Muitas cidades acreditam que não ter um ambiente de inovação é apenas uma escolha neutra. Não é.
Em territórios que já atingiram um certo nível de maturidade econômica e institucional, não decidir estruturar um ambiente de inovação também é uma decisão estratégica, e ela cobra seu preço ao longo do tempo. Não de forma ruidosa, nem imediata. Mas de maneira contínua, silenciosa e cumulativa.
Isso não significa que ambientes de inovação não possam existir em ecossistemas ainda pouco maduros. Eles podem, e muitas vezes surgem por iniciativa privada, como coworkings ou hubs, sinalizando crença no potencial do território e disposição para ativar conexões locais. O ponto central aqui é outro: para governos e atores institucionais, ambientes de inovação não deveriam ser prioridade de investimento quando o ecossistema ainda não existe.
Este texto não é uma defesa automática da criação de ambientes de inovação. Ele é um convite à reflexão estratégica: quando o território amadurece, a ausência de um ambiente deixa de ser prudência e passa a ser um gargalo.
Nem toda cidade deve ter um ambiente de inovação
Ambientes de inovação não são ponto de partida. Eles não criam ecossistemas do nada. Não substituem articulação, nem resolvem sozinhos a ausência de cultura colaborativa, de governança ou de agenda comum.
Em cidades onde ainda não existe um ecossistema minimamente conectado, atores que se reconhecem e interagem, uma agenda de desenvolvimento econômico orientada à inovação, o primeiro trabalho é outro. É estruturar o ecossistema: promover conexões, alinhar expectativas, construir governança básica e estimular uma cultura de cooperação. É desse processo que, no tempo certo, emerge a necessidade real de um ambiente de inovação, não como imposição externa, mas como demanda do próprio território.
Um ambiente implantado sem esse lastro tende a se comportar como um hardware sem software: a estrutura existe, mas não gera valor. Funciona, ocupa espaço, consome energia, mas não entrega impacto econômico relevante.
Quando o ecossistema amadurece, o ambiente deixa de ser opcional
Há, porém, um segundo cenário. E é sobre ele que este artigo se debruça.
Em cidades onde: empresas já inovam, universidades produzem conhecimento relevante, iniciativas surgem com alguma frequência, atores começam a se conectar, ainda que de forma informal, a inovação passa a acontecer apesar da ausência de estrutura. Ela emerge de forma dispersa, pontual e fortemente dependente de pessoas específicas.
É nesse momento que o ambiente de inovação deixa de ser um “projeto interessante” e passa a ser uma necessidade funcional do território. Não para “inovar mais”, mas para organizar, sustentar e transformar inovação em desenvolvimento econômico.
O que acontece quando um território maduro não estrutura seu ambiente
As consequências da ausência de um ambiente de inovação em territórios maduros raramente aparecem em relatórios de curto prazo. Elas se manifestam na dinâmica do ambiente de negócios, nas decisões de investimento e na trajetória dos talentos.
- Talentos, empreendedores e negócios passam a sair
Empreendedores inovadores buscam mais do que boas ideias. Buscam apoio, conexão, densidade e perspectiva de crescimento.
Quando a cidade não oferece um ambiente estruturado:
- startups nascem, mas não permanecem,
- talentos se formam, mas migram,
- empresas inovadoras buscam outros territórios para escalar.
O resultado é conhecido: a cidade passa a formar, mas não reter. Consome inovação produzida fora, enquanto perde a chance de diversificar sua própria base econômica.
2. A inovação se torna frágil, dispersa e dependente de pessoas
Sem um ambiente de inovação, a inovação até acontece, mas de forma frágil.
Ela depende:
- de lideranças específicas,
- de servidores engajados,
- de projetos pontuais,
- de ciclos políticos.
Não há memória institucional. Não há aprendizado acumulado. Não há escala. Mudanças de gestão desmontam avanços, e cada nova iniciativa recomeça do zero.
Quando a inovação depende de pessoas, e não de estruturas, ela não se sustenta no tempo.
