AS CIDADES INTELIGENTES QUE (NÃO) QUEREMOS

Cidades Inteligentes, sustentáveis, humanas… Inclusivas ou segregadas?

Indo direto ao ponto, apesar do tema ser de extrema importância e de grande aprofundamento, muito se discute sobre as nossas cidades do futuro, sem dúvida mais inteligentes, com menos problemas, mais soluções e na maioria das discussões, muito tecnológicas e digitais. Mas conseguimos visualizá-las atendendo a todos?

Milton Santos (geógrafo, escritor, cientista, jornalista, advogado e professor universitário), no documentário “Mundo global visto do lado de cá”, de Sílvio Tendler diz, no início dos anos dois mil, pouco antes de falecer aos 75 anos, que “nunca na história da humanidade houve condições técnicas e científicas tão adequadas a construir o mundo da dignidade humana”, imaginemos então o que ele diria mais de 20 anos depois, após tantos avanços tecnológicos e científicos? Bom o que sabemos é que ainda em 2000 ele já concluía dizendo que: “essas condições foram expropriadas por um punhado de empresas que decidiram construir um mundo perverso”.



Santos era um geógrafo urbano, que discutia as cidades e a globalização e apontava como esta última utilizava-se da ciência e da modernidade para benefício de poucos. Assim, é necessário que haja atores que possam balancear a disputa entre os detentores de informação, recursos e poder, que são poucos, e os demais, a grande massa da população. 

Aliás, é importante destacar, que mesmo que dividamos esse jogo de poder entre 2 grupos, esta grande massa também se subdivide em incontáveis tipos e grupos, pois ainda estamos distantes de solucionar as diversas formas de desigualdades sociais que temos em nosso planeta e que visualizamos nos territórios das cidades.

Assim, retomando ao título desta discussão: “que cidades inteligentes não queremos?” Não queremos cidades inteligentes que ampliem as desigualdades, mas sim, cidades inteligentes que reduzam essas desigualdades, criando oportunidades para os mais periféricos e reduzindo as diversas formas de exclusões que já temos em nossos espaços urbanos.

Desigualdade social, desigualdade econômica, desigualdade regional, desigualdade racial e desigualdade de gênero, são das mais gritantes em nossa sociedade atual. Não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Permitir que o desenvolvimento inteligente das nossas cidades gere uma desigualdade tecnológica ou de acesso, criando novos grupos de excluídos que não se encaixam nas novas formas de viver a cidade, por dificuldade de uso, problemas de instrução, falta de acesso às tecnologias pessoais ou de conectividade não irá nos trazer cidades melhores daquelas que estamos partindo. 

O próprio Milton Santos já dizia, que “esse é o grande mistério das cidades: elas crescem e se modificam, guardando, porém, sua alma profunda apesar das transformações do seu conteúdo demográfico, econômico e da diversificação de suas pedras”. Permitiremos mesmo que as cidades inteligentes, estas que estamos discutindo melhorias na mobilidade, na iluminação, na segurança, na educação e em tecnologia, reproduzam essa desigualdade intrínseca em suas almas?

Não, não podemos. E não devemos! 

Assim, torna-se primordial trazer as questões sociais para o planejamento e gestão das cidades, removendo a miopia comum de pensarmos em melhorias e progressos com nossa visão de indivíduo, ou daqueles poucos grupos a que nos inserimos. Uma cidade é multifacetada e heterogênea. Dessa forma, uma cidade inteligente dá voz e escuta os diferentes grupos que a compõem, sejam eles capazes ou incapazes de se pronunciarem. 

Indo ao extremo da exclusão, são mais de 220 mil moradores de rua no Brasil (IPEA 2020), pouco mais de 0,1% da população total do nosso país. Como podemos atingir status de cidades inteligentes, se esta parcela da população, e tantas outras, não são atendidas ou não se beneficiam das soluções implantadas? Há uma música lançada em 1999 (If that were me – Melanie C), sobre estes cidadãos excluídos da sociedade que já dizia “eu não poderia viver sem meu celular, mas você nem ao menos tem um lar”, quase 23 anos depois, como seria nossa vida na cidade sem nossos smartphones? Como então é a vida destas pessoas que não possuem aparelhos ou conectividade para se inserirem aos serviços e soluções digitais?

“O que estamos vivendo hoje é que o homem deixou de ser o centro do mundo. O centro do mundo agora é o dinheiro”, nos disse Milton Santos. Trazer o homem (todos eles) de volta para o centro, é sem dúvida o caminho para construir as cidades inteligentes que queremos.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Connected Smart Cities  

Willian Rigon
Sócio e diretor comercial e marketing da Urban Systems. Responsável pelo Ranking Connected Smart Cities, estudo elaborado pela Urban Systems em parceria com a Necta, e pela gerência do departamento de inovação da companhia. Atuação como consultor de inteligência de mercado para projetos de desenvolvimento imobiliário e urbano em todo o Brasil, ministrando palestras e cursos sobre os temas de desenvolvimento imobiliário e urbano e cidades inteligentes.
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