CONSOLIDAÇÃO DO HOME OFFICE DEVE MUDAR DESENHO DAS CIDADES

Cada vez mais empresas adotam o home office esvaziando escritórios e áreas comerciais dos grandes centros, exigindo planejamento dos gestores públicos

Mesmo antes da pandemia, o modelo de trabalho remoto, ou home office, já tinha uma presença considerável no Brasil: em 2018, um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)* mostrou que 3,8 milhões de brasileiros trabalhavam de maneira remota. Alguns meses após a chegada da pandemia de coronavírus no Brasil, em outubro de 2020, 7,6 milhões de pessoas trabalhavam em home office, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid (Pnad Covid-19) mensal, iniciada em maio IBGE*.

O trabalho em casa foi estratégia adotada por 46% das empresas durante a pandemia, segundo a Pesquisa Gestão de Pessoas na Crise covid-19 elaborada pela Fundação Instituto de Administração (FIA)*. A Fundação coletou, em abril de 2020, dados de 139 pequenas, médias e grandes empresas que atuam em todo o Brasil. De acordo com o estudo, 41% dos funcionários das empresas foram colocados em regime de home office, quase todos os que teriam a possibilidade de trabalhar a distância, que somavam 46% do total dos quadros. No setor de comércio e serviços, 57,5% dos empregados passaram para o teletrabalho, nas pequenas empresas o percentual ficou em 52%.



Obviamente, o home office não será o único modelo existente de trabalho, no entanto é provável que, daqui para frente, número cada vez maior de empresas passe a oferecer um sistema mais flexível, mesclando dias remotos e dias no escritório. O crescimento dessa modalidade de trabalho deve mudar o desenho das cidades, principalmente de capitais como São Paulo, que possui áreas destinadas a prédios e centros comerciais.

Escritórios vagos

Em São Paulo, a taxa de disponibilidade de espaços em edifícios corporativos de alto padrão saltou 50% do primeiro para o último trimestre do ano passado. O total de imóveis sem inquilino, que era de 13,6% entre janeiro e março, fechou 2020 com 22,4%, segundo levantamento da JLL*, empresa especializada em imóveis corporativos, que prevê um agravamento do cenário para este ano.

Na capital paulista, além da adoção do home office, que deve permanecer, para 2021 estão previstos mais 208,2 mil m² de novos imóveis a serem entregues. O volume deve impactar a absorção e a taxa de vacância, que deve manter a tendência de aumento.

Revisão e adaptação

Esse cenário traz alguns desafios para os gestores públicos da cidade de São Paulo, será necessário se adaptar a essas mudanças, replanejar o desenho da cidade, oferecer melhor infraestrutura e criar novas centralidades na cidade, principalmente na periferia.

Ainda este ano, a gestão Bruno Covas (PSDB) planeja revisar o Plano Diretor, aprovado em 2014 no governo de Fernando Haddad (PT). Segundo informações da Prefeitura de São Paulo*, o Plano Diretor (Lei 16.050) de 2014, seria responsável pelo planejamento urbano da cidade até 2029. No entanto, em 2021, passará por uma revisão intermediária – a ser elaborada de forma participativa, com o objetivo de fazer ajustes diante da nova realidade. Ainda de acordo com a Prefeitura “Será, portanto, uma oportunidade para qualificar as condições de vida da população e reduzir as desigualdades existentes”.

Paulo Takito, Sócio-Diretor daUrban Systems afirma que a pandemia trouxe lições como flexibilidade das cidades a rápida adaptação as novas necessidades: “flexibilidade é um dos aprendizados que temos com a pandemia, isto significa que as pessoas, as empresas e as cidades precisam ter condições de se adaptar às mudanças que ocorreram nos últimos meses de forma acelerada e tendem a continuar a acontecer no futuro. Com isto, além da rápida adaptação ao home-office que vimos ocorrer no mundo todo, as cidades também precisam prever maleabilidade em suas regras para que rapidamente os usos da cidade sejam possíveis conforme a sociedade muda. Entre os usos é necessário prever centralidades equilibradas e empreendimentos multiusos, conversíveis entre residência, comércio, serviços, lazer, educação, cultura”.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o relator do atual Plano Diretor da cidade na Câmara, o urbanista e ex-vereador pelo PT Nabil Bonduki afirma que, um dos pontos necessários na revisão intermediária será a discussão da conversão de usos dos prédios. “O que vai mudar é a redução da área de escritórios da cidade. Temos hoje uma quantidade de escritórios muito grande, há uma vacância muito forte. Isso vai tornar necessário cada vez mais conversão de edifícios de escritório para residencial”, diz Bonduki.

O ex-vereador também afirma ao jornal que “uma legislação para o retrofit (prática de modernizar áreas de um prédio aproveitando sua estrutura) poderia contribuir no sentido de transformar eventuais imóveis corporativos em residenciais, já que a cidade tem muita necessidade de espaço habitacional.”

Fontes: G1, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, Pesquisa Gestão de Pessoas, JLL, Prefeitura de São Paulo, Folha de São Paulo

Com conteúdo da comunicação da Urban Systems 

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