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Entre Padrões e Fluxos: O limite invisível das cidades inteligentes passa pela governança da água

Marcelo Nery
Marcelo Nery
Profissional com mais de 15 anos de experiência em coordenação de projetos, análises quali-quantitativas, desenvolvimento de pesquisas e disseminação de conhecimentos. Sociólogo (USP) e Tecnólogo (INPE). Coordenador de Transferência de Tecnologia e "Head" do Centro Colaborador da PAHO/OMS (BRA-61) no Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP - CEPID-FAPESP. Pesquisador no Programa de Fellowship da ABES, atuando no Think Tank "Centro de Inteligência, Políticas Públicas e Inovação" em parceria com o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

Da origem das cidades às agendas de inovação, a água permanece como eixo estruturante da vida urbana, revelando que não há inteligência nem resiliência sem gestão equitativa

Nenhuma cidade surge, se expande ou se consolida sem dispor de uma base hídrica capaz de assegurar a sobrevivência de sua população e a reprodução de suas dinâmicas urbanas. Mais do que um recurso destinado ao abastecimento humano, a água constitui elemento estruturante do espaço urbano e fundamento material da vida coletiva.

Historicamente, as cidades se estabeleceram junto aos rios. A proximidade da água viabilizou a produção econômica, o transporte e a integração territorial, ao mesmo tempo em que forneceu energia e sustentou a organização cotidiana da vida social. Com a consolidação das metrópoles modernas, essa centralidade não diminuiu; ao contrário, foi ampliada e reorganizada por meio de grandes obras e redes: a água passou a sustentar processos industriais, cadeias produtivas e estruturas cada vez mais complexas de infraestrutura urbana.

No século XX, a expansão das redes de abastecimento e esgotamento sanitário foi celebrada como conquista civilizatória e marco da modernidade. A universalização do saneamento converteu-se em indicador de saúde pública e progresso urbano. Contudo, esse indicador revela sua dimensão política; já que, longe de se restringir à provisão de um recurso essencial, a água tornou-se instrumento de gestão territorial e marcador persistente das desigualdades sociais.

A África do Sul oferece um exemplo emblemático. Durante o regime do apartheid, o abastecimento foi sistematicamente privilegiado nas áreas destinadas aos grupos social e politicamente dominantes, enquanto territórios ocupados por populações marginalizadas enfrentavam precariedade e escassez. Mesmo após o reconhecimento constitucional do direito à água, a herança espacial dessa ordenação desigual permanece visível. A crise hídrica de 2018, na Cidade do Cabo, evidenciou como, em contextos de escassez, hierarquias sociais preexistentes tendem a se aprofundar: bairros mais favorecidos mobilizam recursos privados de adaptação, enquanto parcelas mais vulneráveis da população permanecem dependentes de serviços públicos fragilizados — cenário previsível, embora profundamente lamentável.

Dinâmica semelhante pode ser observada na capital paulista. Como demonstrado em estudo sobre padrões urbano-demográficos, “mesmo com a quase universalização dos serviços de saneamento básico (…), as condições sanitárias da cidade de São Paulo ainda constituem um importante elemento de desigualdade intraurbana” (Nery et al., 2019, p. 30) . A ampla disseminação desses serviços, portanto, não elimina por si só as assimetrias inscritas no território; ao contrário, pode coexistir com processos históricos de diferenciação socioespacial, expressos nas condições de acesso e na qualidade de sua distribuição.

No estudo citado, o acesso à água potável — assim como à rede de esgotamento e à coleta de lixo — não aparece como o principal marcador das diferenças locais. Variáveis associadas à expansão urbana e às características socioeconômicas do responsável pelo domicílio, por exemplo, apresentam maior peso na distinção entre localidades. Ainda assim, esses três serviços urbanos essenciais integram a estrutura que diferencia territórios. Mesmo quando não figuram como os fatores mais evidentes, estruturam oportunidades, produzem vulnerabilidades e condicionam trajetórias de desenvolvimento.

A importância da água ultrapassa a dimensão estritamente sanitária. Ela integra um sistema socioambiental que articula “elementos geoecológicos à ordem social” (Idem, p. 13), sintetizando a forma como características ambientais — como áreas de risco geológico, mananciais e zonas periurbanas — se entrelaçam com processos de urbanização.

As áreas de proteção de mananciais exemplificam essa tensão. Parte significativa do território paulistano localiza-se em zonas estratégicas para o abastecimento. A expansão urbana sobre esses espaços evidencia o conflito entre o direito à moradia e a preservação ambiental, que, em determinadas situações, assume contornos ainda mais preocupantes pela atuação de organizações criminosas. Assim, a água emerge como desafio permanente para as políticas públicas e para a gestão do território.

