Atualmente, o desenvolvimento econômico das cidades depende da combinação fundamental entre os avanços tecnológicos da conectividade móvel e uma visão estratégica sólida por parte da gestão pública. Ninguém mais questiona que sistemas de saúde, transporte, educação e segurança com alto nível de qualidade e eficiência necessitam de condições técnicas de última geração. Isso se torna ainda mais evidente em um cenário global no qual muitas cidades têm adotado ferramentas avançadas para solucionar problemas, criar novos serviços, atrair investimentos e oferecer melhores condições de vida e de trabalho aos seus cidadãos. A competitividade mostra um ambiente saudável e reflete o comprometimento dos gestores públicos e das sociedades locais com a modernização contínua em meio à uma transformação tecnológica cada vez mais acelerada.
Faço essa reflexão motivado pelos recentes anúncios que presenciei no Mobile World Congress (MWC) Barcelona 2025, realizado no início de março. Esse evento, considerado o mais importante encontro mundial sobre o mercado de Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), trouxe um consenso sobre os avanços do 5G-Advanced (5G-A), uma evolução natural do 5G, e seu impacto nas políticas públicas. A principal vantagem está na capacidade de operar com velocidade de conexão extremamente elevada, chegando a 10 Gbps, ou seja, 10 vezes maior do que a do 5G atual, além de reduzir ainda mais a latência ou tempo de resposta. Essa evolução permite a execução de aplicações críticas em tempo real, onde cada milissegundo faz diferença. No contexto urbano, essa tecnologia permite que dispositivos e sensores se comuniquem instantaneamente, otimizando, por exemplo, o gerenciamento do trânsito ou os sistemas de segurança pública.
A convergência entre o 5G-A e a inteligência artificial (IA) foi outro tema de relevância discutido no evento. Essa combinação pode ser entendida sob duas perspectivas complementares. A primeira, chamada de “Redes para IA”, envolve a criação de uma infraestrutura de alta capacidade, baixa latência e conectividade estável, fundamental para sustentar o processamento distribuído exigido por aplicações inovadoras, como, por exemplo, veículos autônomos e diagnósticos médicos em grande escala. A segunda, denominada “IA para Redes”, é caracterizada pelo uso da própria inteligência artificial para otimizar a gestão das redes móveis. Essa abordagem permite o monitoramento ininterrupto e em tempo real, a correção automática de falhas e a adaptação dinâmica dos recursos, resultando em mais economia, sustentabilidade e segurança. Dessa forma, as cidades passam a contar não apenas com comunicações ultrarrápidas, como também com soluções inteligentes que se ajustam automaticamente, garantindo alto desempenho, disponibilidade constante e experiências personalizadas para cidadãos, gestores e empresas.
Um exemplo dessa convergência são os chamados “gêmeos digitais”, modelos virtuais detalhados que, ao serem alimentados com dados coletados via conexão móvel e processados por IA, possibilitam uma gestão urbana preventiva e planificada, fundamentada em dados precisos. Projetos de distribuição de energia em um bairro, de análise da expansão da rede de água e esgoto em uma comunidade, da otimização da malha viária em todo um município, entre muitos outros, podem ser beneficiados. Singapura, por exemplo, utiliza essa tecnologia para simular cenários críticos, como evacuações de estádios, melhorando significativamente suas estratégias de segurança durante grandes eventos. No Reino Unido, cidades compartilham dados para aprimorar a gestão de infraestrutura e transporte. Dubai monitora a infraestrutura em tempo real com foco em eficiência energética e segurança pública, enquanto Nova York implementou um sistema para reduzir o consumo de energia em edifícios públicos.
No setor da mobilidade urbana, o 5G-A, aliado a tecnologias como Internet das Coisas (IoT) e análise de big data, vem promovendo transformações expressivas. Experiências internacionais demonstram que a integração de sensores, dispositivos conectados e algoritmos de inteligência artificial pode otimizar o fluxo de veículos, reduzir congestionamentos e até diminuir a emissão de poluentes. Cidades como Pequim e Shenzhen são verdadeiros laboratórios dessa transformação. Em Pequim, por exemplo, sistemas de semáforos inteligentes reduziram os congestionamentos em mais de 10% ao ajustar automaticamente os tempos conforme o fluxo de veículos. Já em Shenzhen, corredores inteligentes para veículos autônomos reduziram em até 20% a incidência de acidentes, melhorando sensivelmente a fluidez do trânsito.
Brasil na vanguarda do 5G-A
No Brasil, os distritos industriais, importantes polos econômicos na maioria dos municípios, devem experimentar impactos positivos significativos com a chegada do 5G-A. A digitalização impulsionada por essa tecnologia, em conjunto com a automação, tem o potencial de aumentar consideravelmente a produtividade e melhorar a logística. Essa combinação também estimula o surgimento de novos negócios, a criação de empregos e o aumento das receitas públicas. A aplicação da IoT e big data na cadeia de suprimentos, por exemplo, agiliza o transporte de mercadorias, beneficiando toda a cadeia produtiva.
O próximo passo para o setor de telecomunicações é a adoção definitiva do 5G-A. Nesse cenário, o Brasil sai na frente, pois já adotou o padrão 5G Standalone (SA), uma infraestrutura de rede totalmente independente do 4G, ao contrário de países que ainda migram do 5G Non-Standalone (NSA). A decisão antecipada da Anatel, contemplada no leilão de 2021, permite que as operadoras brasileiras implementem rapidamente o 5G-A por meio de uma simples atualização de software na maioria dos casos, dispensando a necessidade de substituição de equipamentos.
Atualmente, o 5G já alcança 69% da população brasileira, e testes realizados no país confirmam o potencial do 5G-A em alcançar as velocidades prometidas. Um ponto estratégico destacado para acelerar essa expansão é o leilão da faixa de 6 GHz, previsto para 2026, essencial para ampliar a capacidade das redes. Segundo recomendações do “White Paper para o Desenvolvimento do 5G-A no Brasil”, lançado no MWC Barcelona, é importante que o país inicie a implementação dessa tecnologia ainda em 2025. Ao tomar essas medidas, o Brasil pode consolidar uma posição de vanguarda tecnológica, avançando rapidamente para se tornar líder em inovação e conectividade móvel na América Latina e no cenário mundial.
O mercado de cidades inteligentes está crescendo rapidamente. Segundo a Fortune Business Insights, esse setor, avaliado em aproximadamente US$ 623,90 bilhões em 2023, deve atingir US$ 4,647 trilhões até 2032, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 25,2%. No Brasil, as iniciativas voltadas para cidades inteligentes já movimentam bilhões de reais anualmente. Ao acelerar a implementação do 5G-Advanced, o país não apenas reforça seu compromisso com a inovação tecnológica, mas sinaliza para o mercado sua capacidade de acompanhar tendências emergentes.
As cidades brasileiras estão diante de uma oportunidade única de impulsionar seu desenvolvimento econômico e social, aproveitando a infraestrutura existente para melhorar a qualidade de vida e a prosperidade de seus habitantes. Em última análise, esse é o caminho que levará o país a se destacar globalmente em um cenário no qual a conectividade avançada já não é apenas um diferencial competitivo, mas uma condição essencial para o futuro.
As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Connected Smart Cities.

Vice-Presidente de Relações Públicas da Huawei na América Latina e Caribe, com contribuição significativa na construção de parcerias que alavancam a transformação digital no Brasil. O executivo já atuou como gestor de Rede e Data Center da Prodam – SP, passando por multinacionais como Cabletron, Enterasys e CISCO, onde foi responsável pela área de Diretorias Regionais de Vendas.