COMO O CORONAVÍRUS ESTÁ AFETANDO OUTRAS REGIÕES DO MUNDO

Entenda o porquê do sucesso e fracasso de diferentes continentes em conter o COVID-19

O coronavírus está colocando todos os governos à prova. A Ásia é o continente que está melhor controlando a disseminação da pandemia até o momento: A China, país de origem do vírus, já está retomando o cotidiano normal das cidades. A Coreia do Sul e o Japão já superaram as piores fases do surto e Taiwan e Hong Kong tem um número extremamente baixo de contaminados.  A Europa, por outro lado, está enfrentando um aumento exponencial de indivíduos contaminados e está vendo seu sistema de saúde, antes considerado um exemplo mundial a ser seguido, ruir perante aos olhos de seus governantes.

A diferença entre os dois continentes que foram o epicentro da doença é que a maior parte dos Estados asiáticos ainda possuem uma mentalidade autoritária, o que faz com que os cidadãos acatem com mais facilidade as medidas impostas pelos governos. Além disso, essa é a região que mais aposta na vigilância digital, sendo o big data um dos principais investimentos para conter a pandemia.

PARTE 1: SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO

Na China existem mais de 200 milhões de câmeras de vigilância, quase todas com tecnologia de reconhecimento facial. As câmeras, que levantam debates sobre privacidade e controle excessivo do Estado, estão sendo extremamente eficazes para conter a pandemia.  Em Pequim, por exemplo, a tecnologia de vigilância permite medir a temperatura corporal de quem transita pelas estações, sendo que os passageiros recebem notificações se estão no mesmo vagão que alguém com febre.

Em Taiwan, mensagens de texto são mandadas diariamente informando lugares e edifícios que indivíduos contaminados frequentaram. Já na Coreia, pessoas que se aproximam de um local que um indivíduo com coronavírus frequentou, recebem uma notificação através do Corona-app. O Ministério da Saúde coreano também conta com trabalhadores que tem a função exclusiva de olhar o material de vigilância para mapear os movimentos de pessoas infectadas com o vírus e localizar outras que tiveram contato com essas.

A utilização de câmeras se mostrou mais eficiente nesse momento que o fechamento das fronteiras da Europa. Além disso, a utilização de big data permitiu que equipes de pesquisa digital se unissem a profissionais da saúde para ajudar a procurar possíveis infectados somente utilizando dados técnicos.

PARTE 2: O VÍRUS QUE NÃO ENXERGA RIQUEZA

Se durante a crise de ebola o problema estava distante e parecia estar associado as condições sociais da África, o coronavírus é a prova que as doenças não enxergam riquezas. A Europa, que sempre foi modelo a ser seguido no que se diz respeito a funcionalidade das cidades, educação, saúde e enfim, agora se depara com um cenário de superlotação dos hospitais, necrotérios e um crescente aumento do desemprego.

Ainda, se durante o ápice da crise de ebola, fotos que mostravam pessoas morrendo em hospitais na África não chocavam, afinal quase todas as notícias do continente são acompanhadas de imagens de extrema miséria e falta de recursos, agora é preciso lidar com notícias acompanhadas de manchetes alarmantes associadas a fotos de hospitais com equipamentos de alta tecnologia e com profissionais equipados.  

Parte da crise global perante ao coronavírus pode ser atrelada ao fato de que a Europa é o continente mais afetado. Ninguém imaginou que as lindas ruas de Roma ou Barcelona ficariam vazias em clima apocalíptico ou ainda que existiria uma fuga em massa de estrangeiros e residentes das cidades antes tão desejadas.

Apesar de tudo, a Europa ainda possui um sistema de saúde exemplar: a Alemanha, país europeu com o menor número de mortes pelo vírus, possui 25 mil leitos de UTI completos com suporte respiratório, sendo o segundo país com o maior número de leitos por habitante perdendo apenas para os Estados Unidos, mas que se diferencia desse pelo fato de que a maior parte dos leitos fazem parte do sistema público de saúde.

Outro fator que a Europa está se destacando é a agilidade com que se pode detectar o coronavírus: a maior parte dos países possui um grande número de laboratórios e investem grandes quantias em pesquisa, possibilitando a facção de diversos testes que permitem detectar a doença em seu estágio inicial.