Essa lógica também se manifesta na dinâmica de alertas da Defesa Civil. Enchentes e deslizamentos atingem de forma desproporcional áreas onde a infraestrutura é mais frágil e a ocupação urbana ocorreu à margem das diretrizes formais de planejamento. A vulnerabilidade, nesse caso, não decorre exclusivamente de fatores naturais, mas da articulação entre ambiente e sociedade.

A mudança climática intensifica esse cenário. Eventos extremos de escassez hídrica e de precipitação desafiam os sistemas de abastecimento e a gestão de riscos de desastres. Cidades dotadas de planejamento integrado e monitoramento constante tendem a enfrentar melhor as crises hídricas, enquanto aquelas marcadas por desigualdade e fragmentação territorial veem ampliadas suas vulnerabilidades. Nesse sentido, a governança da água converte-se em indicador privilegiado da resiliência urbana.

Esses desafios produzem impactos que ultrapassam a dimensão ambiental. Interrupções prolongadas comprometem cadeias produtivas e afetam a vitalidade econômica da cidade. Eventos pluviais de maior magnitude também reconfiguram a experiência urbana e alteram a relação dos cidadãos com o espaço que habitam. Em ambos os casos, a canalização de cursos d’água e a impermeabilização do solo têm buscado domesticar a natureza em nome do progresso urbano. Contudo, enchentes recorrentes lembram que a água não desaparece sob o concreto nem se submete integralmente ao planejamento urbano, impondo seus próprios limites.

O controle técnico sobre a água assume nova dimensão quando consideramos as cidades inteligentes. No campo hídrico, apresenta-se a promessa de eficiência por meio de sensores, monitoramento em tempo real e uso ampliado de inteligência artificial. Entretanto, a incorporação de tecnologia não garante, por si só, resiliência. Episódios recentes de enfrentamento de eventos climáticos extremos mostram que falhas de comunicação, gargalos institucionais e problemas de interoperabilidade podem comprometer respostas emergenciais. Sua eficácia depende de coordenação interinstitucional, comunicação integrada, clareza nos fluxos de decisão e preparação prévia. Sistemas de alerta, imagens de satélite, drones e modelos digitais são ferramentas fundamentais, mas só produzem resultados quando inseridos em redes de cooperação. Não há cidade inteligente onde a água não seja governada com equidade.

Além disso, uma cidade pode ser digital e ainda reproduzir desigualdades no acesso à água, sendo, portanto, pouco “smart”. A verdadeira inteligência urbana — conectada, eficiente e sustentável — exige integração entre técnica, planejamento e inclusão. Sistemas sofisticados de monitoramento precisam dialogar com a redução de vulnerabilidades que se concentram em territórios e grupos socialmente mais expostos.

São Paulo oferece um exemplo concreto dessa exigência de integração entre técnica, planejamento e inclusão. Nos territórios onde dimensões habitacionais, ambientais, sanitárias, de mobilidade e de segurança se entrelaçam, os recursos hídricos continuam a revelar desigualdades persistentes. A exposição ao risco e a fragilidade ambiental diferenciam profundamente esses territórios dos bairros consolidados. Assim, ainda hoje, a água permanece como elemento ativo na (re)produção da estrutura social.

Retomando o caso sul-africano, observa-se como a água pode sedimentar hierarquias históricas, enquanto o caso paulistano demonstra que ela continua estruturando desigualdades e vulnerabilidades urbanas. Essas constatações colocam em questão leituras do projeto das cidades inteligentes que supõem que a integração tecnológica possa operar de forma autossuficiente na produção de resiliência urbana.

Em última instância, a água foi, é e seguirá sendo condição material da cidadania. Onde flui de forma segura e equitativa, a cidade pode prosperar de maneira inclusiva; onde escasseia ou se distribui de forma desigual, suas fissuras tornam-se visíveis. Pensar a água é pensar a cidade — não apenas como espaço físico, mas como sistema complexo em que ambiente e sociedade são indissociáveis. A verdadeira inteligência urbana será aquela capaz de reconhecer que a água, mais do que recurso, é fundamento de equidade e sustentabilidade. Se a gestão hídrica permanece frágil ou desigual, não se trata de uma falha setorial, mas de um limite do projeto que se pretende inteligente.

¹A crise hídrica de 2018 na Cidade do Cabo, na África do Sul, foi provocada por uma severa seca nos três anos anteriores, que levou os reservatórios da cidade a níveis críticos. Diante da possibilidade do chamado “Day Zero” — quando o abastecimento público poderia ser interrompido — o governo impôs rígidas restrições de consumo. A crise foi evitada com a redução drástica do uso de água e o retorno das chuvas, mas evidenciou fragilidades no planejamento hídrico e profundas desigualdades socioespaciais no acesso aos recursos públicos essenciais e na capacidade de adaptação.

²NERY, Marcelo Batista; SOUZA, Altay Alves Lino de; ADORNO, Sergio. Os padrões urbano-demográficos da capital paulista. Estudos Avançados, São Paulo, v. 33, n. 97, p. 5–36, 2019. DOI: https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3397.002.

 

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