Escrito por: Iago Prado e Jamile Sabatini Marques
Uma abordagem que organiza o território, qualifica o espaço público e coloca as pessoas no centro da inteligência das cidades.
O debate sobre cidades inteligentes permanece fortemente orientado à tecnologia, plataformas e sistemas. No entanto, a inteligência urbana transcende essa visão técnica. Ela se expressa, sobretudo, na forma como o território é organizado e em como a cidade responde ao cotidiano das pessoas. Uma cidade inteligente inclui as pessoas, aproxima o serviço público e atua com base em dados. É nesse contexto que se insere o conceito dos Nós Verdes como uma camada estruturante da cidade inteligente, integrando infraestrutura, acessibilidade, mobilidade e cidadania.
Os Nós Verdes são pontos urbanos distribuídos pelo território, implantados em praças, áreas públicas subutilizadas, vazios urbanos ou espaços de passagem requalificados. Assim como em um sistema vegetal, em que os nós fortalecem o ramal e estruturam o crescimento, esses pontos concentram elementos e serviços para fortalecer o tecido urbano local. O objetivo é direto: descentralizar a oferta de serviços, reduzir deslocamentos e aproximar a cidade dos bairros.
Cada Nó Verde funciona como um polo de apoio urbano, reunindo diversas facilidades e equipamentos urbanos, por exemplo: Wi-Fi, áreas de descanso, monitoramento, bebedouros, bicicletários, espaços flexíveis para uso coletivo etc. O sistema é escalonável, cada nó tem uma configuração básica; e conforme a demanda, pode aumentar e somar mais equipamentos públicos. A inserção desses equipamentos ocorre de forma inteligente e orquestrada, garantindo harmonia no planejamento urbano.
Esses nós são conectados pelos entrenós — corredores urbanos que ligam um ponto ao outro. Os entrenós são eixos de mobilidade qualificada, nos quais se priorizam transporte coletivo, veículos elétricos, bicicletas compartilhadas e caminhabilidade. Com semáforos inteligentes e desenho viário adequado, o deslocamento entre os nós passa a ser mais rápido e eficiente do que o uso do carro particular, induzindo escolhas mais sustentáveis.
Além da dimensão física, os Nós Verdes representam uma camada da cidade inteligente. O conceito de “nós” transcende o nó urbano: ele incorpora nós, pessoas. Trata-se da inclusão da população no processo de cidade inteligente, em que o cidadão passa a ser agente ativo da transformação urbana.
Isso se materializa, por exemplo, na reserva gratuita de espaços públicos nesses locais. O cidadão pode reservar um espaço para realizar atividades em grupo. Essas informações são encaminhadas automaticamente às secretarias responsáveis, permitindo que a gestão pública identifique demandas reais e direcione políticas com base em evidências.
Da mesma forma, o usuário pode avaliar o nó e registrar solicitações. A resposta rápida e o retorno ao cidadão geram algo crucial para o conceito de cidade inteligente: o engajamento cidadão.
Quando conectados a dispositivos móveis, os Nós Verdes geram dados valiosos sobre perfis de uso e frequência de acesso. Essas informações permitem compreender quem utiliza cada nó, quais atividades nele ocorrem e as distâncias percorridas para acessá-lo, subsidiando a implantação de novos nós em áreas com demanda reprimida.
Dessa forma, os Nós Verdes operam simultaneamente como infraestrutura urbana, ferramenta de dados e elementos de integração dos usuários. Ao revelar padrões de uso, necessidades e comportamentos, qualificam o planejamento urbano e ampliam a eficiência dos investimentos públicos.
Ao organizar o território a partir de nós estruturantes e, ao mesmo tempo, incorporar os cidadãos como agentes ativos dessa camada, os Nós Verdes materializam uma visão de cidade inteligente construída com participação, proximidade e uso real do espaço público, resultando em uma cidade inteligente que se estrutura a partir de nós.

Jamile Sabatini Marques é diretora de Inovação e Fomento e diretora do Think Tank – Centro de Inteligência de Inovação, Políticas Públicas e Inovação da Associação Brasileira das Empresas de Software – ABES e já atuou em alguns programas de fomento à inovação. É pós-doutora em Desenvolvimento Baseado no Conhecimento pela UFSC e pelo Instituto de Estudos Avançados da USP. É Doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina, onde defendeu a sua tese sobre a importância de se fomentar a Inovação para gerar desenvolvimento econômico baseado no Conhecimento.




