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Alguma coisa acontece no meu coração, e quase nunca envolve um painel de LED

Caio Esteves
Caio Esteves
Fundador da N/Lugares Futuros. Especialista em place branding, placemaking e futuro das cidades. Autor, professor e keynote speaker, presente nas principais redes e institutos internacionais que discutem e promovem lugares e futuros.

Entre referências importadas e decisões aceleradas, o risco não está na tecnologia em si, mas em ignorar a identidade, o tempo e as dinâmicas que realmente constroem um lugar.

Em fevereiro deste ano, o Conpresp, o conselho municipal de preservação de São Paulo, aprovou um projeto que veio sendo chamado, com assustadora naturalidade, de “Times Square paulistana”. A proposta, apresentada pela iniciativa privada, prevê a instalação de grandes painéis de LED no cruzamento das avenidas São João e Ipiranga, geridos por um agente privado por 15 anos, em contrapartida, a empresa arca com cerca de R$ 6 milhões em restauro de patrimônio na região: a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a estátua da Mãe Preta no Largo do Paissandu.

Revitalizar, requalificar, regenerar: não são a mesma coisa

Precisamos ser precisos sobre o que está sendo criticado aqui, porque a imprecisão conceitual é exatamente parte do problema.

Há décadas, o mantra do planejamento urbano era a revitalização, remover pichações, restaurar fachadas, criar um centro cultural aqui e ali, na esperança de “trazer a vida de volta” ao lugar. O verbo parte de uma imagem equivocada: a cidade como paciente sem vida, mas lugares não morrem, eles mudam de status. O centro de São Paulo não está morto; está ocupado por quem a cidade formal talvez não queira enxergar, ou talvez desocupado pelo mesmo motivo. Ao tratar esses lugares como cadáveres e naturalizar intervenções, empurramos os conflitos para o quarteirão seguinte, deixando fachadas impecáveis, aluguéis inflacionados e nenhum ganho social. Atenção, isso não é nostalgia urbana nem uma acusação genérica a qualquer projeto de transformação dos centros, longe disso.

A requalificação foi um passo adiante: ela calibra o hardware urbano, melhora calçadas, praças, mobilidade, mobiliário, acessibilidade. É o que podemos chamar de “ganho rápido” do placemaking: intervenções que geram evidências materiais de que algo está mudando. Importante e necessária em certos contextos, mas é uma etapa, não um destino. Requalificar é abrir espaço para que a vida que já existe se organize, sem isso, é só palco vazio.

Regenerar é o que esse projeto deveria ser, e a diferença não é semântica: regenerar é retroalimentar um ecossistema, sobrepondo hardware, software e futuros. O software urbano são os usos, a economia local, tudo o que acontece no lugar, e os futuros são os cenários, os riscos, as oportunidades que o lugar precisa ser capaz de enfrentar e absorver. 

A diferença entre os três verbos pode ser expressa com mais precisão do que o campo costuma admitir: Regenerar = Hardware + Software × Futuros orientados pela identidade (peopleware). A multiplicação não é retórica, se o componente dos futuros vale zero, o produto retorna a zero, e o lugar volta à obsolescência.

A nossa futura Times Square é puro hardware, sem software, sem futuros, sem comunidade no processo, sem uma única pergunta sobre o que aquele cruzamento precisa ser em 2035 ou 2040. 

A Times Square que ninguém mostra como referência

Existe uma ironia enorme em usar a Times Square como inspiração sem entender como ela se tornou o que é. Em maio de 2009, quando o prefeito Bloomberg e a secretária de transportes Janette Sadik-Khan fecharam as quadras da Broadway para carros, a intervenção começou com cadeiras de plástico colorido. Baratas, provisórias, intencionalmente temporárias, um piloto, um experimento com direito a fracasso assumido. Os comerciantes locais eram contrários, claro. Jan Gehl tinha mapeado que 89% do espaço da praça estava dedicado a carros enquanto 90% dos usuários eram pedestres, uma distorção que precisava de resposta baseada em dados, não em estética. A decisão de tornar o espaço permanente só veio em fevereiro de 2010, depois de meses monitorando resultados, a praça definitiva ficou pronta em 2016, sete anos depois.

O que tornou aquilo possível não foi a instalação de LEDs, foi análise, tempo, ajuste iterativo e devolução do espaço às pessoas mesmo contra a resistência do mercado imediato. Sim, a Times Square original já era relevante antes dessa intervenção, passou a ser ainda mais memorável. O que São Paulo está propondo como “inspiração” é a imagem final desse processo, sem nenhuma das etapas que o tornaram possível.

Piccadilly Circus e a identidade que antecede a luz

Piccadilly Circus foi construída em 1819 por John Nash para conectar a Regent Street à Piccadilly, os primeiros anúncios iluminados chegaram apenas em 1908, com a Perrier como primeira anunciante, os néons vieram em 1923, na fachada do London Pavilion, inaugurados pela Bovril, os LED vieram décadas depois.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os painéis foram completamente apagados por exigência de segurança. Nesse mesmo período, a estação de metrô local abrigava, segundo registros do London Transport Museum, cerca de 7.000 pessoas por noite durante os bombardeios, a praça era abrigo, resistência, o lugar onde Londres sobrevivia ao escuro para acordar de manhã. Quando os painéis voltaram a funcionar em 1949, o fato foi noticiado como sinal de que a cidade havia sobrevivido, não como estratégia de revitalização.

