DIA MUNDIAL SEM CARRO: COMO REPENSAR A CIDADE?

No Brasil, desde o começo dos anos 2000, diversas cidades já colocaram o dia no calendário oficial e assim setembro tornou-se o Mês da Mobilidade. Quase 25 anos depois, em 2021, é outra cidade francesa, desta vez Paris, que aponta caminhos para a mobilidade do futuro

Em 22 de setembro de 1997, em La Rochelle, uma cidade na França, aconteceu o primeiro “Dia Mundial Sem Carro”. A ideia era provocar a população para experimentar viver um dia na cidade sem usar o carro para se deslocar. O contexto era outro: ao longo dos anos 80 e 90, sucessivas crises do petróleo pressionavam o custo do combustível para patamares exorbitantes. No Brasil, desde o começo dos anos 2000, diversas cidades já colocaram o dia no calendário oficial e assim setembro tornou-se o Mês da Mobilidade. Quase 25 anos depois, em 2021, é outra cidade francesa, desta vez Paris, que aponta caminhos para a mobilidade do futuro.

Ainda em abril de 2020, logo no começo da quarentena imposta para conter o avanço do coronavírus, era comum encontrarmos comentários nas redes sociais sobre o quão azul estava o céu ou a quantidade de pássaros cantando em suas janelas. Em São Paulo, a fase mais rígida da restrição de circulação tirou até 70% das pessoas das ruas, reduzindo drasticamente o trânsito, lotação nos transportes públicos e até a ocupação nas calçadas. O efeito da redução foi marcante, mas talvez valha a pena aprofundar um pouco no tamanho da encrenca: 72,6% de toda emissão de gases do efeito estufa na capital paulista vem do trânsito, segundo dados do Inventário de Emissões Atmosféricas do Transporte Rodoviário de Passageiros no Município de São Paulo, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema). Além disso, 5 milhões de metros quadrados da área pública da cidade são reservados para estacionamento de veículos, o equivalente a 3 Parques do Ibirapuera. Somadas às áreas para circulação de automóveis, isso torna a infraestrutura urbana para os carros maior do que para pessoas.



Em várias cidades do mundo, como em Paris (aproveitando o protagonismo francês no Dia Mundial sem Carro), uma saída para a retomada gradual das atividades nas ruas foi a conversão dessa infraestrutura dedicada para os carros, como vagas de estacionamento nas ruas, em mesas de restaurantes. Assim, ao invés de acomodar veículos parados, as vias passaram a ser ocupadas por pessoas almoçando ao ar livre, onde a chance de contágio pelo coronavírus é menor. Mesmo em um cenário sem pandemia, cenas como esta parecem mais interessantes do que as que vivíamos antes. Afinal, como já se comprovou em diversos momentos, disponibilizar espaços é o melhor convite para a ocupação das ruas.

A capital francesa foi ainda além: aproveitando o momento de reflexão sobre a infraestrutura urbana, decidiu priorizar bicicletas de uma forma nunca feita antes. Diversas vias da cidade foram convertidas em espaços para ciclistas, além do oferecimento de subsídios para a compra de novas bicicletas pelos cidadãos. O investimento total passou dos 20 milhões de euros, mais de 120 milhões de reais pela cotação atual. O compromisso da cidade é tão grande com essa mudança de comportamento que ela adotou 30km/h como velocidade máxima para os carros em praticamente todas as suas vias desde o mês passado. Dessa forma, não somente será mais rápido descolar-se de bicicleta, metrô, ônibus e outros meios de transportes mais eficientes, como também a cidade terá um trânsito mais seguro, dado que a maior parte das mortes está relacionada com acidentes envolvendo carros. Outras cidades, como Amsterdã, já estão seguindo na linha de reduzir velocidades para carros, priorizando a segurança de todos aqueles que também ocupam as vidas.

Com todas essas medidas, algum leitor pode estar pensando que se deslocar pela cidade será mais lento. A dúvida é natural, ainda mais considerando que durante muito tempo o carro foi tratado como sinônimo de velocidade e rapidez; no entanto, o que se vê é uma redução no tempo de viagem nas cidades que tomaram medidas similares. O otimismo é tanto que a Prefeita de Paris, Anne Hidalgo, lançou uma meta: Paris 15 minutos. Repensar a cidade para que ninguém esteja a mais deste tempo do que é essencial para seu dia a dia.

Nestes 24 anos que separam o Dia Mundial sem Carro de La Rochelle da Paris de 15 minutos, muito mudou. A provocação proposta pela data, em 1997, talvez fosse mais modesta; mas certamente está na raiz dessa nova forma de ver a vida nas cidades, mais sustentável, humana e eficiente. Retomar tais princípios é essencial para que nossas reflexões deste mês também nos permitam revoluções em nossas cidades.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Connected Smart Cities  

Pedro Somma
CEO da Quicko, startup de mobilidade urbana. Liderou a área de Operações e Public Affairs da 99 e atuou com com gestão pública e políticas públicas voltadas para apoiar o desenvolvimento econômico, empreendedorismo e geração de trabalho, emprego e renda.
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