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Governo Inteligente: da digitalização de serviços à governança orientada por IA

Atilio Rulli
Atilio Rulli
Vice-Presidente de Relações Públicas da Huawei na América Latina e Caribe, com contribuição significativa na construção de parcerias que alavancam a transformação digital no Brasil. O executivo já atuou como gestor de Rede e Data Center da Prodam – SP, passando por multinacionais como Cabletron, Enterasys e CISCO, onde foi responsável pela área de Diretorias Regionais de Vendas.

Da digitalização à inteligência integrada redefine a gestão urbana ao conectar dados, infraestrutura e conectividade inclusiva

Nas últimas décadas, o esforço das administrações públicas esteve concentrado na digitalização de processos. Eliminamos papel, informatizamos fluxos, automatizamos rotinas e criamos portais de serviços. Esse ciclo, conhecido como e-Government (e-Gov), cumpriu um papel essencial na modernização do Estado. Contudo, o cenário que se consolida nos próximos anos aponta para uma transformação estrutural mais profunda, que vai além da simples informatização.

Estamos entrando na era da inteligência incorporada às infraestruturas públicas. Nesse novo paradigma, a inteligência artificial deixa de ser apenas uma camada de apoio, um recurso analítico ou uma interface conversacional, para ocupar o núcleo dos sistemas governamentais. Ela passa a operar diretamente sobre dados, redes, plataformas e sensores, apoiando decisões em tempo real nas mais diversas frentes da gestão pública.

O Smart Government não é apenas uma evolução tecnológica. Trata-se, sobretudo, de um novo modelo de governança orientado por dados, capaz de ampliar a inclusão digital, antecipar riscos, otimizar recursos públicos e gerar bem-estar social de forma concreta e mensurável. 

Nas próximas linhas, exploramos os rumos dessa transformação a partir dos elementos que caracterizam um  governo inteligente, como integração de dados e conectividade inclusiva, e de exemplos de como as cidades se beneficiam com essas tecnologias.

Nuvem governamental e soberania de dados

O primeiro fator dessa transformação é a integração das bases de dados públicas, hoje ainda fragmentadas entre secretarias, autarquias, órgãos reguladores e empresas estatais. Sem integração, não há inteligência efetiva, nem coordenação institucional capaz de sustentar políticas públicas mais eficientes e coerentes.

É nesse contexto que a nuvem governamental se consolida como infraestrutura estratégica. Mais do que hospedar sistemas, ela se torna o alicerce para a padronização de dados, para a interoperabilidade entre órgãos e para a construção de modelos analíticos e preditivos que oferecem aos gestores uma visão sistêmica do funcionamento dos serviços públicos. 

Ao mesmo tempo, o tema da soberania de dados ganha centralidade. Governos precisam assegurar que informações sensíveis de cidadãos, infraestruturas críticas e serviços essenciais estejam protegidos, sob governança local e em conformidade com legislações nacionais, fortalecendo a confiança da sociedade no uso intensivo das tecnologias digitais.

Um exemplo dessa abordagem é o One City One Network em cidades como Xangai, na China. A iniciativa está associada à estratégia municipal de gestão integrada para atender às necessidades de 26 milhões de habitantes. Esse modelo sustenta, por exemplo, a chamada Citizen Cloud, plataforma oficial que reúne mais de 1.000 serviços utilizados diariamente pela população, além de sistemas de monitoramento e centros de comando interligados. 

Ao consolidar dados de diferentes áreas em uma única arquitetura de rede e informação, a cidade amplia sua capacidade de antecipar riscos, coordenar respostas entre órgãos públicos e atuar de forma integrada diante dos desafios urbanos, como eventos climáticos extremos e falhas de serviços essenciais. O que antes dependia de comunicação manual entre departamentos passa a ser orquestrado por plataformas de inteligência capazes de analisar padrões, antecipar ocorrências e acionar fluxos de resposta de forma automatizada.

Cidades sensoriais, digital sites e gêmeos digitais

O conceito de digital sites transforma elementos já existentes na cidade, como postes de iluminação, semáforos, pontos de ônibus, prédios públicos e mobiliário urbano, em pontos inteligentes de coleta contínua de dados ambientais, de tráfego, de segurança, de qualidade do ar e de uso dos espaços. A gestão pública passa a operar com verdadeiros “órgãos sensoriais” distribuídos por todo o território urbano. 