3. O território deixa de transformar inovação em desenvolvimento econômico
Talvez a consequência mais grave seja esta: a cidade perde a capacidade de capturar valor econômico da inovação.
Mesmo quando boas ideias surgem, o ciclo econômico (investimentos, empregos qualificados, empresas de maior valor agregado) se consolida fora do território. O município assiste à inovação acontecer, mas não colhe seus frutos.
Isso torna a economia local:
- menos diversificada,
- mais vulnerável a crises,
- menos competitiva regionalmente.
Não se trata de falta de criatividade. Trata-se de ausência de instrumentos adequados no momento certo.
Escala importa: nem todo ambiente gera o mesmo impacto
Ambientes de inovação podem, e devem, assumir diferentes escalas, conforme a maturidade do território.
Estruturas mais leves, como coworkings e hubs, cumprem um papel importante:
- sinalizam movimento,
- organizam iniciativas iniciais,
- fortalecem conexões locais.
Já centros de inovação e parques tecnológicos, quando conectados a um ecossistema maduro e bem governado, passam a gerar impactos econômicos mais estruturantes: atração de empresas, empregos qualificados, diversificação produtiva e aumento da competitividade regional.
O erro não está em começar pequeno. O erro está em não evoluir quando o território já pede outra escala.
O padrão que se repete nos territórios
Quando observamos diferentes cidades brasileiras, o padrão se repete com consistência: territórios que estruturaram ambientes de inovação no momento certo conseguiram transformar iniciativas dispersas em estratégias econômicas. Aqueles que não o fizeram passaram a perder densidade inovadora ao longo do tempo.
Um exemplo emblemático é o que ocorreu em Santa Catarina. A articulação sistêmica promovida pela Rede Catarinense de Centros de Inovação permitiu interiorizar a agenda da inovação, conectar ecossistemas locais e criar ambientes capazes de sustentar novos negócios em diferentes regiões do estado. O impacto não foi imediato, nem uniforme, mas foi estrutural. E alterou, de forma profunda, a matriz econômica catarinense.
Não foi o prédio que fez a diferença. Foi a capacidade de organizar a inovação que já existia.
Ambiente de inovação não é prédio, é instrumento de organização econômica
Reduzir ambientes de inovação a infraestrutura física é um erro conceitual. Ambientes são, antes de tudo, instrumentos de política de desenvolvimento econômico. Eles organizam fluxos, conectam atores, reduzem fricções e criam condições para que a inovação gere impacto real.
Ambientes bem estruturados:
- não substituem o ecossistema,
- não engessam a inovação,
- não seguem um modelo único.
Eles funcionam como pontes entre sistema, ecossistema e mercado. E, quando bem governados, tornam-se ativos estratégicos do território.
A pergunta certa para os territórios maduros
A pergunta que cidades maduras precisam se fazer não é:
- “Temos recurso para isso?”
- “Temos um prédio disponível?”
- “Esse é o momento político adequado?”
A pergunta correta é outra:
Estamos prontos para organizar a inovação que já acontece aqui — ou vamos continuar perdendo competitividade para outros territórios?
Responder a essa pergunta exige maturidade, método e visão de longo prazo.
Na Exxas, temos apoiado cidades, ecossistemas e ambientes de inovação exatamente nesse ponto de inflexão: quando o território percebe que a inovação já existe, mas ainda não está estruturada. Nosso papel tem sido ajudar a escolher o instrumento certo no momento certo, seja fortalecer o ecossistema, estruturar ambientes mais leves ou avançar para centros e parques quando a maturidade permite.
Porque, no fim, não ter um ambiente de inovação não significa ficar parado.
Significa, muitas vezes, andar para trás sem perceber.

Co-fundador e CEO da Exxas Smart City Bureau e da Habitat 4.0 e mentor da Locomotiva Aceleradora. Atuou como Secretário de Desenvolvimento Econômico, Tecnologia e Inovação de Tubarão/SC 2017/2023 e Vice Presidente de Desenvolvimento Regional do Fórum Inova Cidades entre 2021/2023.




