Experiências fora dos grandes centros desafiam a ideia de que apenas capitais podem liderar a inovação urbana
Durante décadas, a imagem de uma “cidade inteligente” esteve associada a grandes capitais, repletas de sensores, centros de controle integrados e soluções digitais de ponta. Mas essa associação começa a ser questionada à medida que experiências fora dos grandes centros urbanos ganham visibilidade, mostrando que inteligência urbana não se mede apenas por escala, tecnologia ou status político-administrativo.
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O crescimento acelerado das cidades brasileiras, independentemente de seu porte, trouxe desafios comuns: mobilidade precária, pressão sobre os serviços públicos, insegurança, poluição e dificuldades de gestão. Se nas metrópoles esses problemas se expressam de forma mais intensa, municípios médios e pequenos também enfrentam dilemas próprios, muitas vezes com menos recursos técnicos e financeiros. Ainda assim, isso não os impede de inovar.
Afinal, o que define uma cidade inteligente?
O conceito de cidades inteligentes surgiu nos anos 1990, impulsionado pela expansão das tecnologias da informação e comunicação. Inicialmente, a ideia estava fortemente ligada à eficiência operacional: digitalizar serviços, automatizar sistemas urbanos e melhorar a gestão de infraestruturas como transporte, energia e segurança.
Com o tempo, essa definição foi ampliada. Hoje, especialistas defendem que uma cidade inteligente não é apenas aquela que usa tecnologia de forma intensiva, mas aquela que integra soluções tecnológicas a objetivos sociais, ambientais e econômicos, promovendo qualidade de vida, inclusão e sustentabilidade.
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A tecnologia, nesse contexto, deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser um meio. Um instrumento poderoso, mas insuficiente se não estiver a serviço das necessidades reais da população.
Um erro comum no debate sobre cidades inteligentes é imaginar que todas devem seguir o mesmo modelo. A analogia com o desenvolvimento humano ajuda a ilustrar essa distorção: espera-se de uma criança algo muito diferente do que se espera de um adulto. Com as cidades, ocorre o mesmo.
Não faz sentido exigir de um pequeno município as mesmas soluções tecnológicas de uma metrópole. A ausência de sensores no asfalto para indicar vagas de estacionamento, por exemplo, não torna uma cidade “menos inteligente” se essa não é uma demanda local.
Um caso emblemático é o de Barra do Piauí (RJ), município com pouco mais de 20 mil habitantes, considerado uma das primeiras cidades digitais do país. A cidade possui banda larga em toda sua extensão, inclusive na zona rural, e oferece um computador por aluno na rede pública de ensino. Não há centros de controle sofisticados ou sistemas complexos de mobilidade, simplesmente porque não são necessários. Ainda assim, trata-se de uma cidade que fez escolhas estratégicas inteligentes, alinhadas à sua realidade.
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No Brasil, a hierarquia urbana definida pelo IBGE revela uma forte concentração de recursos institucionais, econômicos e técnicos nas metrópoles e capitais regionais. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Curitiba ocupam o topo dessa estrutura, funcionando como polos de inovação, produção de conhecimento e experimentação urbana.
Esse protagonismo, no entanto, vem acompanhado de desafios igualmente complexos: desigualdade socioespacial, pressão sobre infraestruturas consolidadas e dificuldades de governança em larga escala. Por outro lado, cidades médias e pequenas, embora disponham de menos recursos, muitas vezes apresentam maior flexibilidade institucional, maior proximidade entre governo e população e capacidade de implementar soluções mais ajustadas ao contexto local.
Além disso, cidades mais jovens, em processo de crescimento, podem incorporar tecnologias e modelos urbanos inovadores com mais facilidade do que centros antigos, cuja infraestrutura exige adaptações constantes.
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Outro ponto central no debate é a relação entre cidades inteligentes e sustentabilidade. Planejamento urbano sustentável envolve eficiência energética, gestão racional dos recursos naturais, fortalecimento das comunidades locais e estratégias de resiliência climática. No entanto, pesquisadores alertam para o risco de um “urbanismo verde” excludente, concentrado em áreas centrais e voltado a interesses privados.
Quando mal planejadas, políticas de inovação e sustentabilidade podem aprofundar desigualdades, promover gentrificação e afastar justamente a população que mais precisa de melhorias urbanas. Por isso, cresce o consenso de que modelos homogêneos e soluções tecnocráticas importadas de grandes cidades globais não funcionam automaticamente em realidades diversas, especialmente no Sul Global.
Diante da diversidade urbana brasileira, torna-se evidente que não é preciso ser capital para ser uma cidade inteligente. O que define essa inteligência não é o tamanho da cidade, nem o volume de tecnologia embarcada, mas a capacidade de reconhecer suas próprias necessidades, mobilizar atores locais, planejar de forma estratégica e colocar o cidadão no centro das decisões.
Cidades inteligentes são aquelas que fazem boas perguntas antes de buscar soluções prontas. Que entendem seus limites, potencialidades e responsabilidades. E que usam a tecnologia como aliada, não como vitrine.





