MOBILIDADE ATIVA: UMA CIDADE PENSADA PARA PESSOAS E PARA BICICLETAS

Das diversas formas de mobilidade disponíveis hoje nas cidades, uma que merece atenção especial, tanto pelo seu impacto quanto pelo pouco debate, é a mobilidade ativa, ou seja, aquela em que a própria pessoa é o combustível do seu deslocamento, como caminhadas e bicicletas

Quando o assunto é mobilidade, não há solução única. Para que a cidade seja mais democrática, o caminho é promover o aumento das opções de deslocamentos, incluindo novos modais, nos contextos em que eles forem mais adequados às necessidades das pessoas. Das diversas formas de mobilidade disponíveis hoje nas cidades, uma que merece atenção especial, tanto pelo seu impacto quanto pelo pouco debate, é a mobilidade ativa, ou seja, aquela em que a própria pessoa é o combustível do seu deslocamento, como caminhadas e bicicletas.

Novas formas de transporte

Desde que nós, humanos, estamos na Terra, caminhar tem sido o principal meio de transporte para nos levar onde precisamos. Durante muito tempo, fomos tão longe quanto nossos pés nos permitiram. Com o tempo, o uso de novas formas de transporte fez com que fôssemos mais longe e construíssemos cidades em todo o planeta. Contudo, se no começo tais espaços priorizavam os deslocamentos a pé, um desses meios de transporte, o carro, colocou o pedestre nas margens das vias urbanas, tornando-o um apoio aos deslocamentos motorizados, com impactos relevantes para a vida das pessoas.



No entanto, é nas calçadas que a vida acontece: caminhando, nós cruzamos com outras pessoas e nos sentimos parte da cidade, fazemos exercício e prestamos mais atenção ao redor, como em vitrines e outros pontos de interesse. Tudo isso a partir de um meio de transporte zero poluente, nossos pés. Nesse sentido, é importante que se olhe criticamente para a infraestrutura das cidades hoje: calçadas geralmente apertadas, com desníveis e obstruções relevantes, além de não acessíveis às pessoas com deficiência (PcD). Este cenário pouco convidativo é também responsável por facilitar o uso de automóveis, ainda que o excesso de veículos provoque congestionamentos e poluição. O conforto nas calçadas é fundamental para atrair os pedestres novamente.

O impacto da infraestrutura 

Em paralelo, a questão da infraestrutura também tem impacto relevante no uso de outra forma de mobilidade ativa, a bicicleta. O aumento rápido de ciclovias que vimos em São Paulo, por exemplo, teve um efeito significativo na quantidade de ciclistas. Segundo a última pesquisa Origem-Destino do Metrô, em 2017, o uso de bikes na cidade teve um aumento de 24% quando comparado com 2007. O estudo aponta ainda que um dos principais motivos do crescimento de viagens por bicicleta no município está relacionado aos 3 investimentos no sistema cicloviário: ciclofaixas, ciclovias e ciclorrotas, que conectam pontos relevantes da cidade. É interessante ler isso à luz de diversos céticos que, à época, duvidavam que a instalação de vias dedicadas às bicicletas realmente fosse capaz de mudar o comportamento das pessoas. Novamente: conforto é importante para convidar à mudança de hábito. Neste caso, ter espaços reservados também representa segurança.

Embora se argumente que a maior parte das viagens de bicicleta não seja porta-a-porta, em que o trajeto é direto entre origem e destino, bicicletas são muito importantes para conectar transportes massivos de longa distância, como metrô, às pessoas. A integração entre modais já é realidade para os ciclistas e vem aumentando. A mesma pesquisa mostra que a intermodalidade quase dobrou em 10 anos: em 2007 significava 1,8%, já em 2017 passou a representar 3,4%. Em que pese esse crescimento relevante, ainda há muita oportunidade para que este comportamento cresça. 

Na Quicko, também tem nos permitido aprender muito sobre esta integração entre ponto inicial/final e o transporte de longa distância: das milhares rotas que geramos diariamente, 75% consideram utilizar caminhadas e 4% bicicletas para o primeiro e último trechos. Entendemos, então, que para tornarmos o transporte público mais fácil e conveniente, será fundamental atuarmos também nestas etapas das jornadas, integrando-o com outros modais. Por isso, lançamos um roteirizador para viagens de bicicleta, que considera os desafios do caminho do ciclista, como desníveis e ciclovias. Tornar as jornadas de bike mais convenientes é facilitar a adoção do transporte público pelas pessoas.

Pensar em mobilidade é pensar integradamente, com foco na perspectiva das pessoas que precisam se deslocar todos os dias. Tornar esta integração fácil e conveniente é a melhor estratégia para que deixemos as coisas de lado e possamos ocupar ruas e calçadas novamente, em cidades cada vez mais ‘caminháveis’. Para isso, é necessário dar o primeiro passo. Sintam-se convidados!

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Connected Smart Cities  

Pedro Somma
CEO da Quicko, startup de mobilidade urbana. Liderou a área de Operações e Public Affairs da 99 e atuou com com gestão pública e políticas públicas voltadas para apoiar o desenvolvimento econômico, empreendedorismo e geração de trabalho, emprego e renda.
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