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Sul Global, e o que as grandes cidades asiáticas podem nos ensinar.

Caio Esteves
Caio Esteves
Fundador da N/Lugares Futuros. Especialista em place branding, placemaking e futuro das cidades. Autor, professor e keynote speaker, presente nas principais redes e institutos internacionais que discutem e promovem lugares e futuros.

Como cidades asiáticas estão redefinindo os caminhos do urbanismo contemporâneo

Desde a faculdade de arquitetura, ainda no século passado, e até os dias de hoje, fui bombardeado por referências europeias. Projetos de edifícios, espaços públicos, arte, design, tudo parecia vir de um mesmo lugar, do hemisfério norte.

Durante décadas, não só fui influenciado por essa matriz como ajudei a transmiti-la. Lembro da minha empolgação ao trabalhar pela primeira vez com um renomado escritório dinamarquês e a ansiedade de aprender absolutamente tudo que pudesse.

A vida me levou, muitos anos depois disso, a uma sociedade com uma respeitadíssima consultoria internacional, onde fique por cinco anos. A convivência com diferentes culturas, não só na própria sociedade, mas também em projetos internacionais, foi me mostrando que, cada vez mais, as soluções para grande parte dos problemas urbanos estava, não mais no conhecimento depositado e já um tanto desgastado do pensamento eurocêntrico, mas principalmente no frescor e na capacidade de inovação do que hoje chamamos de Sul Global. Foi essa espécie de epifania que me fez mudar radicalmente, mais uma vez, os rumos da minha empreitada e, não só fundar junto com a Mariane Broc, uma consultoria 100% brasileira e que leva essa perspectiva para o resto do mundo, como recomeçar e reconstruir todo um repertório de soluções e iniciativas, em uma abordagem e perspectiva a partir, e não restrita, do sul.

Nesse processo de reconstrução, voltei recentemente de uma viagem de quase um mês na Ásia, filmando uma série documental chamada URBANIDADES, com lançamento previsto ainda para esse primeiro semestre, para entender quais são as forças transformadoras das cidades do Sul Global, e como elas podem nos dar pistas para a solução de problemas comuns. Shanghai, Chongqing, Shenzhen, Hong Kong e Bangkok, foram nosso roteiro e nosso objeto de estudo. Armados de câmeras compactas, nos misturamos a multidão, sempre do ponto de vista do pedestre. Voamos e percorremos de trem, ônibus, metrô, tram, barca, tuk tuk, a pé, e todo o tipo de modal imaginável o suficiente para quase dar uma volta ao mundo. 

Compartilho aqui com vocês, em primeira mão, alguns spoilers dessa aventura.

1. A água não pode ser inimiga das cidades.

Durante décadas, muitas cidades trataram a água como problema técnico a ser contido, rios são enterrados, piscinões são criados, sempre pensando em como conter esse elemento que insiste em “invadir” o ambiente urbano.  Em Bangkok, projetos como o Benjakitti Forest Park mostram uma virada conceitual importante. Ali, água, vegetação e paisagem não aparecem apenas como decoração ou contemplação, funcionam como infraestrutura climática ativa dentro de uma megacidade tropical extremamente vulnerável. Lagos e vegetação densa regulam o microclima, absorvem excesso de água e ajudam a mitigar enchentes.  As boas e velhas Soluções Baseadas na Natureza entrando em ação.

O aprendizado é profundo: cidades antifrágeis não são as que tentam em vão eliminar o risco climático, são as que aprendem a viver com ele. Nesse tipo de projeto, o parque deixa de ser apenas um oásis verde (que no calor intenso de Bangkok já seria algo extremamente positivo) e passa a funcionar como uma espécie de sistema regulador urbano, capaz de mitigar os danos do próprio processo de urbanização e ajudar a reorganizar a relação entre paisagem, água e vida cotidiana. 

2. Densidade só funciona quando o movimento organiza a vida urbana.

Hong Kong revela uma das experiências mais radicais de densidade do planeta. Mas o que realmente sustenta essa condição extrema não são só os edifícios, mas a infraestrutura de movimento. Sistemas como o Central–Mid-Levels Escalator criam um fluxo contínuo entre bairros, comércio e moradia, transformando o deslocamento cotidiano em parte da experiência urbana.  

Esse caso mostra algo essencial para o futuro das cidades, se a densidade exagerada, por si só, já gera fricção, sem mobilidade eficiente a vida seria impossível. Um sistema de transporte integrado e diverso contribui para a criação de um ecossistema urbano mais eficiente. Mas nem só de mobilidade se vive na densidade, coexistência talvez seja a palavra-chave aqui. 

Vale lembrar que a densidade, por natureza, não é negativa nem positiva. Tudo depende de como ela criada e gerenciada, podendo criar oportunidades e qualidade urbana ou ambientes urbanos de grande fricção, quando não insalubres e até insólitos.