A iluminação é consequência de uma identidade construída ao longo de dois séculos de ocupação, cultura e memória coletiva, não a sua causa, e essa distinção, entre o que é causa e o que é consequência, é exatamente o que está ausente no exemplo paulistano.

O que esse cruzamento já é

Caetano Veloso gravou “Sampa”, eternizando o cruzamento onde serão instalados os painéis. Não me lembro de outro endereço no Brasil com essa carga simbólica construída por uma canção, e o que torna isso mais significativo é que foi um baiano chegando sem entender a cidade que produziu seu documento afetivo mais preciso. Aquela “dura poesia concreta de suas esquinas” não foi projetada por nenhum plano, emergiu do uso, do deslocamento, da fricção cultural e do tempo acumulado, do pertencimento, ou no caso específico, da falta dele, exatamente a camada cultural que qualquer projeto com real pretensão de regeneração deveria revelar antes de instalar qualquer coisa.

A pergunta que ninguém fez antes de aprovar o projeto é a mais importante: o que esse lugar já é? Quem são as pessoas que o habitam hoje? Quais usos já funcionam? O que a comunidade do entorno precisa que ainda não tem? O que esse lugar significa para moradores e visitantes? 

Se fossem feitas com seriedade, essas perguntas poderiam até chegar à conclusão de que o cruzamento precisaria de um painel de LED gigante, mas não de um empréstimo de identidade de Nova York: o lugar precisaria primeiro ser compreendido naquilo que já é, e promovido, reforçado a partir daí.

O problema não é o LED, é a ausência de tudo que vem antes dele, e depois.

A proposta prevê que os painéis não veiculem publicidade comercial, isso é apresentado como diferencial, como prova de que se trata de cultura, mas adicionar conteúdo digital sem entender o software daquele lugar é só uma versão mais cara de autenticidade performática: a aparência do que seria regeneração no lugar do processo que ela exigiria.

Ao travar a identidade daquele cruzamento numa gestão privada por 15 anos, São Paulo está colonizando um futuro que ainda não sabe qual é: apostando que conhece o que o lugar é e representa hoje, que sabe o que ele será por uma geração inteira, e renunciando a qualquer possibilidade de ajuste, aprendizado ou resposta às mudanças e necessidades que certamente virão. Isso não é regeneração, ou progresso, para ficar num léxico menos urbanístico: é colonização de futuro, iluminada com LED.

São Paulo precisa regenerar o seu centro, mas isso começa por uma pergunta que ainda não foi feita: o que esse lugar já é, para quem, e com quais visões de futuro em mente?

REFERÊNCIAS

Projeto da 'Times Square' no Centro de SP prevê via liberada para pedestres nos fins de semana e grandes eventos temáticos

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/04/23/times-square-no-centro-de-sp-preve-via-liberada-para-pedestres-nos-fins-de-semana-e-grandes-eventos-tematicos.ghtml

Governo e Prefeitura assinam termo de cooperação para o projeto Boulevard São João

https://propmark.com.br/ooh/governo-e-prefeitura-assinam-termo-de-cooperacao-para-o-projeto-boulevard-sao-joao/

"Conselho da Prefeitura de São Paulo aprova projeto da Times Square." Meio & Mensagem, 23 fev. 2026. https://www.meioemensagem.com.br/midia/conselho-da-prefeitura-de-sao-paulo-aprova-projeto-da-times-square

"Projeto da 'Times Square' paulistana é aprovado por conselho em SP." CNN Brasil, 25 fev. 2026. https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/projeto-da-times-square-paulistana-e-aprovado-por-conselho-em-sp/

"Times Square de SP: prefeitura libera painéis de LED no centro." Metrópoles, 25 fev. 2026. https://www.metropoles.com/sao-paulo/times-square-paulistana-prefeitura

ESTEVES, Caio. Cidade Antifrágil: uma perspectiva para os lugares num futuro de incertezas. São Paulo: Editora Realejo, 2021.

ESTEVES, Caio. “Revitalizar é ressuscitar um corpo que nunca morreu”. O Futuro das Coisas, 2025.  https://ofuturodascoisas.com/revitalizar-e-ressuscitar-um-corpo-que-nunca-morreu/

ESTEVES, Caio. "Place Branding e a Homogeneização do Mundo”. Portal CSC, 2025. https://portal.connectedsmartcities.com.br/2025/12/10/place-branding-e-a-homogeneizacao-do-mundo/

SADIK-KHAN, Janette; SOLOMONOW, Seth. Streetfight: Handbook for an Urban Revolution. New York: Viking, 2016. Trecho em: "Battle for a New Times Square." Urban Land Magazine. https://urbanland.uli.org/infrastructure-transit/battle-new-times-square

SUNNING WILD ON BROADWAY

https://nypost.com/2009/05/26/sunning-wild-on-broadway/

GEHL, Jan. Análise da Times Square documentada em: "How 'People-Centered' Design Made Times Square the Place To Be on New Year's Eve." Next City, 30 dez. 2014. https://nextcity.org/urbanist-news/urban-design-times-square-concrete-bowtie-density-gehl-new-years-eve

"Piccadilly Lights: 110 years of an ad landmark." Campaign Live, jul. 2018. https://www.campaignlive.co.uk/article/piccadilly-lights-110-years-ad-landmark/1495925

HOLLOWAY, Siddy (curadora, Hidden London, London Transport Museum), citada em: "Inside the history of one of London's most iconic landmarks." ABC News, 30 ago. 2019. https://abcnews.go.com/International/inside-history-londons-iconic-landmarks-piccadilly-circus/story?id=65268877
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