Esses dados alimentam o gêmeo digital da cidade, um modelo virtual dinâmico que reproduz, em tempo real, como está o funcionamento da infraestrutura. A partir dele, gestores conseguem simular cenários, testar políticas públicas, planejar intervenções e antecipar impactos antes mesmo de qualquer ação física.

Em Shenzhen, por exemplo, a gestão de tráfego urbano passou a operar com plataformas inteligentes e análise massiva de dados, integrando informações de sensores viários, câmeras, sistemas de transporte público e registros operacionais da polícia. Essas soluções, implantadas em aproximadamente 200 interseções da cidade, trouxeram ganhos de eficiência da ordem de 10% na capacidade viária durante os horários de pico e níveis de precisão próximos a 95% na identificação das condições de tráfego. 

As plataformas processam cerca de 700 milhões de registros por mês, permitindo ajustes dinâmicos de semáforos, priorização automática de veículos de emergência e respostas mais rápidas a incidentes. Para o município, os benefícios se traduzem em melhor aproveitamento da infraestrutura existente, redução de custos operacionais e maior previsibilidade na gestão da mobilidade. Para os cidadãos, o impacto aparece na forma de deslocamentos mais fluidos, menor tempo perdido em congestionamentos e maior segurança viária.

Conectividade inclusiva: o governo em todo lugar

Nenhuma dessas arquiteturas se sustenta sem conectividade robusta, resiliente e inclusiva. A base do governo inteligente está na capacidade de conectar pessoas, equipamentos, serviços e sistemas, independentemente da localização geográfica. Tecnologias como o 5G Advanced, redes ópticas de alta capacidade e arquiteturas de rede programáveis tornam-se essenciais para viabilizar aplicações críticas.

No Brasil, no final de 2025, tivemos a implantação da primeira rede 100% IPv6 da América Latina, em operação em São José do Rio Preto (SP). O marco aponta para a chegada de um tipo de infraestrutura essencial para sustentar redes de dados capazes de conectar serviços públicos, equipamentos urbanos e plataformas digitais com maior previsibilidade e segurança. Em termos práticos, o Brasil começa a dar os primeiros passos rumo ao Smart Government ao usar arquiteturas que criam condições para que serviços digitais operem melhor, inclusive fora dos grandes centros, transformando conectividade em base real de inclusão e eficiência.

Governar agora é antecipar

O diferencial das gestões públicas nos próximos anos não estará na simples posse de dados, mas na capacidade de transformá-los em antecipação: decisões informadas, políticas públicas precisas e serviços capazes de responder às necessidades da população antes que os problemas se materializem. Governar, nesse novo contexto, deixa de ser um exercício reativo e passa a ser um processo contínuo de leitura de cenários, simulação e ação orientada por evidências.

A tecnologia já atingiu o grau de maturidade necessário para sustentar esse modelo. Nuvem, conectividade avançada, plataformas de dados, inteligência artificial e sistemas urbanos integrados não são mais promessas futuras, mas ativos disponíveis. O desafio que se impõe agora é estratégico: integrar essas capacidades em uma visão única, superando silos institucionais e fragmentações históricas que limitam a efetividade da gestão pública.

Por fim, vale ressaltar, os modelos integrados de governança digital têm produzido impactos econômicos cada vez mais mensuráveis. Projeções internacionais indicam que a economia global gerada por soluções de cidades inteligentes deve alcançar US$ 249 bilhões até 2028, impulsionada pela redução do consumo de energia, pela diminuição de emissões e pelo ganho de eficiência proporcionado por redes inteligentes, gestão de tráfego e iluminação pública conectada. Na prática, essas economias tendem a superar em quase três vezes os investimentos realizados, evidenciando um caminho claro de retorno sobre investimento para as cidades que adotam modelos orientados por dados.

Em última instância, o Smart Government é um projeto de cidade, no qual infraestrutura digital bem planejada se converte em eficiência pública, responsabilidade fiscal, inclusão real e melhoria concreta da qualidade de vida.

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