Quanto mais gente, menor espaço privado, quanto menor espaço privado, maior a necessidade de qualificar a vida coletiva. Coexistência e convivência são elementos essenciais no enfrentamento a densidade nas cidades do futuro. 

3. Regenerar não é necessariamente demolir, é também readequar o que já existe.

Nas cidades contemporâneas, uma das forças mais potentes de transformação é a regeneração. Vários são os caminhos possíveis para ela. Um desses caminhos é através da economia criativa. Não são poucos os exemplos onde o ecossistema criativo foi responsável pelo renascimento de lugares abandonados ou decadentes. Em Shanghai, temos um ótimo exemplo dessa capacidade de regeneração, o distrito criativo M50, para ficar em apenas um exemplo, onde antigas estruturas industriais podem ganhar novos significados quando artistas, galerias e pequenos negócios passam a ocupar espaços abandonados.  

Esse processo revela um paradigma importante na forma de pensar a cidade: o valor urbano não está apenas na construção de novos edifícios, mas na capacidade de readequar o que já existe, ativando novas economias, novos usos e novas presenças.

Talvez por coincidência o M50 fique a poucos passos do icônico 1000Trees, o projeto cartão-postal de Shanghai, que pode ser visto de diversas partes de seus galpões causando uma estranheza e uma certa dissonância cognitiva dada a diferença absurda, não da natureza em si, mas do resultado e da experiência entre os dois lugares.

4. O calor está se tornando uma nova infraestrutura urbana

Se no passado o grande desafio das cidades era o transporte ou a habitação, no século XXI uma nova variável começa a reorganizar o urbanismo: o calor. Em cidades tropicais como Bangkok, o espaço público precisa lidar diariamente com temperaturas elevadas, umidade extrema e ilhas de calor cada vez mais intensas. 

Isso impacta, ou pelos menos deveria impactar, profundamente o desenho urbano. Sombreamento, ventilação, água, vegetação e materiais de construção passam a funcionar como infraestrutura climática, determinando como as pessoas caminham, permanecem e convivem na cidade.

Aqui vale ressaltar um comportamento peculiar. Se por um lado, florestas urbanas como o Benjakitti foram implantadas, por outro, toda e qualquer experiência possível na cidade tailandesa foi emulada em algum dos inúmeros complexos de shopping centers presentes na cidade. De mercados flutuantes as já batidas cachoeiras internas, de restaurantes de rua a massagem, tudo pode ser feito no conforto do ar-condicionado. Não que, confesso, não tenha apelado a essa solução inúmeras vezes frente ao calor absurdo da Tailândia, mas será que esse é o melhor caminho? Seriam essas soluções complementares ou conflitantes?

5. A tecnologia, não poderíamos deixar de falar dela

Pensar em cidades do futuro recai, pelo menos no imaginário popular, no uso massivo de tecnologia. Estivemos em Shenzhen, supostamente a cidade mais tecnológica da China. Se por um lado o tráfego de drones de delivery cria um som ambiente sui generis, uma identidade sonora um tanto bizarra devido ao zumbido incessante das hélices, por outro, o sistema de transporte funciona com fichas plásticas, isso mesmo, iguais a que usava na minha cidade natal nos anos 80 e 90 do século passado para andar de ônibus.

Se não bastasse esse tipo de diferença, muitas das iniciativas tão comentadas mundo afora são, na verdade, protótipos pontuais, que não cobrem a cidade inteira e, portanto, não impactam profundamente na vida das pessoas. Entre esses exemplos estão os taxis autônomos, tão celebrados, mas difíceis de serem vistos, e ainda mais, de serem usados, dada a complexidade de seu uso por visitantes sem celulares chineses.

Sim, a tecnologia chinesa é incrível, sim ela pode impactar profundamente as cidades no futuro, da mesma forma que já impacta as cidades chinesas em diferentes proporções. Mas as questões permanecem as mesmas, quando ela deixará de ser espetáculo e passará a ser infraestrutura? A tecnologia por si só será capaz de transformar as cidades?

Conclusão

Ao atravessar cidades tão diferentes fica claro que o futuro urbano não será definido por uma única solução ou modelo universal. Ainda que evidentemente possamos aprender com a similaridade dos desafios comuns ao sul global, cada lugar responde às suas próprias pressões, água, densidade, movimento, calor… a partir de suas condições históricas, culturais, ambientais, sociais, políticas e econômicas. 

O que emerge dessa, ou de qualquer outra observação, não se resume a um manual de boas práticas, mas a algo muito mais interessante: a compreensão de um conjunto mínimo de forças que, combinadas de maneiras distintas, passam a moldar as cidades contemporâneas.

Talvez o maior aprendizado seja justamente a compreensão de que o futuro das cidades não será construído apenas por planos ou tecnologias (digitais), mas pela capacidade de ler essas forças e trabalhar com elas, transformando limites físicos, climáticos e sociais em novas possibilidades urbanas. É nesse lugar, entre adaptação, imaginação e inteligência coletiva, que começam a surgir os lugares verdadeiramente à prova de futuro.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

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