O grande erro dos países europeus foi o de não pensar em medidas para se prevenir a disseminação do vírus e contar apenas com a tecnologia do sistema de saúde. O imaginário imperialista fez com que os governantes pensassem que bastava apenas fechar as fronteiras, sem se dar conta que o problema já estava ali e não era mais possível culpar o estrangeiro: A Europa está infectada.

PARTE 3: O CONTINENTE ESQUECIDO

No meio do frenesi mundial para conter o coronavírus, pouco se fala sobre os impactos que a doença terá no continente vizinho dos mais afetados. A África é nesse contexto o local que mais pode ser afetado com mortes pelo vírus, uma vez que o sistema de saúde da maior parte dos países é extremamente precário, faltando quase sempre materiais, unidades de terapia intensiva e até médicos.

Apesar das circunstâncias alarmantes dos outros continentes, medidas tomadas pelos Ministérios da Saúde dos países, mostram uma mobilização para conter a todo custo maiores efeitos causados pelo vírus. Nesse sentido, daqui poucos meses alguns países já vão estar se encaminhando para a normalidade como alguns países asiáticos já tem feito. Essa realidade não será a de países africanos: afetados por doenças como ebola, malária, tuberculose e aids, o sistema de saúde da maior parte das regiões irá enfrentar um número maior de mortes.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem focado a sua atuação em países ricos. É certo que a Europa tem os países mais afetados, mas é certo também que os impactos serão maiores para regiões mais pobres. Tedros Adhanom Ghebreyesus, presidente da OMS, não tem trazido o debate para continentes mais pobres, como África, América Latina e Oriente Médio, onde os impactos serão muito mais severos.

PARTE 4: SOLIDARIEDADE E RESILIÊNCIA

A falta de saneamento básico, indivíduos vivendo em grandes aglomerações e sistemas precários de saúde pública estão evidenciando a vulnerabilidade de regiões que antes estavam completamente esquecidas pelos seus governantes.

Apesar de tudo, mobilizações intercontinentais estão acontecendo para que as pessoas fiquem em casa. Cada vez mais, grupos se unem para cobrar dos governos rápidas respostas e medidas de segurança. O debate ao direito à cidadania nunca foi tão latente. O vírus sinaliza que, com a globalização, já não é mais possível pensar em fechar fronteiras como principal solução.

Agora, é preciso aproveitar o momento em que todas essas questões estão evidentes para buscar soluções eficazes que vão além do combate ao vírus e cabe às autoridades tirar proveito de exemplos positivos sendo realizados ao redor do mundo. 

Beatriz Faria
Especialista em Conteúdo da Necta - Conexões com Propósito

Últimas Matérias

TURISMO SUSTENTÁVEL

O setor é responsável por 10% do PIB e conta com 1,2 bilhões de turistas anualmente O Smart Sustainable Tourism for Development é conceito caracterizado...

EMPREENDEDORISMO EM SMART CITIES

O fomento ao empreendedorismo e a inovação tecnológica pode ser a solução para as cidades melhorarem estatísticas.   Nunca foi tão importante discutir empreendedorismo como neste...

LONGEVIDADE EM SMART CITIES

Como cidades humanas, resilientes e inclusivas devem se adaptar ao cenário do envelhecimento crescente da população.   De acordo com a segunda edição do Índice de...

ARTIGO PAULA FARIA – EMBAIXADORA MOBILIDADE ESTADÃO: ENCURTAR DISTÂNCIAS É UM DOS GRANDES DESAFIOS DA MOBILIDADE

Mais que melhorar a experiência ou a rapidez com que as pessoas atravessam a cidade, mobilidade urbana significa acesso a oportunidades *Por Paula Faria  “Como sair...

CENSO MOSTRA QUE ENSINO A DISTÂNCIA GANHA ESPAÇO NO ENSINO SUPERIOR

Em 2009, as matrículas dos calouros em EaD representavam 16,1% do total. Em 2018, elas representavam 39,8% do total de estudantes que ingressaram nas...