MOBILIDADE URBANA EM SMART CITIES

Entrevista exclusiva com o diretor geral da Kido Dynamics no Brasil aborda como a implementação de novas tecnologias pode auxiliar na gestão da  mobilidade urbana 

A maneira como se entende a mobilidade urbana mudou muito com a chegada de novas tecnologias: cada vez mais o número de aplicativos voltados para a mobilidade aumentam, assim como novas maneiras de se realizar o mapeamento e gestão do transporte público. Com soluções inovadoras, a mobilidade inteligente passa a ser essencial para garantir o cotidiano das cidades e promover um futuro sem congestionamentos. 

Para discutir o tema da implementação da tecnologia na mobilidade urbana, o Connected Smart Cities realizou uma entrevista exclusiva com Luiz Eduardo Viotti, diretor geral da Kido Dynamics no Brasil. A empresa, que ficou em segundo lugar no Prêmio Connected Smart Cities ano passado, tem como objetivo a democratização da tecnologia de Big Data, promovendo melhores insights e tornando as cidades mais inteligentes e conectadas. Os seus serviços são baseados em big data e machine learning por meio de dados de telefonia celular, o que fornece informações sobre o comportamento da mobilidade das pessoas- possibilitando que as organizações possam utilizar essas informações nos seus processos de planejamento e operação.  

– Como a tecnologia está mudando a maneira que cidades organizam a mobilidade urbana atualmente? 

Luiz Eduardo Viotti: O Brasil tem aproximadamente 205 milhões de habitantes e, destes, 160 milhões vivem nas cidades, ou seja, o Brasil é predominantemente urbano. Percebemos nas nossas cidades um excesso de veículos e muitas pessoas se locomovendo por grandes distâncias nos mesmos horários todos os dias. O transporte público muitas vezes é ineficiente e o planejamento e a infraestrutura existente são insuficientes para garantir boas condições de transporte urbano. Acreditamos que a tecnologia é uma das ferramentas mais poderosas para estabelecermos um ambiente mais sustentável na mobilidade urbana. O monitoramento de fluxo em tempo real nas vias através de câmeras e sensores, sistemas de controle semafóricos e os próprios aplicativos de mobilidade que indicam rotas alternativas são exemplos de como a tecnologia pode favorecer a otimização do tráfego em uma cidade. É importante destacar, entretanto, que apenas a tecnologia em si não resolve todos os problemas de mobilidade de um lugar. Para isso é necessário aliar a tecnologia a um bom planejamento urbano, a uma adequação da infraestrutura e também a uma mudança de comportamento geral da população. 

– Qual o impacto que os aplicativos possuem na gestão urbana? 

Luiz Eduardo Viotti: Existem atualmente diversos aplicativos com diferentes impactos na gestão urbana. Falando de mobilidade podemos dar o exemplo dos aplicativos de transporte sob demanda, que se tornaram novas opções de mobilidade para as pessoas e que causaram grande impacto na demanda de transporte coletivo. Com respeito à micro-mobilidade, os aplicativos de compartilhamento de patinetes e bicicletas criaram novos padrões de locomoção, resolvendo o problema da “última milha” e servindo também como meio de transporte recreativo e turístico em grandes cidades. Existem ainda os aplicativos de orientação de rotas, que são amplamente utilizados pelo transporte individual motorizado, que ajudam os motoristas a encontrar rotas alternativas e evitar vias mais congestionadas. Consideramos que o impacto geral dos aplicativos na gestão da mobilidade urbana é positivo, mas que, por si só, também não resolve os nossos grandes problemas de mobilidade. É fundamental que tenhamos mais atenção ao planejamento urbano e que se promova uma mudança de mentalidade coletiva. A utilização de big data aliada às tecnologias atuais, como por exemplo, os celulares adiciona bastante valor ao entendimento e à capacidade de gerenciamento da mobilidade urbana. 

– Quais são os principais desafios que o Brasil enfrenta na implementação de novas tecnologias para auxiliar a gestão da mobilidade urbana?

Luiz Eduardo Viotti: Um dos principais desafios que percebemos é fazer com que os tomadores de decisão dentro dos municípios percebam a importância das novas tecnologias e que estejam dispostos a aprimorar a forma como se planeja a mobilidade urbana atualmente. O maior 

exemplo disso está na obtenção dos dados de mobilidade da população que servem para a elaboração das matrizes de origem-destino, o insumo fundamental para o planejamento de mobilidade de uma cidade ou região. Os métodos de levantamento de dados tradicionais envolvem pesquisas de campo caras e que levam meses para serem realizadas, obtendo amostras pouco representativas da população total. Por outro lado, a tecnologia fornecida pela Kido Dynamics, por exemplo, permite a geração de matrizes de origem-destino em poucos dias, com amostras bastante representativas da população total e com custos ínfimos por pessoa pesquisada. Outros desafios envolvem questões burocráticas e até mesmo a capacidade de penetração da mentalidade inovadora em alguns municípios do país. É importante que o setor público conheça as novas tecnologias que estão à disposição para que possa implementar uma melhor gestão da mobilidade urbana. 

– De acordo com o Ranking Connected Smart Cities, São Paulo é a cidade que mais se destaca no eixo de mobilidade urbana no Brasil. Como uma grande metrópole deve utilizar a tecnologia ao seu favor, com o objetivo de integrar os serviços de transporte e ter um futuro sem congestionamentos? 

Luiz Eduardo Viotti: Acreditamos que em primeiro lugar é importante que se faça um bom diagnóstico da mobilidade urbana em toda a região metropolitana de São Paulo. Como se sabe, a mobilidade é bastante dinâmica e sofre grandes variações de ano para ano. Por isso é fundamental que se tenha uma base de dados com alta frequência de atualização e que seja capaz de representar com bastante assertividade os movimentos populacionais que ocorrem na cidade. A integração de dados gerados pelas empresas operadoras de transporte público e pelos aplicativos de mobilidade com as matrizes de origem-destino obtidas através de dados oriundos das redes de telefonia móvel permite ao tomador de decisão descobrir novas formas de balancear a relação entre a oferta e a demanda de transporte com as infraestruturas existentes na cidade. Porém, mais uma vez ressaltamos que isso também passa pela mudança de comportamento geral da população, seguindo ideais mais coletivos como o próprio compartilhamento. 

– Houve expansão da iniciativa após o prêmio Connected Smart Cities? Como que está a implementação dos serviços detalhadamente hoje? 

Luiz Eduardo Viotti: A Kido Dynamics tem atuado fortemente no setor de Smart Cities e Smart Mobility, fornecendo dados de mobilidade da população para empresas de consultoria em transportes e mobilidade urbana que atendem o cliente final, que normalmente é o setor público municipal. Desenvolvemos também projetos para empresas operadoras de transporte coletivo urbano que visam reestruturar seu sistema de transporte, otimizando itinerários e reajustando as relações de demanda e oferta de transporte público em uma cidade. Também atuamos no fornecimento de dados de mobilidade para o apoio das empresas que se lançam nos processos de concessão de rodovias, mas que não possuem informação sobre os fluxos de pessoas nos trechos rodoviários em que estão se aplicando. Já estamos presente também nos setores de turismo, varejo e mercado imobiliário em que a proposta de valor da Kido Dynamics reconhecidamente oferece um grande diferencial em relação aos métodos tradicionais de pesquisa e análise de tráfego de potenciais consumidores. 

Beatriz Faria
Especialista em Conteúdo da Necta - Conexões com Propósito

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