A RESPONSABILIDADE DE GOVERNAR DURANTE O CORONAVÍRUS

A importância da governança em períodos de crise e quais os impactos das ações governamentais

Governar significa deter uma posição em que é desempenhada uma função de poder, na qual é possível implementar decisões, comandar e mandar em outras pessoas. Em uma situação crítica, como a humanidade está enfrentando com a pandemia de coronavírus, quando um governante toma decisões que podem colocar em risco a sociedade, saber o papel do Estado, do ato de governar e da participação popular são substanciais para a sobrevivência social. 

A globalização exerce um papel fundamental na tomada de decisões frente a uma situação como a atual: a emergência de organizações supranacionais, como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU), além do crescimento exponencial de empresas multinacionais, diminuem o poder soberano nacional e coloca o mundo frente a uma espécie de governança global. 

GOVERNO VS GOVERNANÇA

O ato da governança não é o mesmo que governo ou o ato de governar. Enquanto o Estado se sustenta em autoridades formais e implementação de políticas já constituídas, a governança atua dentro do que se refere aos objetivos comuns, não dependendo de responsabilidades legais e/ou formais para se reivindicar, podendo partir tanto de lideranças populares, quanto do poder que as grandes empresas e a grande mídia exerce na governabilidade de um país.  

Apesar de não serem o mesmo conceito, são complementares: a responsabilidade de governar significa conceber os problemas que afligem a sociedade, considerando as diversas maneiras de se administrar e solucionar essas questões. Nesse sentido, a governança serve como uma espécie de lanterna que ilumina as diferentes adversidades, quase sempre acompanhada de alguma solução. 

Não necessariamente o governo precisa acatar todas as medidas apontadas pelas diferentes lideranças populares ou esferas que compõem a sociedade . Muito pelo contrário, o papel do Estado é de ser um termômetro que aponta se as medidas são ou não viáveis dentro de sua proposta de governo. 

Dito isso, a grande questão evidenciada pela crise global do coronavírus é que existem governos governando sem governança. A frase parece cômica, mas aponta para uma realidade assustadora: ao utilizarem da autoridade concedida pelo poder do Estado para tomarem medidas que podem colocar em risco milhares de vidas e vão diretamente ao embate de líderes sociais e da saúde, diversas autoridades têm governado a partir de seus interesses pessoais e de uma pequena parcela de seu eleitorado. 

Para o exercício da democracia é essencial o diálogo entre os governantes e a sociedade civil. Sem o equilíbrio entre as duas esferas não existe legitimação nas ações estatais, ou pelo menos não deveria existir. Como resultado da intensificação desse fenômeno pela crise do coronavírus e da falta de democratização nos discursos de alguns presidentes, parece que as únicas autoridades que a sociedade civil pode recorrer são as supranacionais- organizações essas que não estão preocupadas nesse momento com a realidade latino americana ou africana. 

NÓS VS ELES 

Com a diminuição da legitimidade do poder soberano nacional e o evidenciamento dos impactos que as políticas de austeridade, privatização e enxugamento dos fundos de pesquisa tiveram durante a crise do coronavírus, um processo curioso tem se intensificado entre os governantes: a culpabilização do outro. 

O vírus que aniquila países inteiros é um vírus criado em laboratórios chineses para conseguir soberania mundial. A mídia de diversos países e com diferentes abordagens políticas, é histérica e é responsável pela recessão econômica. A ciência só pode ser utilizada quando um médico diz que é preciso voltar a normalidade e que quem diz o contrário é exagero puro. 

O que pondera as decisões já não é a ciência, mas a crença de se acreditar no que exclusivamente favorece o exercício do seu poder, mesmo que isso signifique travar uma guerra contra os fatos. A questão é que neste momento todos estão lidando com uma crise sanitária sem precedentes. 

ECONOMIA VS CORONAVÍRUS

Uma das principais questões apontadas por governos mundo afora frente a medida de isolamento social é o impacto que essa terá na economia. De fato, o isolamento só tem sentido quando garante uma rede de proteção social para amparar todos aqueles que precisam. Dito isso, a pressa com que muitas medidas foram tomadas para conter o aumento de infectados fez com que os impactos chegassem antes do auxílio, fazendo nascer pelo desespero do desconhecido o discurso de que o Brasil não pode parar. 

A economia, apesar de tudo, não é uma entidade e não é livre de atividades humanas. É preciso conceber o fato de que, querendo ou não, o mundo irá enfrentar tempos tumultuosos. E quem precisa conceber isso não é a população, que já vem sentindo isso na pele nas últimas semanas, mas sim seus governantes que ainda negam os fatos como se fossem deles para negar. 

Ainda, dentro de um período de crise, outras crises mais profundas ficam evidentes e já não é possível tapar o sol com a peneira: se antes as favelas poderiam ser tapadas com muros para a paisagem ficar mais bonita, agora elas são o epicentro da crise e podem significar um aumento exponencial de casos pela sua densidade demográfica e falta de saneamento. O discurso de que “o trabalhador precisa ter o pão de cada dia” surge como se a miséria já não fosse um problema histórico do país, mas sim um problema criado por todas as autoridades que pedem para que a população fique em casa. 

É preciso cobrar do governo governança. Os responsáveis por garantir o bem-estar popular devem implementar medidas que satisfaçam todos aqueles afetados pelos impactos econômicos que o coronavírus trará nas próximas semanas. A falsa ideia de que só existem duas opções- a de ficar em casa, mas matar a população de fome ou contaminar o próximo, mas garantir o pão de cada dia- tira a responsabilidade de quem é realmente responsável: o Estado. 

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Beatriz Faria
Especialista em Conteúdo da Necta - Conexões com Propósito
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