spot_img
HomeEIXOS TEMÁTICOSEnergiaInvestir em PPPs é apostar no Brasil que funciona

Investir em PPPs é apostar no Brasil que funciona

No primeiro encontro em Lisboa do ciclo “Conversas” da Camara de comércio e indústria luso brasileira, João Marques da Cruz, consultor internacional e ex-presidente da EDP Brasil, diz que são as parcerias públicas-privadas que garantem previsibilidade e sustentam investimentos de longo prazo

Aquela frase que, mesmo dita sem ênfase, desmonta metade do ruído que hoje envolve o Brasil: “continua a ser uma terra de oportunidades”. João Marques da Cruz não a pronuncia como slogan. Di-la como quem já atravessou governos, moedas, ciclos de euforia e de retração — e ficou.

A sua leitura é simples e, por isso mesmo, desconfortável para quem prefere narrativas fáceis: o Brasil muda governos, mas mantém políticas estruturantes. E essa continuidade tem um nome pouco sedutor, porém decisivo — parcerias público-privadas. Para ele, são o eixo invisível que sustenta a presença de empresas portuguesas no país há décadas. Rodovias, aeroportos, energia: tudo passa, de uma forma ou de outra, por esse modelo. E passou no passado. Continua a passar agora.

Quando lembra que a EDP entrou no Brasil ainda no tempo de Itamar Franco, não está a fazer história empresarial. Está a sublinhar um dado essencial: atravessaram-se crises cambiais, planos económicos, alternâncias políticas — e a política manteve-se. Não é pouco num país continental.

Mas talvez o ponto mais lúcido da sua intervenção seja este: não há um Brasil, há muitos Brasis. Dito assim, sem metáfora. Há estados que funcionam como motores regionais — Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso — economias com lógica própria, dinâmicas próprias, decisões próprias. Pensar o Brasil como bloco homogéneo é o primeiro erro estratégico de quem investe.

Daí a advertência que deixa, quase em tom de conselho privado: escolher parceiros locais não é detalhe, é condição. Locais de verdade — que conheçam o território, o poder político regional, os equilíbrios institucionais. Sem isso, não há projeto que aguente.

No setor energético, João Marques da Cruz é igualmente direto. O Brasil tem energia barata — um ativo raro num mundo em tensão. Mas esse trunfo traz um paradoxo: a explosão das renováveis pressiona redes de transmissão, exige investimento pesado, cria riscos técnicos reais. Não há romantismo verde aqui. Há engenharia, sistema, custo.

Quando fala dos data centers, desmonta outra expectativa inflacionada. Investiu-se como se fossem surgir em cada esquina. Não surgiram. Podem surgir — mas não no ritmo que se imaginou. Planeamento feito sobre desejo costuma cobrar juros altos.

E no comércio bilateral, fecha o raciocínio com números que não permitem ilusões: o Brasil representa cerca de 1,8% das exportações portuguesas. Não é essencial. Mas fora da União Europeia, está sempre entre os três principais destinos. O suficiente para não ser descartado. E demasiado relevante para ser tratado com improviso.

No fundo, o que João Marques da Cruz faz é algo raro: retira o Brasil da caricatura. Nem promessa infinita, nem problema insolúvel. Um país complexo, desigual, exigente — mas estruturalmente consistente em certos pilares. Quem entende isso, fica. Quem não entende, sai dizendo que “o Brasil mudou”.

Talvez nunca tenha mudado tanto assim. Talvez apenas não tolere amadores.

Fonte: CNN Brasil

Artigos relacionados
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img

Mais vistos

- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img

Mais vistos