempestade chegou. Os líderes públicos desta geração serão lembrados pela história de duas formas: como os gestores que se omitiram e deixaram a tempestade destruir suas cidades, ou como os arquitetos audaciosos que usaram a força dos ventos para modernizar o Estado e proteger a sua gente.
A tecnologia já ligou o piloto automático. Mas o destino dessa viagem ainda é uma escolha nossa.
As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC.

Co-fundador e CEO da Exxas, Conselheiro e Mentor de Negócios certificado. Atuou como Secretário de Desenvolvimento Econômico, Tecnologia e Inovação de Tubarão/SC 2017/2023 e Vice Presidente do Fórum Inova Cidades entre 2021/2023.





