PANDEMIA TORNA A ARQUITETURA MAIS ATENTA A PARCERIAS, ÁREAS PÚBLICAS E USOS COLETIVOS

São muito bem-vindas parcerias público-privadas que consigam alavancar melhorias e otimizar o uso de espaços já existentes. É o caso de projetos de concessão de parques e áreas públicas, parte dos quais temos acompanhado de perto contribuindo com as propostas iniciais

A era dos starchitects, os arquitetos celebridades que visavam a realização de obras mirabolantes sem maiores preocupações com o entorno, perdeu seu já minguado sentido no mundo pós-pandêmico. A busca pela convivência, a coletividade e o pensamento integrado estão mais vivos do que nunca e se consolidam como parâmetros da nova arquitetura contemporânea. Seja pela necessidade de criar ações coordenadas de enfrentamento da COVID-19, pela vontade de superar a falta do outro imposta pelo isolamento social ou pela urgência de articular respostas aos problemas sociais e econômicos, é preciso praticar novos olhares para produzir espaços mais condizentes com o atual momento.

A valorização dos espaços públicos é, sem dúvida, o principal ponto de partida. As pessoas estão sedentas de contato com a natureza e precisam de locais abertos para se encontrarem em segurança. Soma-se a isso a percepção de que, sem essas pausas e de uma sensação de pertencimento ao mundo natural, fica mais difícil conquistar qualidade de vida e combater os sintomas de ansiedade e depressão que se difundem globalmente.



Por isso são muito bem-vindas parcerias público-privadas que consigam alavancar melhorias e otimizar o uso de espaços já existentes. É o caso de projetos de concessão de parques e áreas públicas, parte dos quais temos acompanhado de perto contribuindo com as propostas iniciais. É o caso do Parque Estadual da Cantareira e Parque Alberto Löfgren, na Zona Norte da capital paulista, e do Zoológico e Jardim Botânico de São Paulo, na Zona Sul, ambos realizados em parceria com a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), nos quais o objetivo foi aliar os aspectos ambientais aos sociais, proporcionando novas possibilidades de renda para a comunidade do entorno e a consolidação de pequenos negócios. Há ainda a concessão do Núcleo Caminhos do Mar, localizado no Parque Serra do Mar, que inclui 274 hectares de Mata Atlântica e monumentos históricos do início do século XX, compondo um patrimônio natural e histórico-cultural.

A respeito de preservação do patrimônio, há um projeto recém-finalizado na capital maranhense, fruto do financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do comprometimento da prefeitura de São Luís. Tal parceria obteve grandes ganhos sociais oriundos do engajamento da população, incluída desde as concepções iniciais sobre o que deveria ser feito. Revitalizamos o centro histórico a partir de três pontos do território: Praça da Saudade, Praça da Misericórdia e do Terminal Rodoviário da Avenida Vitorino Freire. Em um processo participativo, a população expressou sua visão e contribuiu com a coleta de informações e sugestões por meio da realização de oficinas. Equipes de assistentes sociais cadastraram empreendedores, que também participaram das escutas. Somente no entorno do Terminal Rodoviário, mais de 150 pequenos comerciantes foram diretamente beneficiados pelo projeto.

Na Praça da Misericórdia, a revitalização se mostrou tão bem-sucedida que motivou a requalificação dos imóveis vizinhos. Por iniciativa dos proprietários, eles receberam melhorias e pintura em consonância com a nova fase local, comprovando a tese de que as intervenções urbanas são uma poderosa ferramenta de transformação social. Em vários outros projetos temos visto como o ecoturismo, o fomento aos empreendedores locais e o fortalecimento de elos sociais podem ampliar as alternativas para comunidades penalizadas pela pandemia e apontar um futuro mais sustentável e equilibrado.

A arquitetura nunca foi tão demandada para exercer um papel articulador, colocando questões em perspectiva para conciliar preocupações sociais e ambientais, desenvolvimento econômico e valorização do patrimônio, qualidade de vida e vivência coletiva. É hora de exercermos esse saber e assim atingir todo o potencial de transformação que o mundo pós-covid nos coloca.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Connected Smart Cities 

Pedro Lira
Sócio-fundador da Natureza Urbana. Arquiteto e urbanista com mais de 15 anos de experiência no Brasil e exterior, com ampla experiência no planejamento e projetos de grande escala nos âmbitos público e privado.
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