COMO O CORONAVÍRUS MOSTRA A NECESSIDADE DE RESILIÊNCIA

Apesar do coronavírus evidenciar a vulnerabilidade do país, medidas de contenção apontam para um futuro resiliente.

Parece que somente em momentos de crise se percebe a necessidade e a importância de algumas políticas públicas. A fragilização do SUS nos últimos quatro anos com os cortes incessantes na saúde, a paralisação do Programa Mais Médicos, a redução ao apoio ao Instituto de Pesquisa Fiocruz e o enfraquecimento dos financiamentos à pesquisa se tornarão assunto de debate constante com a disseminação do COVID-19. 

A capacidade de resiliência que uma nação possui é tanto um requisito para se passar por momentos como esse, quanto o único caminho possível para ser atingida. O caráter duplo do conceito está justamente nas entrelinhas de sua definição: a capacidade de se redobrar facilmente à má sorte ou às mudanças só pode ser testada quando se está passando por um momento de turbulência. 

Uma cidade resiliente é aquela com uma alta capacidade de adaptação: o planejamento contínuo para que, quando existam situações de adversidade, o impacto em sua infraestrutura seja mínimo. Considerando que 75% da população mundial irá viver em centros urbanos até a metade do século e que, atualmente, esses hospedam 70% da economia global em apenas 2% do território do planeta (Boeck, 2016), nunca foi tão necessário discutir estratégias de resiliência. 

NO MEIO DO CAMINHO DO BRASIL TINHA UMA PEDRA

As soluções resilientes são necessariamente fruto de políticas públicas que promovam uma cidade socialmente inclusiva. A desigualdade social afeta o planejamento urbano e expõe milhares de cidadãos a riscos de sobrevivência que poderiam ser facilmente evitados- de acordo com dados do IBGE de 2016, mais de 11 milhões de brasileiros vivem em favelas, já somatizando mais de 6 mil comunidades em 323 municípios 

Além disso, o período de recessão econômica aumentou o número de trabalhadores sem contrato formal de trabalho: quase metade da força produtiva do país não possui nenhum sistema de proteção social para períodos turbulentos, o que ficou evidente na crise do coronavírus

As favelas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, denunciam a falta de água há 12 dias, enfatizando que é impossível seguir as orientações de higiene para a prevenção da doença. A realidade que os moradores das comunidades enfrentam é a de falta saneamento e abastecimento de água, além da superlotação das casas e extrema proximidade com os vizinhos. 

Como resultado disso, especialistas apontam que, apesar do vírus não discriminar entre classes sociais, a população de baixa renda está muito mais vulnerável e a chance do número de contaminados ser maior que da parte mais abastada da população é grande. O conceito é claro: não existe isolamento social quando se tem um grande número de moradores na mesma residência, em áreas de extrema densidade demográfica e com falta de condições sanitárias. 

NÃO PODEMOS ESQUECER OU IGNORAR AS PEDRAS DO CAMINHO

Se Carlos Drummond de Andrade nunca se esqueceu da pedra que encontrou em seu caminho, as cidades também não deveriam: o coronavírus está deixando evidente as deficiências sociais e desafios que as cidades brasileiras precisam enfrentar para se tornarem mais resilientes. 

Apesar de tudo, é preciso encontrar a luz no fim do túnel: os laboratórios brasileiros estão sendo atualizados e o sistema de vigilância tem se mostrado eficiente para detectar casos de coronavírus suspeitos. A rápida articulação das autoridades e a facilidade de mudança de tomadas de decisão para conter o vírus são surpreendentes também. 

Além disso, iniciativas para ajudar as populações de baixa renda já estão sendo analisadas: o Governo considera a possibilidade de utilizar navios para isolar moradores de comunidades com sintomas leves da doença, apenas com a finalidade de proporcionar o isolamento social. Nas regiões não litorâneas, está sendo estudado o uso de quartos de hotéis e unidades habitacionais ainda não entregues como maneira de atender a população. 

A resiliência é justamente a capacidade de adaptação e processo de ajuste. É preciso questionar: o Brasil está encontrando maneiras de resistir e levará essa lição para o futuro?

Beatriz Faria
Especialista em Conteúdo da Necta - Conexões com Propósito

Últimas Matérias

LONGEVIDADE EM SMART CITIES

Como cidades humanas, resilientes e inclusivas devem se adaptar ao cenário do envelhecimento crescente da população.   De acordo com a segunda edição do Índice de...

ARTIGO PAULA FARIA – EMBAIXADORA MOBILIDADE ESTADÃO: ENCURTAR DISTÂNCIAS É UM DOS GRANDES DESAFIOS DA MOBILIDADE

Mais que melhorar a experiência ou a rapidez com que as pessoas atravessam a cidade, mobilidade urbana significa acesso a oportunidades *Por Paula Faria  “Como sair...

CENSO MOSTRA QUE ENSINO A DISTÂNCIA GANHA ESPAÇO NO ENSINO SUPERIOR

Em 2009, as matrículas dos calouros em EaD representavam 16,1% do total. Em 2018, elas representavam 39,8% do total de estudantes que ingressaram nas...

SMART MOBILITY

Com a pandemia do coronavírus, soluções de mobilidade individual se tornaram mais atrativas De acordo com dados da Associação Nacional dos DETRANS, o Brasil possui uma...

PROJETO DO GOVERNO CRIA MARCO LEGAL DAS STARTUPS E DO EMPREENDEDORISMO INOVADOR

Os objetivos do governo com a proposta incluem fomentar esse ambiente de negócios; aumentar a oferta de capital para investimento em startups; e disciplinar...