INOVAÇÃO NOS MODELOS DE PAGAMENTO PARA UM TRANSPORTE MAIS DEMOCRÁTICO

Apesar dos avanços tecnológicos nos modelos de pagamento, pouco evoluímos quando se trata de pagar o transporte público

 Se você concorda que o transporte público deve ser priorizado, proponho um desafio para quem costuma andar de carro: vá de transporte público. Caso não tenha o bilhete de transporte de sua cidade e não costume andar com dinheiro no bolso, terá dificuldades em pagar a viagem. Há tecnologias que estão integrando os meios de transporte e ajudando as pessoas, mas ainda estamos atrasados quando o assunto é bilhetagem – a tecnologia de pagamento do transporte público, apesar dos enormes avanços tecnológicos nos meios de pagamentos.

A maioria das cidades brasileiras ainda opera com sistemas antigos, fechados, onde só é possível comprar créditos em bilheterias, muitas vezes sem canais digitais, além da utilização ser restrita apenas aos modais públicos, como ônibus, metrôs e trens, não tendo integração com outros transportes, como bicicletas e táxis. Uma mobilidade conveniente depende da integração da forma de pagamento, tornando tudo mais acessível às pessoas.



 Transporte para poucos

Os bilhetes de transporte funcionam como carteiras fechadas, nas quais só é possível colocar e tirar créditos do cartão de formas predefinidas pela autoridade de transporte. Em São Paulo, para recarregar o Bilhete Único, é preciso ir até bilheterias especiais, máquinas de autoatendimento ou utilizar algum aplicativo cadastrado, como o da Quicko.

Embora meios digitais de pagamento sejam cada vez mais usados nas compras, o dinheiro físico ainda é relevante para as transações do transporte. Uma das razões é o grande número de pessoas que utilizam o transporte público e ainda não são bancarizadas ou não têm acesso a cartões de crédito, meios de pagamento preferenciais dos apps.

Mesmo pessoas bancarizadas e com cartão de crédito encontram restrições ao uso das novas tecnologias. É o caso do pagamento por aproximação, de cartões de crédito ou celulares. É uma ferramenta mais rápida e eficiente do que os atuais cartões do transporte, mas que não permite ao usuário o benefício da tarifa integrada entre os modais – ou seja, ao pegar um ônibus após desembarcar do metrô, pagará duas tarifas cheias.

O sistema fechado impõe limitação à política pública de mobilidade, ao ponto que a restrição do pagamento do transporte público apenas com dinheiro físico bloqueia a chance da criação de iniciativas que integrem o uso de bikes às linhas de ônibus e metrô com tarifas mais baixas, estratégia fundamental para tornar a mobilidade mais atraente e incentivar o não uso de carros particulares.

Mais integração, mais mobilidade

Muitas cidades já entenderam que a bilhetagem é a chave para o aumento do uso do transporte público. É o caso de Helsinque, na Finlândia, que adotou o “account based ticketing” (ABT), ou “bilhetagem em conta digital”. Por lá, aplicativos privados, como o Whim, possibilitam ao usuário a compra de pacotes mensais de mobilidade, com créditos em modais públicos, como ônibus, e privados, caso das bicicletas e táxis.

A liberação para uso do transporte é feita via app, tornando a jornada ainda mais fluida e simples. A autoridade local conduz a política pública de mobilidade e garante que incentivos básicos sejam aplicados por todas as plataformas, que podem desenvolver campanhas próprias aos usuários.

Modernizar o sistema de bilhetagem é fundamental para tornar o transporte mais fácil, conveniente e democrático, além de ser um instrumento para auxiliar a inclusão bancária de parte da população e um estímulo à diversificação dos modais.

A tecnologia para tornar o pagamento do transporte aberto e digital já está disponível. Em tempos de discussões sobre a cidade que queremos, mobilidade e suas formas de pagamento devem estar no topo da lista de prioridades de gestores públicos e legisladores. 

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Connected Smart Cities 

Pedro Somma
Pedro Somma
CEO da Quicko, startup de mobilidade urbana. Liderou a área de Operações e Public Affairs da 99 e atuou com com gestão pública e políticas públicas voltadas para apoiar o desenvolvimento econômico, empreendedorismo e geração de trabalho, emprego e renda.
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