PRESENÇA E AUSÊNCIA NO FUTURO DA CIDADE

Precisamos de práticas de integração social em que as atividades presenciais e remotas estejam articuladas de modo competente: o presencial e o remoto têm papéis a cumprir na nova cultura organizacional e social

Há uma estranha proliferação de “cidades digitais” no Metaverso, como a ciber-cidade desenhada pelo escritório de arquitetura Zaha Hadid, e outras construções “virtuais” que simulam cidades.

Mas, estamos de fato “presentes” nessas cidades virtuais? Os passeios pelo Metaverso logo perdem o interesse porque não se trata de um ecossistema vivo, complexo e diverso. O “deslocamento” no Metaverso tende a ser como na Web/Internet: saltando de lá pra cá, por meio de hiperlinks. Encontros fortuitos, a maior riqueza da cidade, são raros ou inexistentes.



Provavelmente, os simulacros de cidades no Metaverso são apenas uma caricatura do futuro das cidades, uma aplicação prematura de uma plataforma promissora.

Por isso, defendo que o Metaverso seja baseado na realidade aumentada: uma camada adicional de informação dinâmica e contextualizada, tendo como referência nossa presença no mundo físico. Os “duplos digitais” seriam uma ferramenta de projeto, testes e simulações, intensificando os processos colaborativos urbanos, envolvendo a população na cocriação das cidades.

Presença e Ausência

Mas, o que é “estar presente” em algum lugar ou atividade social?

Até 2020, a resposta era óbvia: estar presente é estar no lugar onde acontecem as atividades sociais, estar presente no local de trabalho, educação, prestação de serviço, compras, etc.

Mas, mesmo antes do distanciamento social, haviam reuniões presenciais em que provavelmente ninguém estava, de fato, “presente”: sala cheia, palestrante falando alto, mas ninguém prestando atenção. Como tantas outras atividades presenciais vazias, maçantes e improdutivas, servindo apenas para “marcar presença” numa lista impressa e assinada.

No começo do distanciamento social, o maior medo dos gestores e líderes era a suposta improdutividade das equipes remotas. Aconteceu o oposto: níveis de produtividade sem precedentes. O problema passou a ser a fadiga, o número crescente de casos de burnout, a ausência de fronteiras entre vida pessoal e trabalho, a banalização das longas jornadas de trabalho. Ainda estamos aprendendo a administrar o trabalho remoto.

Por outro lado, novos hábitos de convívio e trabalho nos surpreenderam:

– Pessoas comentam que nunca estiveram tão próximas de suas famílias, convivendo de modo intenso com filhos, parceiros, pais e amigos;

– Quem migrou para o trabalho remoto pôde escolher melhor onde morar, próximos da família e maior contato com a natureza;

E, por causa disso:

– A explosão do mercado imobiliário “peri-urbano”: assentamentos semi-urbanos, de baixa densidade, e semi-rurais, pouco dedicados à atividade agrícola/pecuária – uma tendência que não é nova, mas que mudou de formato e intensidade, contribuindo para o surgimento de uma rede urbana distribuída.

Talvez a tendência imobiliária mais decisiva tenha sido o abandono parcial do espaço terciário das grandes metrópoles: já que sua força de trabalho se tornou remota, muitas das grandes corporações encerraram contratos de locação de seus escritórios, e é mais barato investir em infraestrutura para trabalho remoto do que manter uma enorme metragem quadrada de produtividade questionável.

Mas a inércia dos negócios imobiliários confunde a situação. Os enormes investimentos na implementação de um tecido urbano de alta densidade, com infraestrutura de transportes, amenidades locais e amplos espaços para escritórios, implicam metas de retorno sobre o investimento que só serão atingidas com a completa reinvenção dos produtos imobiliários: remodelações, mudança e/ou inclusão de novas funções, a transformação de seu papel na sociedade urbana pós-pandêmica.

Presentes na ausência, ausentes na presença

Mas as práticas remotas de trabalho e educação não decretaram a “morte da presença”. A presença tem um papel crucial na socialização das crianças e adolescentes, na integração de equipes de trabalho, na celebração de momentos importantes da vida profissional, pessoal e acadêmica.

Mas, de qual “presença” estamos falando?

Atividades presenciais maçantes e custosas, em termos imobiliários, não precisam mais existir. Precisamos de práticas de integração social em que as atividades presenciais e remotas estejam articuladas de modo competente: o presencial e o remoto têm papéis a cumprir na nova cultura organizacional e social.

A tarefa dos gestores das organizações (empresas, governo e escolas) será, cada vez mais, criar situações de interação social intensa, quer sejam presenciais ou remotas. Assim como a tarefa dos empreendedores imobiliários será fornecer espaços que possam apoiar essas situações.

Que lugares futuros serão esses? Como será, e onde estará, a casa do colaborador remoto que participará, eventualmente ou raramente, de reuniões presenciais? Como serão os espaços que apoiam as atividades presenciais com qualidade? Onde estarão, no território, minha equipe e os imóveis da minha empresa ou organização? Estarão no mesmo local, ou em locais completamente diferentes?

Lugares, Locais, Imóveis e o Metaverso

O Metaverso é parte de algo que já existe: a Internet. É apenas um fato adicional de uma transformação maior, acelerada pelo distanciamento social, e que questiona muitos dos aspectos tradicionais da Cidade.

Um desses aspectos é a nova compreensão da ideia de “lugar”: ele não é a mesma coisa que o imóvel, mas sim uma situação de interação social, sustentada por imóveis. O lugar não é sinônimo do “local”, mas sim algo que acontece em locais: o local é a localização geográfica do imóvel.

No “lugar teleconferência”, cada um está em sua casa (ou outro local) participando de uma situação de intensa comunicação. No “lugar integração de equipe”, todos estão presentes em um mesmo imóvel dotado de infraestrutura adequada e localização conveniente, que facilita a formação de uma comunidade de práticas capazes de aprender, produzir e inovar. No “lugar universidade” ou “escola”, cada pessoa (professor ou aluno) está em um local diferente, reunindo-se presencialmente ou remotamente, em momentos oportunos.

O Metaverso também não é um lugar, e sim uma infraestrutura digital que pode sustentar lugares. Mas, não faz sentido simular imóveis no Metaverso, e sim utilizá-lo para construir lugares que vão além dele, com valor ancorado no encontro, na interação social, na presença.

Esses lugares não precisam estar em centros urbanos de alta densidade, e sim em qualquer local conveniente do ponto de vista geográfico, financeiro, político e organizacional.

Como será a paisagem da Cidade Distribuída, “espalhada pelo território”? Como será e como utilizaremos essa rede integrada de “lugares presenciais” e “virtuais”?

Desde o início de 2020, essas perguntas se tornaram um mistério que precisamos desvendar colaborativamente. As decisões unilaterais das diretorias das empresas e organizações têm se mostrado pouco oportunas, quando não desastrosas.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Connected Smart Cities  

Caio Vassão
Head de inovação na Kyvo e fundador da Bootstrap. Arquiteto e urbanista, há mais de 25 anos pesquisa as complexas relações entre urbanidade, tecnologia, comunidades e inovação. Professor e pesquisador coordenador do grupo Cenários Urbanos Futuros (RITe-FAUUSP), além de consultor em projetos de inovação e transformação organizacional, com abordagem do Metadesign para processos de transformação cultural e urbana.
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