A TECNOLOGIA COMO FERRAMENTA PARA O PLANEJAMENTO DE CIDADES INTELIGENTES E A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO PLANO DIRETOR

O debate em torno da construção mais igualitária e inteligente das cidades parte da união entre demandas e direitos da população atrelados ao uso de tecnologias e informações, ferramentas importantes para validar projetos e políticas públicas.

 

É comum atribuirmos muitos dos desafios que temos nas cidades brasileiras hoje à ‘falta de planejamento’. O trânsito complicado, as habitações precárias e a falta de áreas verdes teriam nascido do crescimento ‘desordenado’ das cidades, em especial no meio do século passado. No entanto, isso não é preciso, pelo contrário: São Paulo e outras cidades tiveram diversos projetos de desenvolvimento, a despeito do que o resultado atual nos leva a crer. Para que consigamos mudar ainda mais essa percepção e participar da construção de projetos para a cidade, está sendo discutido agora, em São Paulo, o novo Plano Diretor Estratégico (PDE). 

Na prática, o PDE é uma lei que orienta o crescimento e o desenvolvimento urbano de um município. Por meio de ajustes em ferramentas como o ‘coeficiente de aproveitamento’, por exemplo, prioriza o crescimento da cidade em corredores de mobilidade massiva disponíveis. O plano atual para a cidade de São Paulo, aprovado em julho de 2014, está próximo do seu prazo de vigência, o que ao mesmo tempo exige a publicação de um novo plano e nos dá a oportunidade de discutir tais pontos coletivamente. 



Do ponto de vista de mobilidade é o momento ideal para que seja incorporado o Transport-Oriented Development (TOD), aqui traduzido como ‘desenvolvimento orientado pelo transporte’. O conceito é simples, mas inovador: utilizar a instalação de infraestrutura massiva de transporte como vetor do desenvolvimento e adensamento urbano. Em vez de priorizarmos a implantação de corredores de ônibus e metrô em áreas já profundamente adensadas, utilizarmos tal infraestrutura para adensar novas regiões, aumentando a oferta de moradia, trabalho e outros serviços e regiões antes pouco habitadas. Cidades como Londres e Amsterdã tem feito adaptações neste sentido, além de Paris, já amplamente comentada nesta coluna pelo ambicioso objetivo de se tornar uma “cidade de 15 minutos”. 

Em paralelo, outra oportunidade importante neste momento é o debate sobre quais as necessidades de cada região da cidade. No caso de São Paulo, as desigualdades são enormes: a experiência de um morador da Brasilândia é muito diferente daquela vivida por um morador de Pinheiros. Construindo parques, terminais de mobilidade, áreas comerciais, escolas, hospitais e outros equipamentos em áreas com poucos recursos, reduzimos a necessidade de deslocamento de quem ali vive para outras regiões em busca de serviços básicos. É inegável que uma infraestrutura urbana melhor tem imenso impacto na geração de oportunidades, descentralizando a cidade e aliviando o já estressado sistema de mobilidade. 

Tanto para a implantação do desenvolvimento orientado pelo transporte quanto para a descentralização das oportunidades, a tecnologia é essencial e deve também ser reforçada neste PDE. A disponibilização de dados de forma aberta e democrática, por exemplo, ampliará a capacidade de contribuição do setor privado e da sociedade civil de forma ativa, não só trazendo demandas, mas também participando de análises dos problemas e da construção de soluções. Em pleno 2021, quando o papel da tecnologia é mais relevante do que jamais foi, o que considero uma vantagem da nossa geração sobre as anteriores, que pouco conheciam da realidade urbana, a tecnologia se torna um forte aliado para a construção de cidades cada vez mais inteligentes. Por isso, nortear o planejamento em dados é mais do que uma oportunidade, é uma obrigação e caminho crítico para corrigirmos os vícios que planos antigos nos deixaram, como o foco nos carros e o aspecto cinza. 

Em São Paulo, as discussões do PDE já estão caminhando. Coordenadas pela Prefeitura e pela Câmara dos Vereadores, já foram realizadas várias reuniões abertas. No entanto, outras cidades têm ferramentas similares para fazer essa discussão em breve. É o caso do Rio de Janeiro, que apresentou a nova versão do projeto em agosto de 2021, e da cidade de Fortaleza, que por conta da pandemia retomou em 2021 a revisão do planejamento. Ter essa janela de discussão em um momento de retomada da vida urbana, após uma pandemia duríssima, me parece uma oportunidade boa demais para deixar passar.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Connected Smart Cities

Pedro Somma
CEO da Quicko, startup de mobilidade urbana. Liderou a área de Operações e Public Affairs da 99 e atuou com com gestão pública e políticas públicas voltadas para apoiar o desenvolvimento econômico, empreendedorismo e geração de trabalho, emprego e renda.
Publicidade
spot_img
spot_img

Últimas Matérias