Como o poder de compra do Estado está redefinindo a inovação e a transição verde
Historicamente, governos que desejavam estimular a inovação em seus países focavam em políticas pelo “lado da oferta”: davam subsídios para pesquisa e desenvolvimento (P&D), criavam incentivos fiscais e financiavam universidades, esperando que boas ideias surgissem e se transformassem em produtos. Nas últimas décadas, contudo, uma abordagem mais direta e talvez mais poderosa ganhou força: a política pelo “lado da demanda”.
O princípio é simples. O Estado é o maior comprador de qualquer economia. Se ele usar esse imenso poder de compra de forma estratégica, deixa de ser um consumidor passivo para se tornar um catalisador ativo da inovação.
Isso é a essência das Compras Públicas para Inovação (do inglês, Public Procurement for Innovation – PPI). Em vez de simplesmente comprar o produto mais barato que já existe, o governo sinaliza ao mercado que comprará soluções novas para seus grandes desafios, como saúde, defesa ou, crucialmente, a transição energética.
Embora o conceito seja discutido em todo o mundo, da Europa aos Estados Unidos, nenhum país parece ter entendido o potencial desta ferramenta como política industrial de forma tão agressiva quanto a China.
Uma análise recente da literatura acadêmica sobre o tema revela um fato contundente: a China tornou-se o principal “laboratório vivo” para o estudo das Compras Públicas Verdes (GPP, na sigla do inglês Green Public Procurement), uma subcategoria da PPI focada em sustentabilidade. O país tem usado seu poder de compra de forma intensiva como um pilar duplo de sua política industrial e ambiental.
Como isso funciona na prática?
Primeiro, o governo atua como um “criador de mercado”. Ao garantir uma demanda estável e de grande escala para produtos verdes — sejam painéis solares, ônibus elétricos ou tecnologias de tratamento de água —, ele reduz drasticamente o risco de mercado para as empresas. Inovações verdes são caras e o retorno é incerto. O contrato público funciona como um “porto seguro” que incentiva as empresas a realizar os investimentos de alto custo necessários para inovar.
Segundo, a compra pública atua como um poderoso mecanismo de sinalização e certificação. Conseguir um contrato de compra verde com o governo chinês não é apenas uma venda; é um selo de legitimidade e reputação. Isso abre portas para que a empresa consiga acesso a outras fontes de financiamento (como bancos e investidores privados) e expanda para novos mercados.
Nossa pesquisa também aponta que o impacto da GPP não ocorre no vácuo. O efeito é potencializado quando o governo combina essa demanda com políticas tradicionais de oferta (como subsídios para P&D verde) e, fundamentalmente, com um ambiente de regulação ambiental robusto, que “pune” quem polui e “premia” quem inova.
Os efeitos, aliás, transbordam das empresas diretamente contratadas. A exigência de critérios verdes se espalha por toda a cadeia de suprimentos, incentivando um desenvolvimento sustentável mais amplo na indústria.
Para além da retórica, a China está demonstrando que a forma como o governo gasta seu dinheiro pode ser uma das ferramentas mais eficazes para impulsionar uma transição econômica. Enquanto o Ocidente debate a teoria, a China a utiliza como uma arma estratégica para moldar seu futuro industrial e ambiental.
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